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27 setembro 2014

Queerificando Antígona

"Na interpretação clássica de Hegel, presente em obras como a Fenomenologia do espírito, asLições sobre a filosofia da religião e Cursos de estética, Antígona representaria a esfera familiar, privada, que deve submeter-se à esfera pública universal do Estado, representada por Creonte, para que haja uma ordem ética compartilhada por todos. Em primeiro lugar, salta aos olhos de Butler que Hegel considere Antígona a representante dos interesses familiares privados, do matriarcado que deve ceder lugar ao patriarcado-estatal, quando a situação familiar na qual vive é totalmente atípica. Ela é fruto da relação incestuosa entre Édipo e Jocasta e, além disso, na luta pelo direito a enterrar seu irmão morto, demonstra-lhe, em palavras e gestos, um amor incestuoso. Segundo a interpretação de Lacan, em Seminário 7, a peça de fato não abordaria um conflito entre duas esferas de interesses  opostos, ao contrário, ambos, Creonte e Antígona, seriam vitimas de um mesmo impulso  autodestrutivo inconsciente, a pulsão de morte, que os conduz para a destruição, mesmo quando desejam fazer o bem."

link: aqui

21 setembro 2014

Noites do Norte - Caetano Veloso/Joaquim Nabuco

"A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte... É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte."


Link: http://www.vagalume.com.br/caetano-veloso/noites-do-norte.html#ixzz3DzYqlJpr

19 setembro 2014

"O tom que vejo sendo adotado pela militância dilmista nas redes, tal como se a defesa da candidatura fosse um 'dever com o povo pobre', é péssimo e ilustra bem a interiorização do lulismo pelo petismo. Não há mais qualquer veleidade de promover a auto-organização de trabalhadores, pobres e favelados, de agir enquanto governo no sentido de criar políticas de mobilização autônoma da sociedade, para além das próprias diretivas que caracterizam a auto-imagem do partido, a sua representação enquanto partido dos que não podem se organizar -- e que, entretanto, doze anos depois, já romperam essa 'condição' que, de fato, nunca existiu, pois o PT sempre foi um organização dos trabalhadores, mas também dos pobres. Há apenas a enunciação desse 'dever', uma tentativa de vencer não pela radicalização à esquerda (que, de resto, se resume a afirmar e desafirmar pautas -- como a criminalização da homofobia -- até não se saber mais muito bem a posição do partido -- justamente aquilo que se ironiza em Marina, com correção, aliás -- ou a fazer de propostas que circularam nos governos petistas, com aval e aprovação de ninguém menos que Lula, uma hipócrita anunciação do fim dos tempos), mas pela disseminação de uma expectativa difusa de culpa diante da possibilidade da derrota do PT. O xadrez que o partido joga lembra aquela partida jogada por Antonius Block, personagem d''O sétimo selo' (1957) de Ingmar Bergman. Uma partida contra a (sua própria) morte. Uma partida cujo único horizonte é a derrota, se não eleitoral (pois por mais equivocada que seja a campanha do ponto de vista político e ético, nada a impede de ser eleitoralmente eficaz), certamente política."

Silvio Pedrosa - Facebook