12 dezembro 2016

O futuro? Tem orelhas,
mas é surdo. E é manco.
Se arrasta, sem espanto
mas alheio do que lúcido
com o nosso despreparo.
Se fosse um deus amava o humano, mas como não existe
o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
de cronogramas, nem de antecipações.
Tem firmeza de flor. E é
invisível, reconhecido
por seus efeitos de brisa
furacão. Nunca adiado.
Não tem nada a ensinar
no entanto é um mestre
dizem os esgrimistas
os observadores de saltos
os gatos também
aprendem certos truques com ele.
E se ama os despreparados
lhe sabem tanto os que fazem
quanto os que esperam.
Os otimistas valem mais
valem quanto?
Com bifurcações,
sucessivas gerações
de bem-aventurados
que topam em pedras
cicatrizam e correm
bem alimentados
com fome de mais
alimento.
São seus sinais
os imprevistos, os cavalos
os pontos cardeais,
os cinco sentidos
e os sete buracos da cabeça.
Júlia de Carvalho Hansen, em Seiva veneno ou fruto.

via Pricilla Campos 

11 dezembro 2016


"De certa forma, o medo é o filho de Deus, redimido na noite de sexta-feira. Ele não é belo, é zombado, amaldiçoado e renegado por todos. Mas não entenda mal, ele cuida de toda agonia mortal, ele intercede pela humanidade.

Pois há uma regra e uma exceção. Cultura é a regra. E arte a exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. Ela não é dita, é escrita: Flaubert, Dostoyevski. É composta: Gershwin, Mozart. É pintada: Cézanne, Vermeer. É filmada: Antonioni, Vigo. Ou é vivida, e se torna a arte de viver: Srebenica, Mostar, Sarajevo. A regra quer a morte da exceção. Então a regra para a Europa Cultural é organizar a morte da arte de viver, que ainda floresce.

Quando for hora de fechar o livro, eu não terei arrependimentos. Eu vi tantos viverem tão mal, e tantos morrerem tão bem."


Godard

"O primeiro bloco do Jornal Nacional, longuíssimo, foi dedicado à delação de Cláudio Melo Filho, em capítulos: Temer, PMDB no Senado, na Câmara, deputados de vários partidos. Foram detalhados todos os esquemas de propina e a que se prestavam (aprovação de projetos e MPs de interesse da empresa).
O PT, sócio do esquema, aparece via ~mulher mais honesta não há~, que tratou de isenções fiscais às empresas corruptoras, inclusive a Odebrecht. Consta tb que pediu um favorzinho à amiga Gleisi, e todos sabemos o quanto a ~mulher mais honesta do país~ lutou para que Belo Monte, um projeto da ditadura, fosse desenterrado e levado a cabo. 
No mais, como também está evidente, O PACTO que produziu o impeachment , numa tentativa de blindagem , estava decidido COM OU SEM MANIFESTAÇÕES. Aliás, quem se posicionou pela cassação da chapa e por eleições gerais já naquele momento, era também ~golpista~. Uns iluminados esses apoiadores da apropriação do Estado para fins privados. 
Leio ataques às manifestações de 2015 e 2016. Mas já tentaram desqualificar as de 2013 e 2014 também, porque protesto bom tem que ser necrogovernista. As pessoas precisam decidir: uma hora responsabilizam as manifestações ~coxinhas ~pelo impeachment, noutra ridicularizam a zero influência delas no acordão que manteve o companheiro Renan. As duas coisas não dá.
E quem tem mais de dois neurônios deveria se poupar da vergonha. Sobretudo quando vem com o papo furado “ mimimi vocês queriam o impeachment da honestona, ficaram os bandidos". Não sejam ridículos. A máfia nos últimos anos foi também formada pelo PT e esse desgoverno interino está aí porque foi ESCOLHIDO para a vice-presidência , e para dividir o loteamento do Estado. 
==============
Em tempo: a direção do PSOL aprovou campanha pelas #DiretasJá . Melhor que nada. Só que a batalha deve ser por eleições gerais."


Vera Rodrigues 
A MORTE SEM MESTRE (Herberto Helder)
[...]
e entre as coisas técnicas do apartamento,
máquinas de medir o pequeno tempo, digo:
relógios de parede – um,
relógios de pulso – três, mas apenas um que funciona furiosamente,
e rádio e tv e telemóveis,
esmagam-me meu Deus por assim dizer com a sua verdade última
sobre a morte do corpo,
dizem apenas: igual ao pó da terra, que não respira,
o que é falso, pois eu é que deixarei de respirar
sobre o pó da terra que respira,
entre o poema sumério e este poema de curto fôlego
mas que talvez respire, um dia,
ou dois, ou três dias mais:
quanto às coisas sumérias: as mãos da rapariga,
o cabelo da estreita rapariga,
a luz que estremecia nela,
tudo isso perdura entre nós dois pelos milénios fora,
e delas eu estremeço ainda
queria ver se chegava por extenso ao contrário:
força e pulsação e graça,
isto é: a luz, de dentro, despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela / estela
[...]

09 dezembro 2016

CURSO ANTI-ÉDIPO P/DOWNLOAD
"Anti-Édipo; capitalismo e esquizofrenia" (Deleuze & Guattari, 1972)

Aula 1 - Introdução: o ciclo de 1968
Aula 2 - O conceito de produção no desejo
Aula 3 - Inconsciente maquínico contra Édipo
Aula 4 - A morte de Deus, do Homem, do Mundo
Aula 5 - Esquizoanálise: ciência da subversão

(Casa de Rui Barbosa, Rio, de 3 a 28/11/2016)

link: aqui

07 dezembro 2016

"hoje conversei duas vezes, com duas pessoas absolutamente diferentes, sobre a consciência de se ter consciência.
terminado o dia, abro as mídias 
& o que acontece no país é tão antagônico 
com conversar sobre a consciência de se ter consciência

que eu fiquei confusa, mas não inconsciente. 
ainda não. nestes dias de falência total 
além de sobreviver através de um autismo informacional 
só penso no Drummond: "posso, sem armas, revoltar-me?".

claro que se a gente pensar esse "posso" como "se eu posso ou não" a interpretação não chega aos pés da indignação de "A flor e a náusea". a questão é: a indignação é tanta que convoca armas, mas canivetes facas eu as não possuo, eu não as terei.

mas isto não quer dizer: nem nunca há de significar: derrota.
vâmo lá, people, se tá osso, vamos roer."


Julia Hansen
"JORGE VIANA E O SEXO DOS BEBÊS
Quando mais novo, ouvi a seguinte anedota: havia um obstetra que, antes de existirem as ultrassonografias, sempre acertava o sexo dos bebês. Como ele fazia isso? Dizia aos pais que seria menino e escrevia em um papel que seria menina. Quando o bebê nascia, se fosse menino já teria acertado, se fosse menina, bastava apresentar o papel e dizer que a memória dos pais tinha falhado.
Essa anedota é uma boa metáfora de como o PT segue mantendo sua hegemonia na esquerda e os acontecimentos recentes envolvendo Jorge Viana demonstram isso à perfeição. Desde que a decisão de afastar Renan veio a público, Viana já deu declarações para todos os dois lados, prometendo suspender votações como a da PEC 55 e se dizendo impedido de assumir. Ontem o senador assinou uma versão do documento da mesa do Senado recusando-se a cumprir a liminar que afastava Renan Calheiros e deixou de assinar a outra.
O que na boca e na pena de uma só pessoa torna patente o engodo, no funcionamento de um partido continua eficaz como mistificação. Quantas vezes já não vimos o partido se "dividir" em pautas polêmicas? Na última delas, um grupo de parlamentares lançou um manifesto contra a anistia ao caixa 2, enquanto outro se mobilização pela aprovação. Pra fechar a conta, o partido votou pela votação secreta do tema, permitindo assim que todos votassem pela anistia sem precisar escancarar a mistificação.

Em todas as situações recentes, esse foi o método para construir a mistificação de que o partido, apesar de aliado em larga escala da direita por todo o país, é oposição a ela. Agora que um senador do PT é o grande articulador da volta de Renan à presidência do Senado junto ao STF, garantindo assim a votação da PEC 55 ainda em tempo hábil este ano, dirão que ele não é todo o PT, personalizarão e moralizarão os conhecimentos, chamando-o de covarde e traidor. E a máquina da mistificação, da qual a esquerda do partido é parte crucial, vai continuar funcionando. O médico, afinal, nunca erra. Mas mente."

Silvio Pedrosa
"O Avião da Lamia e a Mesa Diretora do Senado
não tem nada a ver ... e tudo a ver !
O avião saiu com um plano de vôo que deveria ter sido vetado pelas autoridades bolivianas. A controladora avisou que o avião não tinha carburante suficiente e o plano de vôo era ilegal. Mas o Lamia foi assim mesmo e vai saber quantas vezes fez isso antes!

O Calheiros deveria estar afastado da presidência do Senado, mas ele e a mesa diretora, o PMDB com apoio do PT, golpistas e golpeados decidiram que não: a Lei é cumprida contra os pobres da maneira mais injusta que se possa imaginar, enchendo os presídios de jovens negros e pobres, mas contra senadores e deputados milionários (como o governador do Rio) é atentar contra a "democracia": do mesmo jeito que Calheiros chamou de sagrada a Lava Jato na hora que estava tentando destruí-la, agora chama de democracia sua decisão de não respeitar o jogo democrático.
E o PT é obrigado a explicitar o que já sabíamos: o impeachment é uma reorganização interna ao Bloco do Biopoder: o PT saiu para segurar o que resta de suas bases e a esquerda do PT (a DS em particular) ir propagando NARRATIVAS FANTASIOSAS sobre o golpe para a nomenclatura intelectual altermondialista assinar) ao passo que Lula e caterva se escondiam atrás do Calheiros e das tentativas da casta de se safar diante da Lava Jato e nos repassar a conta da crise que geraram.

A Mesa Diretora do Senado é como o Avião da Lamia"

Idelber Avelar 
"É difícil decidir qual categoria está fazendo as melhores leituras do que acontece no Brasil, mas as mais ingênuas, sem dúvida, são as dos juristas. Desde que comecei a escrever sobre violência, justiça, castigo, lei (uma parte disso está publicada por aí: http://bit.ly/2gQGaHy), o Direito nunca foi uma área entre outras para mim. É um campo de interesse especial. Leio os amigos juristas com atenção.
Não cessa de me chamar a atenção a ingenuidade com que trabalham -- as exceções são pouquíssimas -- as categorias de "legal", "ilegal", "legítimo", "ilegítimo", "constitucional", "inconstitucional", assim, virgens, como se fossem conceitos com sentido positivo determinável fora da porradaria política. Chega a ser cômico ver a discussão na minha TL, sobre se o ato de Marco Aurélio foi constitucional ou não, sobre se a reação da Mesa do Senado foi legal ou não, tudo assim, sem nenhuma outra variável na mesa.
Amigos juristas, há que se partir, em primeiro lugar, da óbvia constatação: se algo é inconstitucional ou não, NÃO IMPORTA para a efetiva realização da coisa. Tudo o que importa na política é a porrada, a relação de forças. Depois, tendo entendido isso, aí sim, você pode fazer a análise de como o dado jurídico entra na equação da coisa.
O primeiro capítulo da Genealogia da Moral, do Bigodón, deveria ser requisito em todos os cursos de Direito: a lei nunca vem antes. Em primeiro lugar, existe porrada, sangue. Depois, os vencedores da porrada judicializam, tornando ilegal a porrada à qual recorreram para vencer. Não é difícil de entender. Isso, aliás, está no Manifesto Antropófago de Oswald também.
Se os amigos juristas entendessem isso, se trabalhassem com essa variável, fariam análises menos ingênuas do que acontece hoje no Brasil."

Idelber Avelar
"Me parece que se partimos da pergunta "o Estado de Direito existe ou não existe?" é inevitável cair em idealizações que terminam pressupondo uma continuidade ilusória entre a dogmática e o real e que acabam servindo, por exemplo, para sustentar esse discurso do golpe, que pressupõe que antes de 12 de maio o Brasil tinha um estado de direito funcionando. 

É muito mais produtivo, me parece, pensar "estado de direito" como uma categoria, uma ficção, uma construção-zinha teórica, que enquanto tal, na realidade, sempre esteve mesclada com as piores manifestações do chamado estado de exceção. Aliás, se você for cavoucar mesmo, verá que a própria invenção desse conceito de estado de direito é parte de uma operação bastante brutal, eivada e atravessada por procedimentos de exceção -- embora seu funcionamento teórico necessite da ficção, da ilusão, de que estado de exceção e estado de direito sejam coisas separadas e antagônicas. 

Em outras palavras, Christiane, não se trata apenas de entender que a porrada vem antes do Direito. Trata-se de entender também que o Direito é 1) moralmente indistinto daquela porrada; 2) construído sobre a ilusão de que ele é um antídoto àquela porrada."

Idelber Avelar 

04 dezembro 2016

RADUZIR-SE
Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Ferreira Gullar

03 dezembro 2016

"Lá de onde eu venho, safado, pilantra, sem-vergonha, babaca, escroto e filho da puta são epítetos normais, que a gente usa entre amigos e irmãos. Viado também era, mas viado a gente deixou de usar para não fomentar preconceito homofóbico. Tomar no cu a gente ainda usa, mas talvez a correção política elimine este também. Em todo caso, tudo isso é normal entre nós.
GOLPISTA, NÃO. Golpista não, porque lá de onde eu venho ainda tem gente com marca de tortura no corpo. Lá de onde eu venho, ainda tem cadáver que não encontramos e nem vamos encontrar. Ainda tem muita memória -- eu mesmo tenho -- do que é um golpe. Por isso, lá de onde eu venho, é muito mais grave chamar alguém de golpista do que de pilantra ou safado.
A esquerda brasileira que morreu abraçada ao governo anterior -- e boa parte da esquerda que nem era governista -- usou e abusou do direito de distribuir levianamente rótulos de golpista no último ano e meio. Ter uma leitura diferente da realidade política passou a ser suficiente para receber deles a etiqueta de golpista. Racharam associações acadêmicas, aparelharam sindicatos e associações populares, tudo para impor uma versão da realidade que nem 5% da população brasileira compartilha.
O resultado está aí: isolados, sem proposta nem pauta, gritando "Fora Temer" durante ano e meio para depois soltar um "não é bem assim" justamente na hora em que Temer pode mesmo cair, perguntando "cadê as panelas?" durante meses para depois ficar de braços cruzados olhando enquanto os paneleiros vão de novo às ruas, presos em uma psicótica narrativa que tem que inventar uma teoria da conspiração diferente para cada fato novo que surge, humilhados nas eleições.
Só podia dar nisso mesmo. Em um país como o Brasil, você não banaliza a palavra "golpe" impunemente."

Idelber Avelar

Clarice Lispector por Roberto Corrêa dos Santos - Clube de leitura do IMS

"Futebol é paixão. Nele é possível provar a experiência do conhecimento, sem medidas que pretendam equilibrar razão e emoção para extração de resultado otimizado.
Para Albert Camus, futebol é inteligência em movimento. Inteligência de rebeldes que não se confunde com a sapiência de scholars. É inteligência em e do movimento, rebeldia e animalidade.
É do campo, constrói narrativas fantásticas que suplantam vitórias militares, como a mão de deus Maradona em 1986 contra a esquadra britânica (pouco importa os interesses de generais e governantes); a animalidade de Edmundo nos anos 1990 e sua linha atacante verde de cem gols (pouco importa os interesses de multinacionais); a voadora certeira de Éric Cantona do campo para a arquibancada contra um hooligan neonazista.
Se os estrategistas da bola, para quem o gol era um detalhe, dominaram o niilismo dos anos 1990 com seu esquema de três zagueiros e três volantes de contenção, a rebeldia indomável ainda vivia fora do circo global da nova ordem montada no pragmático USA.
Hoje, quando a inteligência e a força desembarcam na terra do lendário futebol poético com Neymar e o verde Hulk, a revolta circula pelas ruas e desorienta estrategistas, governistas e pragmáticos até mesmo quando a rebeldia em campo anda 1/2 domesticada pelo entoar de hinos da pátria de chuteiras.
Uma coisa são os investidores, os patrocinadores, os negócios e os investimentos, humanos e financeiros, que capitalizam o jogo convertido em espetáculo para subordinar a arte às mesquinharias políticas dos autoritarismos ou das encenações democráticas.
A revolta é paixão incontível: nas ruas ou na grama ela irrompe quando menos se espera, em sua beleza e tragi-cidade.
No campo há poesia e inteligência, força e coragem. Na rua há poesia, rebeldia e coragem também. E luta. Em um entre adversários, em outra entre inimigos.
Em ambas há o inimigo comum: o negócio (dos business que consomem subjetividades) e o pragmatismo; a correlação entre esquema tático e a estabilidade política.
Na inteligência do jogo e dos enfrentamentos, os oponentes podem ser driblados, e poeticamente jazerem na grama, rodopiarem atônitos procurando pela bola que os encobre, desliza adiante, passeia entre suas pernas e que se destina a um pé, uma cabeça, uma coxa, até mesmo um braço despercebido ou escandalosamente estendido para tocá-la para as redes, reiterando a derrocada de um árbitro que se arvora em ser juiz.
Torcemos pelo drible e pelo gol.
A mistura futebol e política pretende encobrir ditaduras, celebrar misérias, maquiar hipocrisias, vender marcas, justificar prisões e garantir espaços arrendados, na atual democracia, para empresas transnacionais por meio de leis de exceção.
Se o esquema tático é a estratégia de vencedores pragmáticos, o drible é a tática dos poetas rebeldes da bola.
Torcemos pela tática.
O drible é a antipolítica do futebol.
Futebol é poesia e gol. É prosa somente entre cumpadres amistosos que se dedicam diante de cada adversário ao poder conjunto de suprimir os inimigos".
(Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária, Hypomnemata, Jun-2014

01 dezembro 2016

"Então eu quero dizer que estética é a forma de cognição crítica do corpo, e que este conhecimento sensorial pode e deve ser politicamente confiável. É empatia ao invés de simpatia, porque é capaz de produzir solidariedade com quem não é parte do nosso próprio grupo, que não compartilha nossa identidade coletiva. Quero dizer que a estética expõe a “razão” como o modo que o poder tem para defender sua própria perpetuação. Quando você fala de obras estéticas operando em algum tipo de nível pré-simbólico, é isto o que eu tenho em mente. Mas não é exatamente “pré-político”. O problema é que uma grande parte do que passa por experiência “estética” mascara a realidade material ao invés de abri-la para nossa percepção crítica": link
"Uma das polêmicas que tenho tido com pessoas queridas é sobre os efeitos da narrativa do golpe, a necessidade de continuar atento a eles e alerta à tarefa de desmontá-los. “Ah, pra que você ainda fica criticando a esquerda, agora é a direita que está no poder, vamos centrar fogo no Temer”, me dizem.
Sorry, não. Centrar fogo no Temer, sim, como já fiz aqui várias vezes e continuarei fazendo. Abandonar a desmontagem da narrativa do golpe, nem que a vaca tussa. Porque essa narrativa continua produzindo os seus efeitos mais perversos.
“Ah, mas o PT já está tão fraquinho, pra que bater nele?” Não se trata de PT ou PcdoB ou qualquer instituição política, mas dos efeitos políticos de uma operação retórica. Esses efeitos estão visíveis na entrevista de Joaquim Barbosa à Folha de São Paulo, incensada à direita e à esquerda em minha TL hoje.
Em primeiro lugar, a grande ironia. Durante o julgamento do mensalão, Joaquim Barbosa foi chamado de tudo pelo ex-governismo, até de capitão-do-mato. Bastou colocar-se contra o impeachment para ser alçado à condição de analista com palavra final. Mas esse tipo de incoerência já é mato. Vamos ao conteúdo da entrevista, que é o que interessa.
Segundo Barbosa, dez pessoas se reuniram para tramar o impeachment de Dilma e derrubaram-na. A paráfrase é exata, é só seguir o link da entrevista (http://bit.ly/2fOmzUm) e ver que é isso mesmo o que diz Barbosa. Mônica Bergamo insiste: “O que sustentava esse grupo? Porque dez pessoas apenas não fazem um impeachment.” E mesmo tendo o espaço para trazer uma mínima complexidade à análise, a única resposta de Barbosa é “era um grupo de líderes em manobras parlamentares que têm um modo de agir sorrateiro. Agem às sobras. E num determinado momento decidiram [derrubar Dilma]. Acuados por acusações graves, eles tinham uma motivação espúria: impedir a investigação de crimes por eles praticados.”
Que havia no impeachment de Dilma uma tentativa de recomposição da classe política acossada pela Lava Jato é fato. Que dez parlamentares corruptos se reuniram e deram início a tudo é coisa de quem se esqueceu de todos os jornais que leu em 2015. Em 15 de março de 2015, muito antes de qualquer grande articulação da classe política, centenas de milhares de pessoas se reuniram na Avenida Paulista bradando pelo impeachment, por convocação era de associações da sociedade civil. O PSDB dava declarações contraditórias, cindido entre os interesses de Alckmin, Serra e Aécio. Em agosto de 2015, meses depois que multidões já estavam na rua, ninguém menos que o Jornal Nacional (http://bit.ly/1K8Mzlp) lançava editorial de apoio a Dilma, chamando a iniciativa do impeachment de irresponsável.
Ao ser confrontado com a pergunta acerca do apoio de “setores econômicos” ao impeachment, Barbosa responde: “A partir de um determinado momento, sob o pretexto de se trazer estabilidade, a elite econômica passou a apoiar, aderiu. Mas a motivação inicial é muito clara.” O Brasil deve ter realmente uma elite econômica muito numerosa, porque a taxa de apoio ao impeachment naquele momento chegava a 70%. Se somados os apoios ao impeachment e à realização de novas eleições, o suporte à saída de Dilma chegava a 90%. A Presidente naquele momento não tinha o apoio de 10% da população. Mas, para Barbosa, foi só a “elite econômica” quem aderiu.
Aderiu, nos diz ele, pelo “pretexto da estabilidade econômica”. Como se o país realmente não estivesse mesmo em frangalhos, com seis trimestres consecutivos de encolhimento do PIB, 10 milhões de desempregados, colapso das contas públicas e uma longa de etecéteras. Mas tudo isso, segundo Barbosa, foi um “pretexto”.
Em outras palavras, está em curso um processo de esquecimento da ordem em que as coisas aconteceram e de tudo o que se noticiou em 2015. Esse esquecimento normatiza, retrospectivamente, uma série de brutalidades da nossa história, tal como fica visível também na entrevista de Barbosa. Segundo ele, “o Brasil deu um passo para trás gigantesco em 2016. As instituições democráticas vinham se fortalecendo de maneira consistente nos últimos 30 anos.”
A narrativa da melhoria progressiva, do constante fortalecimento das instituições democráticas, que teriam subitamente sido lançadas para trás em 2016, não é uma estratégia decente para enfrentar o governo Temer. Inclusive porque essa estratégia superestima o poder de fogo desse governo e regulariza uma série de horrores vividos ao longo da história pelos mais pobres, que não costumam se reconhecer nesse conto da carochinha do fortalecimento progressivo das instituições democráticas.
Para coroar a caricatura, Barbosa nos diz que “todas as teorias dos últimos 30 anos, de hipertrofia da Presidência, de seu poder quase imperial, foram por água abaixo” – como se as teorias do funcionamento da democracia brasileira, do presidencialismo de coalizão do Limongi ao pemedebismo do Marcos Nobre, não demonstrassem exatamente o contrário, que o Brasil é um dos países presidencialistas de maior dependência do Presidente em relação ao parlamento. Que teorias da “Presidência imperial” são essas às quais ele alude, enfim, não se sabe.
Segundo Barbosa, o Brasil estaria começando a ser visto agora como uma República das Bananas no exterior. Tenho viajado pelos EUA e por outros países e há, sim, em alguns setores, empatia com o que Dilma sofreu. Percebe-se, sim, que há alguma inflexão diferente na política externa. Mas dizer que o Brasil está começando a ser visto como República das Bananas é delírio de quem não sabe do que está falando ou distorce deliberadamente.
Barbosa pode ser um grande jurista. Não é um analista político segundo o qual pautar nada. Transformá-lo nisso, como fizeram com Glenn Greenwald, por interesse ou conveniência política, vai cobrar o preço lá na frente.

Avisei em 01 de dezembro de 2016."

Idelber Avelar 

30 novembro 2016

AS LINHAS DA ESTRATÉGIA SÃO TORTAS - Silvio Pedrosa
"A dificuldade da atual conjuntura tem como nó górdio o seguinte impasse: o governo Dilma nos legou um resultado econômico de empobrecimento generalizado (em 2015 a renda média caiu 5,4%, segundo o IBGE) e esse resultado ficou identificado não só com as políticas de um governo de esquerda, mas com o conjunto da esquerda que se uniu na hora derradeira ao governo. Não bastasse isso, estabeleceu-se a conexão entre a corrupção generalizada que a Lava-Jato expôs e as dificuldades financeiras e econômicas do país.
Então, por mais que a esquerda agora se esforce para tornar apocalíptica a imagem da PEC 241/55, ela não é vistá assim, porque a formatação da imagem da situação do país não passa por esses circuitos de entendimento da crise. A população estabeleceu, de fato, uma conexão estrita entre a PEC como uma medida necessária de ajuste das contas públicas e o pacote anti-corrupção como seu complemento necessário. O fato de que o PT tenha encampado os protestos contra a PEC, após entregar a maior recessão da história da nossa economia, e também a auto-anistia do caixa 2, apenas ajudaram a reforçar a imagem de justeza desse diagnóstico.
E, pensemos por um minuto, ele não é justo? Um dos graves problemas da esquerda, hoje, é ter abandonado completamente formulações sobre a corrupção como modo de governo. Apenas se naturalizou a questão como se não pudesse ser de outra maneira, enquanto a direita traçou sua estratégia a partir da captura da justa indignação com o sistema político.
Da mesma forma, o petismo conseguiu, a partir da sua hegemonia sobre as esquerdas emplacar um dilema abstrato e formalista que não permite pensar a Lava-Jato de um ponto de vista estratégico, apenas recusá-lá por inteiro em nome de uma defesa do "estado de direito" que faz a esquerda defender os privilégios de elites políticas que são verdadeiras máfias, constituídas a partir das tramas do financiamento eleitoral.
O que sobra? Apenas uma esquerda idealista, cuja forma de apresentação dos problemas diante da sociedade sempre parece ser desenhá-los a partir de um ponto de vista moral -- que mesmo quando tenta traçar as redes de interesses que os sustentam, acaba reificando o problema como se ele não fosse essencialmente político, constituído a partir das relações de força. O próprio enquadramento da visão popular sobre a corrupção como estritamente moral é uma moral tomada pelo avesso quando não se pretende mobilizar esse sentimento a partir de uma estratégia política, apenas conservar as coisas como elas são.

A justeza da visão popular sobre a conjuntura é tal que um dos únicos meios de se barrar a PEC 241/55, bem como outras reformas de Temer, é traçar uma estratégia a partir da exposição das tramas materiais do sistema político que se inscrevem sobre a rubrica da corrupção. Mobilizar pela queda de Renan Calheiros, Jucá e Temer é o que pode atrasar a tramitação dessas reformas, dando tempo para que outro ajuste seja apresentado. Operar uma separação entre a agenda anti-austeridade e a agenda anti-corrupção demonstra que na raiz das nossas derrotas está um problema grave de compreensão das forças e subjetividades que estão em campo no momento. Austeridade e corrupção são dois mecanismos interligados de bloqueio da democracia. O povo, no seu pragmatismo de sobrevivência, parece ter entendido isso melhor que a esquerda no seu idealismo catastrofista."

29 novembro 2016

"Trump e quem mais vier:

O pior não é a sede de sangue, nem o racismo, nem a xenofobia, nem os preconceitos, nem o ódio ancestral do homem pelo homem, o pior são as ressalvas e as justificativas e os eufemismos - ou seja, aquilo que faz o homem civilizado. Os norte-americanos - e muita gente ao redor do mundo - estão exaustos de tanta civilização."


Marcelo Mirisola