02 outubro 2018

"Pessoas de fora da área da história costumam repetir o que chamamos de “sentido ciceroniano” da memória. Cícero chamou à História “mestra da vida”. Haveria uma reserva moral perceptível no desenrolar dos fatos. O tempo garantiria a retirada das paixões. Só a tinta seca permitiria avaliar o quadro. A serenidade conferida pela distância dos fatos e a verificação cirúrgica das intenções, possibilitaria ao historiador assumir a toga isenta de juiz do mundo pretérito. Tal como um magistrado sério, quem escrevesse sobre o passado não se afogaria nos desequilíbrios partidários do torvelinho atual. Fleuma, a virtude exaltada pelos ingleses; fleuma como sinônimo de tranquilidade e equilíbrio, seria o traço dominante e desejável ao prolatar sentenças.
Objetividade e discernimento são, de fato, atributos de um bom texto histórico. Mas a história não é um tribunal, muito menos um juiz a indicar certo e errado em meio a opiniões. O grande Marc Bloch já insistia, numa obra escrita num campo de concentração nazista (um lugar bom para se dizer o contrário), que a história não deveria julgar. História não tem sentido moral. Pior: nada garante que o estudo do passado evite erros do presente, até porque os fatos não se repetem, são sempre únicos.
 São os fatos e posições do presente que dizem se Che Guevara foi um herói (o “maior homem da história” para Sartre) ou um canalha assassino (para outros). Cada tribunal da História terá sempre o juiz do seu tempo, o júri e os advogados da sua historicidade específica. Nunca existirá isenção. Sempre vicejará a subjetividade. Neutralidade é um desejo e uma meta, jamais uma realidade integral.
Nem tragédia e nem farsa, como pensou Marx: a história é apenas uma sucessão caótica de acontecimentos destituída de lógica ou moral. Somos náufragos no gigantesco oceano dos fatos, dando ao passado direções póstumas a partir de morais presentes.
Não se trata de relativismo extremado, mas de reconhecer que o certo e o errado são determinados historicamente."

Leandro Karnal

27 maio 2018

'Obrigada por ter vindo. Eu sei que é loucura, ligar assim no meio da noite. Nos conhecemos tão pouco. Talvez não houvesse outro modo. E a noite é tão silenciosa. Daqui a pouco vai amanhecer. Não gosto de me fazer inusitada. Mas o dia só acaba quando a gente sonha. E eu queria ver você. Pensei em você. Justamente por ser mais distante de mim do que qualquer outro. E tão próxima. Assim é que vejo. Precisava olhar de perto essa expressão de espanto e surpresa. Os meus amigos não se surpreendem mais. Estão todos entediados da vida. Cheios da vida, como não dizem os anúncios publicitários. Você é silenciosa como a madrugada. E eu fico enchendo seus olhos de palavras. Não é nada sério. Acredite. Só queria viver esse dia até o fim. Só queria ver no fim desse dia esses seus olhos. Um anônimo que surpreenda esse olhar solto na rua de um dia qualquer vai sentir também assim. O que digo não é absurdo. Acredite. Quero que saiba: não tenho mais medo. Os medos estão todos em mim apaziguados. Nenhum outro receio que seja pode atravessar a linha da minha tristeza. Por isso chamei você aqui. Para que o dia comece depois do sonho. Agora é quase amanhã. E a manhã surgirá coberta de uma superfície silenciosa. Acolhendo os gritos do dia. O imenso dia. Depois não saberemos mais. E não saber está entre o que é temor e possibilidade."
agora é quase amanhã – Assionara Souza

12 maio 2017

Por Acauam Oliveira

"Antonio Candido é uma figura fundamental para mim. São muitas as coisas que aprendi a admirar lendo Antonio Candido, tomando como uma espécie de modelo ideal de conduta. Uma delas é a primazia da leitura do texto\objeto estético, independente das frágeis certezas que podemos ter do lugar de Verdade de nosso horizonte teórico, ou de nossas convicções políticas. Aliás, Antonio Candido nos ensina que o rigor crítico muitas vezes implica justamente em não seguir uma linha teórica específica, mas reter um conhecimento aprofundado de tantas quantas forem as linhas exigidas por seu objeto de investigação. A verdadeira crítica se faz ali onde se torna impossível preencher relatórios de pesquisa.
Sua assombrosa e praticamente impossível capacidade de alinhar rigor e densidade intelectual com um altíssimo nível de clareza e lucidez na escrita é outro de seus traços admiráveis. Candido conseguia aquela síntese tão rara (muito, mas muito rara mesmo) entre professor excepcional e intelectual verdadeiramente relevante, daquele tipo de relevância que não se mede pelo tamanho do Lattes, mas pelo impacto real na existência daqueles que importam. Em um país com altíssimos níveis de analfabetismo, ajudou a colocar a literatura em primeiro plano como instrumento de autoconhecimento do país, instituindo e ajudando a popularizar os cursos de Letras entre nós.
Todas essas características tinham por base a convicção ética profunda de que o Brasil só seria um país decente quando incluísse os mais pobres em seus processos de cidadania. Seu modelo de escrita, que almeja atingir aquele leitor\ouvinte que não domina os jargões especializados (lição modernista, via Manuel Bandeira); sua leitura do texto literário pensado sempre em relação as possibilidades de construção de cidadania; seu desejo de fortalecer e popularizar instituições que sequer existem e pareciam impossíveis no Brasil (lição modernista, via Mário de Andrade). Acredito que até mesmo sua migração das Ciências Sociais para o campo das Letras deve-se a esse anseio de popularização\democratização, falar a mais gente, contribuir mais diretamente.
Se fosse gringo, teria influenciado toda uma geração de críticos literários no mundo. Seria um Bakhtin, Barthes, Foucault. Aqui, ajudou a tornar o curso de Letras um dos mais populares e democráticos do país, além de colocar a literatura no centro das investigações sobre as contradições da sociedade brasileira. Um projeto generosamente radical.
Ainda ontem estava lendo sobre a importância e o impacto da Formação da Literatura Brasileira, o quanto ela já foi acusada de crimes opostos – nacionalismo excessivo, por Haroldo de Campo e pelo multiculturalismo atual, ou pouco nacionalista e lusófilo, por Afrânio Coutinho – o que só confirma seu estatuto de clássico. E fui reconhecendo em meu próprio trabalho algumas convicções profundas, daquelas que se tornam tão suas que você esquece que tem autoria, e que aprendi com Antonio Candido. Uma delas é a noção de que a principal causa da fragilidade do sistema literário brasileiro (apesar de sua consolidação) é a participação ativa no sistema de exclusão dos mais pobres, que regula a ordem institucional do país até hoje. Coisa que tantos hoje afirmam exaltadamente (vejam como a literatura é excludente!), como se fosse uma descoberta recente, quase inédita. Mas em Candido, existe dialética, e esse sistema excludente será o mesmo a produzir obras de grande qualidade estética. O segredo consiste na incorporação reflexiva (ou semi-reflexiva) dessa disfunção na própria forma literária, fazendo de seus melhores momentos um espaço privilegiado de expressão de um pensamento contra ideológico. Um diagnóstico formal que é ao mesmo tempo um horizonte de construção nacional e um posicionamento ético diante da barbárie. Minha própria convicção sobre música popular deriva diretamente dessa percepção de Candido: a de que o sistema cancional é fortíssimo no Brasil justamente por ser espaço radicalmente ocupado pelos mais pobres, realizando simbolicamente aquilo que o país inviabiliza na prática. O exato oposto da posição da literatura, portanto, e que também consegue atingir resultados contra ideológicos (embora seja cooptado frequentemente pela ideologia), mas por razões bem diferentes. Sua força não está na formalização do caráter excludente das instituições nacionais, mas na verdade da sustentação fantasmagórica de uma voz que, pela lógica do país, não deveria existir. A fragilidade no caso não está na inscrição da forma, mas na impossibilidade do salto civilizatório, sistematicamente barrado. “Crime, futebol, música, caralho, eu também não consegui fugir disso ai”. Mesmo sem que Candido aborde diretamente música popular, carrego comigo a mesmíssima convicção, fortalecida pelo contato mais íntimo com sua obra: que o grau de sucesso ou fracasso de uma civilização de mede pelo destino que ela confere aos mais pobres. E é a partir desse horizonte, que é ético, que as obras devem ser avaliadas.

Rigor intelectual, fidelidade aos princípios éticos de forma não reducionista, horizonte de emancipação humana. Antonio Candido nos deixou, mas sua missão (para além da intelectual, humana) foi mais do que cumprida." - Antônio Candido 

16 abril 2017

Já em 1989 -- in: 'A Sucessão na Crise e a Crise na Esquerda' -- José Chasin alertava para os compromissos de classe do PT: 
(Via: Natan Cunha)

“O PT - como partido dos trabalhadores - é por essa via o fantasma idolatrado da esquerda ausente. A quimera palpável de esperanças e perspectivas sem sustentação orgânica, o altar visível de um deus oculto, com cuja galeria de santos e profetas parece ser possível coabitar, uma vez que a simples proximidade física dos trabalhadores, por suposto, faria do PT a trincheira de todos os sonhos revolucionários.
Todavia, esse ledo engano não é uma projeção totalmente arbitrária, mas propiciada pelo fato de que, no PT ou para o PT, tudo se passa como se - movimento sindical fosse diretamente movimento operário, para usar uma expressão que se consagrou justamente por efetuar, ao contrário, a precisa distinção entre ambos. Pela indistinção entre a legítima ação corporativa de setores e frações profissionais e a atuação societária de classe que visa a reconfiguração cabal do universo humano de convivência, é que se esvai a possibilidade do PT se objetivar como uma organização política de esquerda, e ganha corpo, em contrapartida, sua configuração qualitativamente diversa de partido representativo dos trabalhadores situado na esquerda, extremo do arco político compreendido pela equação social da lógica do capital. Identificação entre movimento sindical e movimento operário apoiada sobre a noção reducionista de agente – profissional (sindical) e/ou político, que comparece em detrimento da categoria de classe social. Posto de outro ângulo, para o PT – movimento operário é o movimento sindical operando politicamente, mas sem a mediacão das determinações sociais, ou seja, é a transpiração do agente sindical para o universo político, desconsideradas, portanto, as clivagens sociais determinadas pela antítese estrutural entre capital e trabalho que ordena a sociabilidade capitalista. O que é perdido nessa passagem, e com isto o teor e a direção peculiares de uma política da perspectiva do trabalho, é a própria entificação de classe que medeia entre o movimento sindical e o movimento operário. Trata-se, em resumo, de um transporte para uma política meramente assentada sobre si mesma, isto é, uma transferência politicista para a política, que a própria origem do PT condiciona e explica.
Basta dizer que o PT é o encontro da combatividade sindical dos últimos anos da década de 70, que preencheu de maneira notável o vácuo escandaloso a que fora reduzido até mesmo o movimento corporativo dos assalariados, pela conduta omissa, quando não diretamente desmobilizadora da esquerda tradicional, com os representantes e o clima teórico-ideológico do conjunto de teses elenco mais atrás. De maneira que o renascimento firme e pujante da movimentação dos trabalhadores veio, assim, a submergir na atmosfera politicista, quando buscou os caminhos da organização e das definições políticas. Por consequência, ao inverso do que se daria num rumo de esquerda, com seu desenvolvimento o PT simplesmente politicizou a prática sindical, não extraiu da lógica do trabalho a política que supera a política, isto é, ficou nos limites do entendimento político, não se alçou à política norteada pela razão-social.
Em síntese, o formidável movimento sindical que originou o PT resgatou as lutas corporativas, mas o PT não resgatou, pela submersão politicista, o campo da esquerda, cuja ausência continua sendo sua única notabilidade. No interior dessa brecha o PT é recoberto por uma espuma fantasiosa de esquerda, sem ter ideologia ou prática de esquerda.”

14 março 2017

"Passos rumo ao caos social:
1. Moro, mau como um pica-pau, começa a abordar pessoas e pedir educadamente por uma selfie. Meses depois, com andanças pelo país, são vazados na internet os Moro Files: gigabytes só de selfies de Moro com pessoas até então reputadas cidadãs de bem, avessas ao fascismo e à homolesbotransfobia.
2. As negações aparecem de todas as partes. Dentre as fotografadas, havia uma sorridente eleitora de Freixo que tirava uma selfie no Leblon. "Fui coagida!", disse. Logo a internet fica cheia de memes com o mote e a foto.
3. Em busca de algum, experts em photoshop identificam perfis de classe média. Gente de bem, avessa ao fascismo e à homolesbotransfobia, súbito começa a receber inbox montagens ao lado de Moro, com a ameaça: deposite X, ou eu posto.
4. Eleições de D.A. Brasil afora são decididas após estudantes terem suas contas de Facebook hackeadas e fotos ao lado de Moro postadas.
5. O golpe já é conhecido, mas muitos que constam nos Moro Files se aproveitam disso para negar seu passado espúrio. Clima de insegurança se instaura.
6. No Recife, um aluno de Sociais soca o colega olavete e garante para si a reputação de cidadão de bem inconteste. É imitado Brasil afora por gente consciente.
7. Atrás das grades, a classe média consciente denuncia o avanço do fascismo e do conservadorismo. Declaram-se presos políticos e escrevem à ONU, que ignora. Só o DCM, o Brasil 247 e a Mídia Ninja noticiam esse drama humanitário.
8. Em Curitiba, uma estátua de cera de Moro é feita. Vira ponto turístico e turistas tiram fotos ao lado dela."


Bruna Frascolla

09 março 2017

"O feminismo é multiespecífico!
Hoje eu queria lembrar que, como nos ensina Preciado, o feminismo não é um humanismo, mas um animalismo; ou, por outra, que "o animalismo é um feminismo dilatado e não antropocêntrico e que "não foram o motor a vapor, a imprensa ou a guilhotina as primeiras máquinas da Revolução Industrial, mas sim o escravo trabalhador da lavoura, a trabalhadora do sexo e reprodutora, e os animais. As primeiras máquinas da Revolução Industrial foram máquinas vivas."
Gostaria também de lembrar das autoras ecofeministas, em especial Val Plumwood, que nos explica como o discurso do mestre no ocidente é tradicionalmente aquele do "não marcado diante do outro marcado" e que "o dualismo abrangente da cultura ocidental opõe a esfera da razão (mente, espírito) à da natureza como uma esfera de múltiplas exclusões contendo mulheres, escravos, povos indígenas, não-brancos e animais (e, claro, muito mais, incluindo a vida biológica não-humana, a necessidade e o corpo."
O trabalho das fêmeas (e daqueles que ocupam posições marcadas) é invisibilizado, seus corpos violentados todos os dias. Entre a criminalização do direito ao aborto, o destino das vacas leiteiras, das galinhas poedeiras e das éguas mantidas grávidas para extração de hormônio (que beneficia fêmeas humanas, mas primeiramente dá muito lucro às farmacêuticas), só para ficar em algumas poucas práticas de tortura da vida feminina, há um laço. Entre o apagamento do trabalho doméstico feminino e o trabalho não reconhecido de animais em fazendas, laboratórios e outros, há conexões. Deve haver solidariedade entre nós.
Termino retornando a Paul B. Preciado, feminista que nasceu mulher e tornou-se homem (mas nunca aderiu ao lugar não marcado!):
"A mudança necessária é tão profunda que se costuma dizer que ela é impossível. Tão profunda que se costuma dizer que ela é inimaginável. Mas o impossível está por vir. E o inimaginável nos é devido. O que era o mais impossível e inimaginável, a escravidão ou o fim da escravidão? O tempo de animalismo é o do impossível e o do inimaginável. Este é o nosso tempo: o único que nos resta."

Juliana Fausto
"Uma das grandes dificuldades que a mulher enfrenta ao denunciar atos machistas perante organismos legais - delegacias, tribunais, etc - reside não só no fato de que esses organismos e instituições sejam perpassados pela lógica machista e pelos mais diversos preconceitos socio-culturais que deveriam combater, ou que a maioria dos cargos seja ocupada por homens, é que também a própria linguagem que define o sujeito autônomo moderno com o qual o direito opera está estruturado numa lógica patriarcal e em seus modos de tradução verbal específicos. Daí advém uma assimetria de linguagem fundamental para se pensar numa perspectiva feminista os fundamentos místicos da autoridade, pensados em outra circunstância por Derrida. inclusive as dinâmicas das redes sociais enquanto mobilizadoras de um tipo de denúncia coletiva que viria tentar corrigir a impotência da palavra das mulheres quando proferida de forma isolada perante a Lei. As construções sociais da linguagem cujos princípios legitimadores são esguios esquivos e muito difíceis de localizar incidem nos modos de recepção das falas que tratam de dar conta de violências sofridas. O filme A paixão de Joana D'Arc de Carl Theodor Dreyer é de certo modo uma longa e dramática reflexão sobre essa assimetria brutal de linguagens e a farsa jurídica que ela produz. Ainda que hoje o caráter "natural" das agressões vividas pela mulher na sociedade tenha sido questionada e desconstruída, a assinação de lugares e comportamentos naturais à atuação feminina são ainda extremamente enraizados no imaginário social. Quando o demente e anacrônico Michel Temer fala sobre a mulher numa perspectiva conservadora, circunscrevendo-a ao espaço doméstico, não está apenas confirmando a virulência misógina e a hierarquia patriarcal que faz questão de cultuar mas exibe aí também uma concepção político-jurídica que contribui para a manutenção dessas assimetrias tanto no nível da linguagem quanto no das práticas jurídicas. Impressiona ainda na indigência intelectual do seu pronunciamento que ele não seja sequer capaz de fazer uma distinção entre a mulher abstrata e generalizada e idealizada segundo critérios os mais retrógrados e a mulher como "outro" concreto, a mulher brasileira, a negra, pobre e solteira que trabalha fora, cria filhos, banca uma família inteira e se defende diariamente da violência psíquica e física a qual é exposta. O grande perigo de falas idiotas como as de Michel Temer é que têm um poder ressonância enorme, e não importa que a mulher ali delineada exista apenas na cabeça demente de um político porque na hierarquia das linguagens institucionais prevalece essa mesma ideia e projeto de mulher que torna inaudível a denúncia e a crítica de uma perspectiva feminista, porque a mulher real, para o sistema, ainda não existe. E ainda mais triste e preocupante, infelizmente ela ainda não existe também, na percepção e articulação de discurso de muitos intelectuais "sensíveis", pois para muitos destes, lá no fundo, quando uma mulher é também uma intelectual, é porque de certo modo ela conseguiu se tornar um homem."

Laura Erber 

22 fevereiro 2017

A Guerra dos Turbante

Mário Maestri

Já tivemos a “Guerra das Laranjas”, no período colonial, com diversos mortos e, século mais tarde, já em plena República, a “Guerra das Lagostas”, essa felizmente apenas folclórica. Vivemos agora, quando o mundo do trabalho conhece no Brasil ataque de intensidade inaudita, um novo e estranho confronto, a “batalha dos turbantes”, de conteúdo sobretudo ideológico e sentido não desprezível, já que expressa e alimenta a fragilidade do movimento social no Brasil. 

Em geral, os termos da declaração de guerra foram os seguintes. Eu sou negra, uso turbante. Tu é branca e necessariamente racista, mesmo quando não sabes. Portanto, tira a mão de meu turbante. Se não o fizeres, serás liquidada com a acusação de “apropriação cultural”, ou seja, adesão simbólica à exploração racial e econômica que teus ancestrais realizaram aos meus, no passado, e que sigo sendo objeto, por parte dos brancos, no presente. 
O que talvez mais impacta na presente “guerra dos turbantes” não é a verbalização de tal disparate, mas a repercussão que ele alcança nos meios da esquerda e progressistas aos quais é dirigido, meios vinculados e comprometidos com a luta anti-racista. Nesses segmento, alcança, não raro, ampla adesão, em geral acompanhada de não sempre verbalizada desconfiança para com o sentido real de tal proposta, que anatematiza com a acusação de racista a todos os que não o aceitam.
História e Memória 
Dizem que o Diabo sabe por que é velho, não por que é Diabo. Assisti no Rio de Janeiro, em inícios dos anos 1980, a chegada do talvez primeiro missionário negro estadunidense da Fundação Ford - rosto gentil do Departamento de Estado USA - oferecendo bolsas para estudar o escravismo e a África Negra naquele país. A proposta chamou-me a atenção pois, apenas chegado de sete anos de exílio, era então um dos poucos africanistas em um mercado universitário que desprezava aquela formação. O que me ensejou indiscutível espanto e compreensível apreensão foi o fato de que o formulário de candidatura exigia foto, já que o financiamento era, ainda que não explicitamente, exclusivo para candidatos negros. Se isso hoje pode parecer normal, naquele então causava ampla e geral surpresa e, até mesmo, indignação. 
Naqueles anos finais da ditadura militar, dominava o movimento negro que se organizava as tendência de esquerda revolucionária, com destaque para a Convergência Socialista, onde militara, havia até poucos meses. Na CS, conheci grandes companheiros e militantes negros, como o João, no Rio Grande do Sul, o Flavinho, o Hamilton e muitos outros, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Todos eles vinculavam estreitamente as lutas anti-racista e social, vistas como indissoluvelmente imbricadas. Impunha-se matar o dragão da maldade racista, que oprimia sobretudo os trabalhadores e populares negros, na luta contra suas modernas raízes de classe capitalistas. 
Eram anos em que, junto com os Panteras Negras estadunidenses, as direções negras gritavam: - Nada de cotas! - Nada de migalhas, para alguns poucos privilegiados. Escola de qualidade, pública e universal para todos os jovem negro. Mesmo que no início se obtivesse pouco, e não tudo, deveria ser para todos, sem privilégios e exceções. Naquele então, pouca atenção se dava às propostas inaceitáveis que chegavam diretamente dos Estado Unidos de consolidar a sociedade capitalista e a exploração, pondo na vitrine algumas caras negras. 
Por esses paradoxos da história, defendi desavisado, em reunião da regional rio-grandense da Convergência Socialista, a política das cotas, na primeira vez que a discutimos, em 1979, creio. Quase apanhei. O João, operário metalúrgico negro, muito respeitado, liquidou minha frágil defesa, explicando, com exemplos de seu cotidiano, a exigência de que a população negra mais explorada fosse contemplada e jamais esquecida, desde o primeiro momento. Apontou aquela proposta como própria dos segmentos médios negros colaboracionistas.

Luta Racial, Luta Social
A fusão da luta racial e social era antiga e tradicional política da esquerda comunista. Ainda que muito transitoriamente, nos anos 1930, comunistas brasileiros discutiram e enunciaram a proposta de um Estado negro independente na Bahia, certamente em tentativa de transplantação apressada para os Trópicos das repúblicas autônomas soviéticas. Em 1929, o primeiro operário candidato à presidência do Brasil foi um comunista negro, o marmorista Minervino de Oliveira, como lembra sempre o historiador Muniz Ferreira. José da Silva, comunista, foi o único “negro retinto” eleito à constituinte de 1945 e, como tal, destratado pela imprensa burguesa. Carlos Maringhella, dirigente tradicional do PCB, era filho de operário italiano e neto por parte de mãe de trabalhadores escravizados. Em geral, esse passado é desconhecido pelos militantes de esquerda, que assimilam, por ignorância, a acusação de “insensibilidade marxista” à questão racial. 
Em verdade, a própria consciência teórica da importância singular e, em alguns casos, da dominância do escravismo em nosso passado foi em grande parte obra de intelectuais e de militantes comunistas, marxistas e esquerdistas, de todos os sabores. Entre os mais destacados podemos citar Astrogildo Pereira; Duviano Ramos; Benjamin Perret; Clóvis Moura; Jorge Amado; Édison Carneiro; Décio Freitas, Emília Viotti da Costa. Alguns deles propuseram desde sempre as formas de resistência dos cativos contra a escravidão como formas fundamentais da luta de classes no Brasil. Ou seja, o âmago de nossa história seria, para eles, a saga da oposição inquebrantável do escravizado ao escravizador.
Em inícios de 1980, anos gloriosos, o movimento negro em organização e a luta contra o racismo sofriam a forte influência positiva das classes trabalhadoras em ofensiva e dos segmentos político-ideológicos que se reivindicavam do mundo do trabalho. Em 1979, vivemos verdadeiro “Ano Vermelho”, com vastíssimo renascimento das lutas sindicais do Brasil. Nos anos seguintes, fundavam-se o PT aguerrido e anti-capitalista e a CUT classista e combativa. Foi nessa conjuntura de ofensiva do movimento social que nasceu o Movimento Negro Unificado, sob o forte influxo positivo assinalado.
Maré Neo-Liberal
Tudo isso, porém, faz já parte da história. Em inícios dos anos 1980, em derrota epocal, que pesa até hoje sobre o mundo do trabalho e a sociedade mundial como um todo, a vitória da maré contra-revolucionária mundial fez retroceder as organizações, as lutas e a consciências das classes trabalhadoras e subalternizadas. Triunfaram e tripudiaram as visões pró-liberais, conservadoras, colaboracionistas, irracionalistas, anti-operárias, sociais-democratas. Eram os tempos do “fim da história”, em que refluiu nas ciências sociais o estudo resistência dos trabalhadores escravizados, das lutas dos operários, das mulheres populares, dos camponeses, etc.
No novo contexto, socialismo, revolução, solidariedade, fim da opressão e exploração, uma sociedade sem racismo e opressão, etc. transformaram-se em verdadeiras aberrações indecentes, naturalizando-se a opressão. O individualismo e o social-darwinismo transformaram-se em axiomas social. O sucesso pessoal passou a ser o norte fixo da bússola de legiões de políticos, ativista, sindicalistas. No PT e na CUT, triunfaram as propostas colaboracionistas que transformaram a militância política em caminho - direto ou torto - para o sucesso individual. 
No PT, pôs-se fim ao partido dos núcleos em prol do partido dos parlamentares, dos administradores, dos capas-petras. Em nome da ascensão social jamais realmente vista de segmentos populares, no seio e sob o império da sociedade de classes, regou-se com a abundância a a horta do grande capital industrial e sobretudo bancário. No frigir dos ovos, militantes e sindicalistas metamorfosearam-se em carreristas, intermediário e agenciadores do grande capital. Alguns terminaram fazendo milhões, apenas conferenciando! Apenas hoje temos a dimensão jamais imaginada de um processo de corrupção em geral já conhecido desde os primeiros momentos.
Negros de Sucesso
Acompanhando a debacle das idéias e lutas sociais, triunfaram igualmente no movimento negro organizado, dominado agora por seus segmentos médios, as propostas racialistas, pró-burguesas e antisocialistas, com seu corolário de integração à sociedade de classe e racial. Em forma sumária, propunha-se que o racismo não era expressão e reprodução da sociedade de classe. Não haveria exploradores e explorados. Havia apenas negros, explorados, e brancos, exploradores. Tout court! Esse movimento foi acompanhado de forte deslocamento da proposta de representação identitária. Abandonou-se como figura paradigmática e referencial o trabalhador feitorizado que, com seu trabalho e luta construíram a nação, sem gozar do produto de seu esforço, pelo negro de sucesso, mesmo se, no passado, se transformava em escravizador. No frigir dos ovos, trocava-se Zumbi por Pelé. E, muito logo, procedeu-se literal encobrimento da história da escravidão, como algo vergonhoso, procurando-se concatenação do passado do negro brasileiro diretamente com uma sociedade africana imaginada e idealizado. Nos últimos anos, os estudos sobre a escravidão desapareceram tendencialmente enquanto os sobre a África multiplicaram-se, em geral desconectados da experiencia escravista colonial.
Havia que criar, a todo custo, uma consciência, uma organização e uma representatividade racial destacadas e em oposição ao resto do movimento social. Agora, o que imperava era o “nós” e o “vocês”! Havia que parir, nem que fosse a forceps, consciência racialista anti-branco multitudinária por sobre as determinações de classe. Com ela, construiria-se a autoridade de direção negra que negociasse com o Estado, em nome do racismo e de suas sequelas, não a emancipação da população negra explorada, mas a promoção de indivíduos singulares. Não se tratava, jamais, de por fim à sociedade de classes branca, mas apenas de integrar alguns negros privilegiados a ela. Não se queria virar a mesa dos privilegiados, mas apenas alguns lugares no ajantarado dos bem servidos.
Um ministro, um general, um juiz, um burguês negro eram propostos como uma conquista histórica para o movimento, mesmo que nesse processo se consolidasse a exploração social e racial geral. Lutava-se para que, também no Brasil, tivéssemos os nossos Colin Power, as nosssas Oprah Winfrey e Condoleezza Rice e, sonho dos sonhos, algum dia, um Barak Obama! Tudo igual ao proposto pela cartilha dos segmentos negros integrados e pró-imperialistas sobretudo do Partido Democrata estadunidense.
Tudo pela Auto-Estima
As promoções isoladas e a conta-gota, enquanto a massa negra vegetava submergida na miséria material e espiritual, foram defendidas como imprescindíveis à promoção da “auto-estima” da população brasileira com afro-ascendência. Era como dezenas de milhares de operários negros, apinhados nos transportes coletivos, em direção do trabalho duro e enfadonho, gritassem de orgulho, ao verem um burguês afro-ascendência sentado no banco de trás de um mercedes! O PT satisfez parcialmente essa expectativa com, entre outras iniciativas, a nomeação de alguns ministros, com destaque para a indicação de Joaquim Barbosa ao Superior Tribunal Federal, devido apenas ao fato de ser indiscutivelmente negro. E deu no que deu! 
A reconversão pró-burguesa e anti-operária do movimento negro organizado foi toda ela comandada pelo imperialismo estadunidense. As ditas elites brasileiras não estavam, definitivamente, a altura de uma operação tão refinada. Em fins dos anos 1970, Abdias do Nascimento chegava ao Brasil de um pretendido auto-exílio, de dez anos, nos … USA! Em verdade, ele viajara aquele país a convite de universidade, ali permanecendo nos anos seguintes devido às oportunidades oferecidas. Jamais participara de organização de esquerda ou de oposição à ditadura militar. 
No passado distante, entre outras atividades políticas secundárias, Abdias aderira ao fascismo tupiniquim, tendo sido, inclusive, amigo de Plínio Salgado, fundador da Ação Integralista Brasileira. Apenas desceu do avião, ele começou a disparar contra a esquerda marxista, acusando-a de racista. Para a alegria dos ditadores de plantão. No seu retorno, foi acolhido e apadrinhado por Leonel Brizola, que, diga-se de passagem, mais branco não podia ser. O caudilho rio-grandense tudo fez para promovê-lo como parlamentar. Principal líder das propostas racialistas e socialmente assimilacionistas, Abdias morreu aos 94, militando no PDT.
Os Anos Dourados
O movimento negro organizado, sob o controle e influência dos segmentos médios, conheceu verdadeiros anos dourados, nos quais consolidou suas políticas racialsitas e social inegracionistas, quando o PT, já na presidência da República, abraçou plenamente as propostas de promoção étnica seletiva e restritiva como parte de sua demagogia social-liberal. De certo modo, o lulismo colhia o que o Brizola plantara! Sob o reino petista, as “cotas” e as “políticas compensatórias" transformaram-se na bandeira triunfante da promoção exemplar e seletiva , enquanto a imensa maioria dos jovens brasileiros, com destaque para os negros, era mantida na ignorância, na exploração, na pobreza, na alienação. Nos anos de reino petista, prosseguiu o massacre dos populares jovens, com destaque para os negros. 
O resultado dessas políticas foram pífios, a não ser para os contemplados. Em nosso país de 200 milhões de habitantes, apenas número escasso de médicos negros cotistas, quanto muito, foram formados, anualmente, como demonstração maior do conquistado. - Não é melhor isto do que nada? - respondiam as lideranças negras e petistas à pergunta sobre os milhões de jovens brasileiros de todas as cores marginalizados. Talvez a resposta tenha chegado nas asas dos aviões que derramaram sobre o Brasil borbotões de médicos negros cubanos, formados em um país de extrema pobreza de recursos, se comparado ao Brasil. Um pequeno país pobre que garante o ensino, não para alguns, mas para todos os jovens que desejem.
Resultados Pífios
Nesses quase quarenta anos envolvido em tais questões, três momentos paradigmáticos da hegemonia da política de racialização neo-liberal me golpearam fortemente. O primeiro foi o literal ostracismo político em que morreu Clóvis Moura, por parte do segmento dominante do movimento negro organizado, reconvertido ao neo-racialismo pró-burguês e pró-capitalista. Ele, que por primeiro iluminou, já nos anos 1950, a dominância da escravidão na antiga formação social brasileira, e realizou talvez a obra mais completa sobre a questão negra no Brasil, amargou com a dignidade que era sua o literal arquivamento a que sofreu. 
Uma vez perguntei-lhe: - Clóvis, meu velho, por que nunca te propuseram para a Fundação Palmares? - o que sabia ter sido sempre um seu desejo, ainda que jamais verbalizado. - Maestri, não confiariam em um velho militante comunista como eu - foi a resposta que recebi. E jamais confiaram, efetivamente. Destaque-se, a bem da verdade, que, até além de sua prematura morte, Clóvis Moura recebeu o agradecido reconhecimento solidário do MST, em geral, e de Pedro Stédile, em particular.
O segundo momento foi certamente a visita ao Brasil de Hillary Clinton, secretária de Estado dos USA, em dezembro de 2013. Ela proferiu badalada palestra-debate, na Faculdade Zumbi dos Palmares, universidade privada para negros, fortemente inspirada e apoiada pelos estadunidenses. Com a mediação de William Waack e Maria Beltrão, da indefectível Globo, Hillary pontificou sobre as maravilhas das políticas de “compensação” estadunidenses e de suas cópias caboclas. 
Os elogios e salamaleques à dama de mãos ensanguentadas foram incessantes e sequer um entre as dezenas de estudantes e lideranças negras presentes levantou uma palavra, um cartaz, uma faixa, em solidariedade às centenas de milhares de jovens negros enviados para a prisão, como forma de contenção social, sobretudo durante a administração Bill Clinton. Ou para pedir a liberdade de presos políticos negros nos USA, alguns encarcerados há décadas. 
O terceiro e último fato que muito me impactou foi o enorme silêncio, da imensa maioria das lideranças dominantes do movimento negro incrustado no PT ou fora dele, sobre a miserável ocupação militar do Haiti comandada pelo Brasil, às ordens do imperialismo estadunidense. Agressão inaugurada precisamente no segundo centenário da vitória gloriosa da insurreição haitiana, em 1804. Revolução negra que resultou no primero estado americano livre da escravidão! Até hoje, as tropas de ocupação brasileiras lá seguem, sem praticamente oposição nacional consistente a sua ação criminal. 
Um Balanço Geral
A política de racialização procurou sempre a divisão radical do movimento social. Para tal, mobilizou-se por uma divisão inverossímil da sociedade brasileira em dois campos. No primeiro, estariam os “brancos” exploradores. Seriam, todos eles, descendentes de escravistas, criados e amamentados por mães-pretas. Ou trabalhadores imigrantes europeus, chegados após o fim da escravidão, também privilegiados pelo racismo, em verdade, não se sabe como ou por quê. Uma descrição desrespeitosa de milhões de brasileiros não negros que viveram e vivem apenas de seu trabalho explorado.
Do outro lado se encontrariam os “negros”, todos eles explorados, e jamais exploradores, totalmente desterrados em sua própria terra, ou seja, o Brasil, pois incapazes de reconstituírem suas raízes africanas. “[…] seres sem um pertencimento definido, sem raízes facilmente traçáveis, que não são mais de lá [da África] e nunca conseguiram se firmar completamente por aqui [no Brasil].” Como se a existência social dependesse das raízes étnicas distantes e não da vida no aqui e agora da existência social.
Procura-se incessantemente divisão da sociedade brasileira em facções étnicas incomunicáveis, cada uma encastelada em suas tradições, como já assinalado. Uma proposta amalucada que fatia o Brasil artificialmente em descendentes de italianos, de alemães, de judeus, de portugueses, de africanos, de asiáticos e assim vai. Cada etnia com seus representantes raciais, negociando com o Estado e entre as diversas etnias as reivindicações de seus nacionais. Um projeto que nega de per si a possibilidade de uma nacionalidade comum, mesmo assentada no mundo do trabalho e não da exploração.
Teríamos, portanto, simplificando, uma cultura negro-africano e uma cultura branco-européia. A pizza seria dos italianos; o turbante, dos afro-descendentes. Se a apropriação da primeira não traria problemas, pois produzida por população “branca” que se pressupõe ter sido e ser racista, a segunda deve ser monopólio intocado, já que expressa simbolicamente a resistência anti-racista, exclusiva e necessariamente negra, contra todos os brancos. Tudo isso no reino das fantasias ideológicas. A pizza, nas suas raízes mais recentes, é bom lembrar, não é produção cultural italiana, mas das classes populares napolitanas, o que é muito, mas muito diferente. Assim como a proposta de uma cultura africana unitária é produto de uma síntese falsa nascida da manipulação ideológica ou da ignorância sobre a história e a realidade da África Negra. 
Unidade Cultura Contraditória
Esse proposto fatiamento social étnico, verdadeira abstração fantasiosa, talvez seja possível de ser imaginada, em forma forçada e manipulada, para algumas regiões dos USA ou da África do Sul. Ele é totalmente artificial entre nós. Sobretudo, no Brasil, fora imigrantes europeus e africanos muito recentes, a imensa maioria dos ditos “brancos” tem um pé na África e na “maloca”, assim como os mais insuspeitos “negros” possuem raízes étnicas européias e indígenas. 
Procurar encontrar as raízes e locais de proveniência dos ancestrais, para multidões de brasileiros, é se abrir em um leque vertiginoso de origens africanas, européias, americanas, asiáticas, etc., nenhuma delas possíveis de serem apreendidas fora de suas diversidades internas. Em apenas quatro gerações, cada um de nós possui nada menos do que quatorze ancestrais! Mas, em verdade, a verdadeira manipulação não se dá na construção de uma população brasileira imaginária de raízes raciais puras quando, em sua imensa maioria, são resultado de inúmeros cruzamentos étnicos. 
As propostas racialistas pró-burguesas e pró-capitalistas procuram sobretudo o encobrimento das verdadeiras raízes de nossa sociedade, operação empreendida por praticamente todos os ideólogos das classes dominantes brasileiras, do passado e do presente. As origens basilares da nossa nacionalidade não são européias, africanas, americanas. Esses e outros aportes culturais menores foram metabolizados e recriados por mais de três séculos de ordem escravista colonial, resultando desse processo sociedade nacional determinada pelas fortes contradições sociais despóticas da organização escravista e de suas sequelas. Entre elas, a cultura e a tradição racista anti-negro.
É sandice maior propor a separação do afro e do europeu na cultura brasileira. Nos fatos, é o mesmo que pretender separa o hidrogênio do oxigênio e ainda beber água. Da simbiose escravista, terrível em suas contradições, nasceu nossa forma de falar, de comer, de dançar, de amar, de socializar. Da escravidão dependeu a própria unidade nacional brasileira. Se temos Brasil, para o bem e para o mal, devemos a ela. A sociedade escravista foi a casa que nos coube, onde fomos infantados. O berço que conformou as raízes que temos que defrontar, para superar o que o passado teve e nos legou de terrível iniquidade, retomada pelo presente.
Por além das múltiplas ascendências étnicas que portamos todos nós, algumas dominantes, outras subordinadas, somos, todos os brasileiros, descendentes de trabalhadores escravizados ou de escravizadores, segundo nosso pertencimento atual ao mundo do trabalho ou do capital, objetiva ou subjetivamente. Nesse sentido, podemos dizer que é, efetivamente, a cor do turbante que todos nós portamos, em forma consciente e inconsciente, que define nossa alma social. 
Um Novo Período 
Entretanto, mesmo os poucos privilégios permitidos pelas políticas racialistas já fazem parte também de um passado em superação. O capital imperialista pôs fim às concessões sociais pontuais que acompanhavam as políticas liberais. Políticas que justificaram e alimentaram em boa parte a era petista. Com elas estão sendo enviadas para as calendas as propostas “compensatórias” e as promoções sociais exemplares. Ato inicial do governo Temer foi pôr fim ao Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Muito logo, o financiamento nas universidades privadas serão feitos a juros de mercado, entregando-se com o diploma ao formado dívida que jamais poderá pagar, como habitual nos USA. Já se iniciou, também, o desmonte das escolas universitárias públicas, em perspectiva de privatização das mesmas.
Aquelas iniciativas e concessões pontuais, criadas para favorecer a dominação pacífica do movimento social, através da cooptação dos seus segmentos superiores e direções, são desprezíveis para gestão do Estado e da sociedade que abre confronto direto com os núcleos centrais do mundo social e do trabalho. Uma política, na procura desenfreada de lucro crescente para o grande capital, despreocupada com o literal processo de canibalização da sociedade. Hoje já nos defrontamos com uma nova ordem que, ainda mais do que ontem, golpeia a todos, com destaque indiscutível para os setores mais frágeis, entre eles, as populações negras marginalizadas. A união dos oprimidos segue sendo, mais agora do que antes, o único caminho a ser trilhado. A divisão social é criminal.
"TROUBLANT TURBANTE
essa não é mais um palpite sobre a mais última treta do FB, aquela do turbante. Dessa vez vou ficar FORA, no êxodo.
Claro, um dos determinantes malucos dessa treta (e muitas outras) é o ex-governismo e seu uso e abuso de narrativas falsas. Essas narrativas multiplicaram situações como essas, onde não se procura apreender o conflito e sua dimensões paradoxal, mas a "solução". Não há solução e o politicamente correto apenas se desdobra, em dois turbantes igualmente legítimos.
O que interessa, é a organização do conflito como base de renovação democrática, para além da frustração das vitimas (que reivindicam o turbante para si apenas) e da falsa consciência daqueles e daquelas que querem pedir desculpa por serem "brancas ou brancos" e usarem um turbante (antes foi a polémica com o Rafucko)

Não interessa nem a boa consciência do lugar de fala nem a falsa consciência do não-lugar de fala, O que interessa é a luta, quanto isso contribui a organizar (ou não) a democracia.O resto é reprodução do cinismo ex-governista e de uma ex-querda extenuada.
Para isso, é interessante talvez ler esse trecho de um autor africano que passou muito tempo nas prisões africanas (da Nigéria). 
Um belo dia, o Wole Soyinka escreveu (tradução livre):

<>.
Numa entrevista, o mesmo Wole escreveu sobre negritude:
<>.

(não conheço a obra inteira do Wole, apenas li algumas entrevistas, então, apenas estou usando essas citações que me parecem me adequadas)"

Giusepe Cocoo

19 fevereiro 2017

Trabalhadores de todo o mundo, unam-se e sigam os Indígenas!

Com os últimos locais tecnicamente capazes de abrigar hidrelétricas, as últimas reservas de petróleo e gás e algumas grandes jazidas de minério localizadas em terras indígenas; ou estando estas terras localizadas entre as fontes de água, matérias-primas e combustíveis fósseis e as indústrias que as utilizam, tornando quase impossível que a construção de aquedutos, oleodutos, gasodutos e mineriodutos não se dê por dentro dessas terras; ou simplesmente a fronteira agrícola avançando sobre elas; surge uma enorme contradição. As corporações farão tudo que puderem, atropelando legislações ambientais (ou modificando-as através dos governos e parlamentos) e direitos humanos, para terem acesso a tais "recursos", o que implica simplesmente a conclusão do genocídio dos povos originários, a fim de abrir caminho para devastação final de suas terras. Os povos indígenas, cada vez mais, se virão obrigados a colocar os próprios corpos diante das máquinas e da força militar (e mesmo paramilitar) mobilizada pelo capital, na repetição recorrente do que se vê em Dakota, com os Sioux de Standing Rock, com os Guarani-Kaiowá enfrentando o agronegócio, os Munduruku e Belo Monte, os indígenas equatorianos e a exploração de petróleo em Yasuni. É o que se vê mesmo aqui no Ceará em que o mais irracional assalto à água pública, para que esta alimente termelétricas e siderúrgica, se dá por meio de uma gigantesca adutora que começa em terras Pitaguary, atravessa terras Tapeba e termina em terras Anacé. Na vanguarda não apenas pela luta por sua existência, mas numa luta em que representam toda a humanidade - e porque não dizer toda a biota - pela sobrevivência, os povos indígenas têm chances escassas de, sozinhos, saírem vitoriosos, pois lhes faltam número, recursos, ainda que atinjam um patamar de consciência, mobilização e organização ainda bem maiores do que hoje, no que inevtitavelmente será uma tentativa cada vez mais frequente de bloquear, interromper ou mesmo sabotar e destruir tais infraestruturas. Seu isolamento pode lhes significar a vitória da morte: água para as indústrias e não para as pessoas, avanço do desmatamento e ecocídio, com a destruição final da vida silvestre e a culminância da sexta extinção, acesso aos estoques de carbono que em sendo queimados nos lançarão inevitavelmente num cataclisma de caos climático e oceanos ácidos. Daí, a grande massa de bilhões, a classe trabalhadora mundial precisa definitivamente entrar em cena, mas com uma missão qualitativamente diferente daquela que dela se esperava no século XIX e no início do século XX. Não é mais possível pensar em simplesmente apropriar-se coletivamente desse imenso aparelho "produtivo" industrial erigido sob domínio do capital, na tentativa deste de subjugar o sistema Terra (ou a Mãe Terra, ou Gaia, ou Pachamama). É preciso desligar as caldeiras das térmicas, desligar altos-fornos, paralisar linhas de montagens de automóveis e fechar válvulas de refinarias, desmontar a indústria de armas e reorganizar por completo a base de fornecimento de energia e de produção de bens materiais, para uma sociedade com menor demanda energética, uso muito mais racional e equilibrado de água, rumo a um sistema produtivo de ciclo fechado, mimetizando a biosfera ao ser capaz de reaproveitar cada átomo já extraído do subsolo utilizando as fontes renováveis, com ênfase no aproveitamento da fonte primária, o sol. Isso implica em não apenas ter consciência de classe, mas consciência de espécie e consciência de biota. Isso implica em romper o acordo com o capital não apenas no que diz respeito a quem controla os meios de produção e quem se apropria da riqueza, mas no sentido mais profundo de questionar os próprios conceitos de produção e riqueza como estabelecidos pelo mundo do capital. Chegamos ao Antropoceno com o capitalismo "transformando o índio em pobre", como nos indica Viveiros de Castro. Sobrevivermos a ele e liquidarmos o capital implica em superar revolucionariamente essa negação do indígena, do vínculo com a terra e o território, da ligação com o mundo natural e material; essa alienação profunda em relação às fontes do que consumimos e ao destino do que rejeitamos; no limite, recuperar essas conexões é condição basilar para que não sucumbamos à barbárie, à fome, à ruína e em última instância à extinção."
Alexandre Araujo
 "Merece as homenagens. Mas, durante o regime militar, absteve-se – chegou a sustentar que não houve censura de livros durante o dito regime – isso em julho 1981, em um encontro de escritores, UBE e SESC, eu estava lá, ele levou uma bronca do Péricles Prade (então presidente da UBE, havia atuado no caso Herzog) por isso. Não participou da visita ao Armando Falcão da Lygia, Nélida, Antonio Torres e outros escritores para protestar contra a censura. Nem de mais nada. Não acho que isso o reduza ou deva ser cobrado. Tem o direito de tomar a posição que bem entender em cada circunstância. Já Roberto Freire era dirigente do PC, o Partidão, com militantes presos, torturados e até mortos. E daí? São as voltas que o planeta dá sobre si mesmo? Baudelaire e a defesa do direito de contradizer-se? Provavelmente. Se a reunião de 1981 fosse de adeptos do regime militar e não de opositores, então ele defenderia a redemocratização? Mas as manifestações sobre esse episódio da premiação, do Camões deveriam conter mais informação e menos demagogia. Tem gente que sabe muito bem do que estou falando e está omitindo, de ma fé. Estão inclusive enganando a garotada, o pessoal que chegou mais recentemente. Obliterar a história, esquecendo quem estava em qual lugar quando as coisas estiveram realmente feias, durante a vigência do golpe (daquele verdadeiro golpe) é péssimo, não se justifica de modo algum."

27 janeiro 2017

"Sem dúvida, há a pichação de má qualidade. Por exemplo, a típica de classe média desocupada, e é como a própria classe que é mediocre e mau educada, nada mais nada menos. Ficam escrevendo com letras primárias e mau português um monte de babaquice por todos os lados, e acabam sujando a cidade. São péssimas frases de amor, como na música "sertaneja de novela", ou palavrões preconceituosos para destratar os vizinhos ou caluniar um professor da escola que resolveu cobrar a lição de casa, essas coisas abjetas que os mais idiotas fazem quando têm mesada para comprar latinha de spray. Mas eu acho que esses garotos jamais vão ser enquadrados, sempre surgirá papai, mamãe ou o amigo da família para liberar o B.O. na prosa afiada com o delegado. Agora, o que tem que diferenciar dessa merda de pichação é a Pixação que surgiu na periferia das cidades como SP e que criou uma linguagem urbana altamente complexa, com códigos individuais de diferenciação, organizando tradições e histórias dentro de grifes e irmandades, verdadeiras escolas de design gráfico, transformando este maravilhoso tecido visual da má arquitetura que infesta São Paulo. São jovens auto-didatas que vão com seus corpos e ousadia reprogramando o espaço dessas fachadas abandonadas e decadentes, criando nelas um novo espaço inteligente com uma elegância que lembra a dos antigos livros germânicos que usavam a tipologia gótica. Ou melhor, essas Pixações de alta qualidade mais parecem as inscrições nas xilogravuras do período Edo, com seus poemas misteriosos de tão sintéticos, como que em uma palavra, soando enigmáticos para nós, arrematados ainda por seus belíssimos carimbos de kanji japonês que reinventam os ideogramas de uma forma estonteante. Talvez até, sem pensarmos muito e se olharmos bem, nos melhores casos, eu diria, lembram a gestualidade zen dos pincéis dos mestres do nanquim oriental. O problema é que com esse papo de crime quem vai em cana são esses calígrafos da contemporaneidade que só possuem a sua própria arte para os defender."

Afonso Luz 

18 janeiro 2017

"... nós, progressistas, antifascistas, homens de esquerda, somos responsáveis por esses massacres. De fato, em todos estes anos não fizemos nada: 1. para que falar de 'Massacres de Estado' não se tornasse um lugar comum e tudo ficasse por isso mesmo; 2. (e mais grave) não fizemos nada para que os fascistas não existissem. Limitamo-nos a condená-los, gratificando nossa consciência com a nossa indignação; e quanto mais forte e petulante era a indignação, mais tranquila ficava a consciência. Na realidade nos comportamos com os fascistas (refiro-me sobretudo aos jovens) de maneira racista: quer dizer, quisemos apressada e impiedosamente crer que estavam predestinados por sua raça a serem fascistas, e perante essa decisão do seu destino não havia nada a fazer. E não o dissimulemos: todos sabíamos, em nossa sã consciência, que era por puro acaso que um daqueles jovens 'decidia' ser fascista, que se tratava de um mero gesto imotivado e irracional; talvez uma só palavra tivesse bastado para que isso não acontecesse. Mas nenhum de nós jamais conversou com eles, nem sequer lhes dirigiu a palavra. Aceitamo-los rapidamente como inevitáveis representantes do Mal. E eram certamente rapazes e moças de dezoito anos, que não sabiam nada de nada, e que mergulharam de cabeça nessa horrenda aventura por simples desespero."
(PIER PAOLO PASOLINI - 'O Verdadeiro Fascismo & O Verdadeiro Antifascismo' - in: "Os Jovens Infelizes")
"OBRE MEMÓRIAS E ESQUECIMENTOS
Tenho sido muito cobrado por ter supostamente defendido que a memória do regime militar seja esquecida, no sentido de ocultada. Nada mais falso. Sempre defendi o binômio de Nelson Mandela: verdade e reconciliação. Sem a perspectiva da reconciliação a busca da verdade se apequena, e reconciliação sem verdade é hipocrisia.

Não tivemos, no Brasil, maturidade suficiente para construir um processo desse tipo. Pagamos caro por isso. O regime militar continua como um fantasma que nos prende ao passado. Temos sido até incapazes de reconhecer que nos últimos 25 anos as forças armadas têm tido um comportamento exemplar em relação às instituições democráticas.
Pessoas, grupos, países e povos que viveram experiências muito mais duras e mais prolongadas que a nossa, como os sul-africanos, foram capazes de dar esse passo. É assim que se faz história.
Lembrar para poder nos libertar da lembrança – é disso que se trata. As pessoas sadias vivem a vida assim, lembrando e esquecendo. Quem não pode lembrar permanece atormentado pela interdição da lembrança. E quem não sabe esquecer enlouquece.
Esse equívoco que cometemos foi mais um tijolo na construção do muro que separa o Brasil e o futuro. Ter recusado a indenização associada à anistia foi uma forma, que encontrei, para deixar claro que não compactuava com o caminho que estava sendo seguido.
Guerreei quando achei que era preciso guerrear, mas não gosto de gente que anuncia muita coragem fora de tempo e lugar."

Cesar Benjamin 
O escritor e seu duplo 
Ricardo Piglia

A literatura atua sobre um estado de linguagem. Quero dizer que, antes de mais nada, para um escritor o social está na linguagem. Definitivamente, a crise atual tem na linguagem um de seus cenários centrais. Ou talvez deveria dizer que a crise está sustentada por certos usos da linguagem. Tem se imposto uma língua técnica, demagógica, publicitária e tudo o que não está nesse jargão fica fora da razão e do entendimento. Tem se estabelecido uma norma linguística que impede nomear amplas zonas da experiência social e que deixa fora da inteligibilidade a reconstrução da memória coletiva. 
Em The Retoric of Hitlers Battle, escrito en 1941, o crítico Kenneth Burke já fazia ver que a gramática da fala autoritária conjuga os verbos em um presente despersonalizado que tende a apagar o passado e a história. O Estado tem uma política com a linguagem, busca neutralizá-la, despolitizá-la e apagar os signos de qualquer discurso crítico. O Estado diz que quem não diz o que todos dizem é incompreensível e está fora de época. Há uma ordem do dia mundial que define os temas e os modos de dizer: a mídia repete e modula as versões oficiais e as construções monopólicas da realidade. Os que não falam assim estão excluídos e essa é a noção atual de consenso e de diálogo. 
O discurso dominante neste sentido é o da economia. A economia de mercado define um dicionário e uma sintaxe e atua sobre o valor das palavras; define uma nova linguagem sagrada e crítica, que necessita dos técnicos e de seus comentadores para decifrá-la e traduzi-la. Deste modo se impõe uma língua mundial e um repertório de metáforas que invadem a vida cotidiana. 
Os economistas buscam controlar tanto a circulação das palavras como o fluxo do dinheiro. Haveria que estudar a relação entre o que transcende, as infiltrações, os desmentidos, as versões e contraversões por um lado e as flutuações dos valores no mercado e na bolsa por outro. Há uma relação muito forte entre linguagem e economia. Nesse contexto escrevemos, e o que a literatura faz (em realidade o que tenho feito sempre) é descontextualizar, apagar a presença persistente do presente cego e construir outro tempo e outra realidade. Cada vez mais os melhores livros atuais (os livros de Walker Percy, de Andrea Zanzotto ou de Juan Gelman) parecem escritos em uma língua privada. Paradoxicalmente a língua privada da literatura é o rastro mais vivo da linguagem social. 
Quero dizer que a literatura está sempre fora de contexto e sempre é inatual; diz o que não é, o que tem sido apagado; trabalha com o que está por vir. Funciona como o reverso puro da lógica do Estado e da realpolitik. De modo que a intervenção política de um escritor se define antes de mais nada na confrontação com estes usos oficiais da linguagem. 
Os escritores sempre têm chamado a atenção sobre as relações entre as palavras e o controle social. Em seu explosivo ensaio Politics and the English Language de 1947, George Orwell analisava a presença do Estado nas formas da comunicação verbal: a língua instrumental dos funcionários policiais e dos tecnocratas havia se imposto, a linguagem tinha se convertido em um território ocupado. Os que resistem falam entre si em uma língua perdida. No trabalho de Orwell se veem condensadas muitas das operações que definem hoje o universo do poder. Pasolini por seu lado tem percebido de um modo extraordinário este problema em suas análises dos efeitos do neocapitalismo na língua italiana. Não me parece nada raro então que o maior crítico da política atual (um dos poucos intelectuais realmente críticos na política atual) seja Noam Chomsky: um linguista é certamente o que melhor percebe o cenário verbal da tergiversação, a inversão, a troca de sentido, a manipulação e a construção da realidade que definem o mundo moderno. 
Gostaria de recordar duas citações, onde se analisam estes procedimentos de encobrimento. Primeiro uma de Orwell: Bombardeiam povos indefensos, tiram os habitantes de sua terra e metralham seu gado, incendeiam suas cabanas e a isso se chama pacificação. Milhões de campesinos são despojados de suas granjas e enviados para a estrada sem nada, e a isso se chama retificação de fronteiras. E Chomsky, por sua vez, diz sobre a troca de nome de Departamento de Guerra (nos Estados Unidos) para Departamento de Defensa em 1947. Enquanto isto se sucedeu, qualquer pessoa sensata devia dar-se conta de que os Estados Unidos já não se ocupariam da defesa, participaria nas guerras tão somente como agressor. Também diz Chomsky: nos anos 40, nos círculos da indústria das relações públicas, tomou-se a decisão de introduzir expressões como livre empresa, mundo livre, ao invés de termos descritivos convencionais como capitalismo, insinuando que os sistemas de agressão e de controle nos quais estavam implicados aqueles que detinham o poder eram na realidade una forma de liberdade. Mundo livre, livre empresa, livre concorrência, livre mercado. Era uma maneira de nomear a concentração econômica e a política da expansão dos grandes monopólios. Desse modo se impõe uma linguagem encobridora, um estilo médio, e tudo o que não está nesse jargão é considerado hermético e fora de lugar. Ou seja, estabelece-se uma norma linguística, que não tem nada que ver com os registros da língua popular nem com as experiências concretas da vida cotidiana e se definem aí os níveis de compreensão e de sentido. 
Há uma cisão entre a língua pública, a língua dos políticos em primeiro lugar e os outros usos da linguagem que estão perdidos e quase apagados da superfície social. Tende-se a impor um modelo único - que funciona como um registro de legitimidade e de compreensão - que é manejado por todos os que falam em público. Em momentos em que a língua se tem tornado opaca e homogênea o trabalho detalhado, microscópico e quase invisível da literatura é uma resposta secreta e corrosiva ao estado das coisas.

13 janeiro 2017

"AUGUSTO DE CAMPOS: "Penso, como Cage, que a vanguarda — que prefiro chamar de poesia de “invenção”, a partir da classificação de Pound, para abarcar tanto o passado (como o trovador provençal Arnaut Daniel) quanto o presente — sempre exisitirá e não precisa ser um fato coletivo. É sinônimo de “curiosidade” e de “liberdade”. Não apenas expressar, mas mudar. Sempre haverá artistas que não se satisfaçam com a linguagem corrente, e queiram explorar novos caminhos, e não apenas falar da sua vida. No que diz respeito às “utopias“, apesar de me considerar pessimista, adoto a concepção de Oswald, que associo às ideias de Cage sobre vanguarda. “No fundo de toda utopia não há somente um sonho, há também um protesto”. Temos direito permanente ao fracasso da utopia. O universo digital e a internet são utopias que — para o bem ou para o mal — deram certo sob muitos aspectos. Mudaram a forma de comunicação mundial em duas décadas. A linguagem mudou, está mudando, e isso tem reflexos na própria linguagem da poesia que se faz hoje e que não pode ser a mesma do passado. Walter Benjamin, em 1926, predizia: “No futuro, antes que alguém abra um livro, desabará sobre seus olhos um turbilhão de letras móveis, coloridas, conflitantes. Nuvens de letras-gafanhotos. As chances do mundo do livro serão reduzidas a um mínimo. E os poetas terão que se tornar especialistas em grafias e diagramas para enfrentar o desafio das novas tecnologias.” É bom pensar nisso. Senão a poesia do “agora”, que o Haroldo postulava, pode virar poesia do “outrora”… 

11 janeiro 2017

"A raiz do pânico da imprensa com Donald Trump não vem, como alguns tolos insistem em imaginar, do fato de que este dissemina mentiras enquanto aquela representaria o bom senso e o compromisso com os fatos por oposição a ele. Trump mente mesmo, mas a questão aqui é outra.
Trata-se de coisa distinta, que demanda outro conceito de verdade, o foucaultiano. A imprensa está em pânico porque até agora a produção de verdade/ mentira da qual ela é dispositivo fundamental tem andado em compasso conjunto com a produção de verdade/ mentira do próprio poder estatal. Lembre-se aqui da Guerra do Iraque: foi baseada em mentiras, mas mentiras validadas no interior de um projeto de produção de verdade que mobilizava, sem fissuras, mídia e governo. Não é necessário acreditar em teorias bestas sobre a mídia maligna ou a conspiração da mídia para concordar com essa análise.
Agora é diferente: o soberano se transforma, ele mesmo, não apenas em fonte, mas também em veículo de produção de verdade. Trump, ele mesmo, gera a notícia, obrigando a imprensa, por exemplo, a fazer constantes programas jornalísticos sobre seus tuítes. Não importa o que é "mentira" ou "verdade" aqui -- o que importa é que a imprensa foi deslocada de seu poder reitor na administração do verdadeiro e do falso. E isso gera enorme confusão para o quarto poder. Está sendo divertido observar.

As redes sociais estão em guerra nos Estados Unidos. Informação não verificada, versão adulterada da informação não verificada, produtores de notícias falsas acusando o outro lado de produzir notícias falsas, geopolítica, guerras culturais, whistleblowers, acusações de violação da ética jornalística, traição à pátria -- tudo isso, junto e misturado no escândalo envolvendo Trump e a Rússia."

Idelber Avelar 

23 dezembro 2016

"A morte é uma coisa grande. É uma nova rede de relações com as ideias, os objetos, os costumes do morto. Ela é um novo arranjo do mundo. Nada mudou aparentemente, mas tudo mudou. As páginas do livro são as mesmas, mas não o sentido do livro. Precisamos, para sentir a morte, imaginar as horas em que temos necessidade do morto. Então, ele nos faz falta. Imaginar as horas em que ele precisaria de nós. Mas ele não precisa mais de nós. Imaginar a hora da visita amiga. E descobri-la oca. É preciso ver a vida em perspectiva."
Antoine de Saint-Exupéry, Piloto de guerra, 2015 [1941], p. 36.
"Existe sempre um algoritmo para prever um aspecto do comportamento humano: o possível coincide cada vez mais com o provável, e entender se algo é mais ou menos possível se tornou uma mera questão de potência de cálculo. O diretor da Uber, em resposta a uma pergunta sobre o aumento dos custos para o usuário, certa vez declarou à revista Wired o seguinte: 'Nós não fixamos os preços. É o mercado que fixa o preço. Nós temos os algoritmos para determinar o que é o mercado'."
Trecho de Emanuelle Braga, "Política do algoritmo", artigo da excelente edição recente da Piseagrama.

19 dezembro 2016

Entrevista com Marie-José Mondzain

Entrevista com Marie-José Mondzain
photomjm
P: A imagem se tornou, nos últimos anos, um dos temas teóricos em voga: dela não se fala apenas em termos de história da arte, mas também em termos sociológicos, de teoria das mídias e de filosofia política. Em uma das suas entrevistas precedentes, a senhora menciona que na época em que o tema da imagem não estava tão na moda era preferível falar de semiologia, do “campo de especialidade que se desenvolve entre a filosofia e a gestão dos signos sociais”, e que, durante o reinado da semiologia, a imagem era abordada em termos de leitura: “lia-se” as imagens. A senhora poderia indicar por que a semiologia da imagem finalmente perdeu seu crédito? O que supostamente a substitui, no nível do pensamento contemporâneo da imagem?
Marie-José Mondzain: O controle industrial e comercial das imagens está inteiramente centrado na ideia de que é preciso que elas sejam de todo co-extensíveis ao discurso que as habita – é assim que se vendem ideias, pessoas, coisas. A quantidade de produções visíveis não tem nada a ver com o excesso de imagem que designei como seu próprio, como sua propriedade. Minha relação com a semiologia e a linguística é de curiosidade, de interesse. Mas, ao mesmo tempo, sempre vejo que esses textos são – com frequência virtuosos do ponto de vista conceitual e que desenvolvem os instrumentos de uma microcirurgia dos objetos –, na maior parte dos casos, redigidos com um espírito de inteligibilidade ou de controle que não necessariamente revelam uma vontade de poder, mas que são, para mim, saberes acadêmicos. A imagem é tratada como um objeto, um objeto do saber que tem seus experts e é suscetível de especialidade.
Até um período relativamente recente – dado que a questão da imagem se tornou cada vez mais preponderante desde o início do século XX –, aqueles que escreviam sobre as imagens eram tanto os historiadores da arte quanto os industriais da imagem. Mas percebíamos que a filosofia aí não encontrava seu regime: deixamos a imagem se desenvolver sem colocar questões. Também estou muito interessada pelas leituras das imagens feitas por historiadores como Daniel Arasse ou Georges Didi-Huberman que, de fato, integraram aos seus modos de análise a dimensão propriamente filosófica. A leitura renovada de Aby Warburg permitiu uma espécie de oxigenação em relação ao aparato bem equipado dos semiólogos, dos estruturalistas, dos linguistas, que acabaram por asfixiar totalmente seu objeto ao reduzi-lo ao estado de coisa. Eu diria que, para certos analistas da imagem e da sua história, a redescoberta de Aby Warburg ou o retorno a Walter Benjamin são as aberturas libertadoras em relação à polissemia da imagem. Por polissemia quero dizer que a imagem é indecidível, jamais unívoca. Sua equivocidade, sua liberdade, seu excesso, nela se encontram como uma respiração. Saímos do laboratório instrumentalizado e do senhorio.
Mas por que também não estou na mesma posição que esses pensadores? De início, porque não sou historiadora da arte e não realizei o mesmo trajeto a partir da filosofia. Considerando que a imagem havia sido causa de guerras, de destruições e de crimes, que pessoas são mortas por sua causa e que outras tomaram o poder com ela, optei por olhar para onde estavam aqueles que as faziam, aqueles que as queriam, aqueles que as destruíam, aqueles que as defendiam, e àqueles para quem eram verdadeiramente uma aposta de vida e morte. Cheguei a um terreno onde estava, de fato, sozinha. Sou parte do que se passa com a imagem nos monoteísmos. Era preciso, então, traduzir os textos; passei muito tempo na leitura e tradução desse primeiro material.
É por isso que, para responder a sua questão – é preciso uma nova leitura da imagem pois a semiologia não vale mais nada? –, não estou nesse regime da questão. Coloquei a questão na sua genealogia: como a questão da imagem foi posta? Em que momento a imagem se tornou uma questão que provoca aqui a repulsão, a delação, a idolatria, a glorificação política, e em outra parte a perversão? Em que momento essa questão foi atrelada? Passei tempos em lugares um pouco solitários, uma vez que se tratava do mundo proto-cristão, bizantino, iconoclasta, e me encontrei na comunidade científica dos filósofos da antiguidade, para os quais a imagem não era um bom objeto, e dos historiadores da Idade Média oriental, para quem a imagem era apenas um problema teológico. Construir um objeto filosófico nessas condições não era simples. Mas penso, em parte, ter conseguido, isto é, ter convencido de que havia uma construção filosófica do objeto chamado imagem naquele momento. E é desse momento que é preciso partir. Eis aí a gênese.
P: Passemos às questões de conceitos para mencionar seu percurso teórico e especificar o vocabulário “imagem, ícone, ídolo”, constitutivo de sua obra. Nos seus livros Image, icône, économie e Le commerce des regards, a senhora emprega os conceitos “ícone” e “ídolo” para falar da imagem e de suas raízes religiosas. Ainda que esses dois termos sejam muito próximos, eles são de significações opostas: a senhora indica que ícone, imagem da paz, dá sua legitimidade ao ídolo, o qual funciona como um funil do olhar. Ao mesmo tempo, a senhora afirma que “A imagem é independente do regime da verdade”. A senhora poderia especificar a distinção que aí faz entre o ícone, o ídolo e a imagem em geral?
Em vez de dizer a imagem em geral, diria que “imagem” é um termo genérico, designa o gênero cujas espécies seriam o ícone e o ídolo. Mas isso também não é de todo verdade.
Voltemos, assim, às palavras. Uma vez que estamos conversando em língua francesa, somos obrigados a passar por tal língua para falar de coisas que foram pensadas primeiramente em hebraico, em grego e, então, em latim. Esses termos não se recobrem de todo: a palavra “imagem” não é a tradução do latim “imago”, esta que não é a tradução do grego “eikon”. Então vamos, aqui também, tomar as coisas de modo histórico, ir ao terreno histórico onde as coisas se colocaram e aconteceram, em situação de crise, onde a imagem se constituiu como questão ao mesmo tempo filosófica e política. É importante saber que as coisas primeiramente foram ditas em grego. Mesmo que, nas igrejas ortodoxas, chamemos eikon os objetos que vemos nas igrejas ortodoxas e que são chamados “ícones”, a palavra eikon, em grego, não é um substantivo. Quando Platão ou, mais tarde, os padres da Igreja falam de eikon, eles não designam uma coisa. Eles designaram um modo de aparição no campo do visível, pois o eikon, em grego, é análogo a uma forma verbal no particípio presente. Quando um grego quer dizer a coisa, a coisa icônica, ele toma a raiz dessa palavra, eikon, e a coloca no neutro, pois eikon é uma ramificação verbal no particípio presente ativo e no feminino. Quando ele a coloca no neutro – para as coisas, em grego, o neutro termina normalmente com “ma” – ela se torna “eikonisma”, como “apeikasma”, “fantasma”. Tomemos o exemplo do verbo “fazer” (pratto, prattein): se você utiliza a palavra “práxis”, é a ação, é uma palavra no feminino, como “eikon”; mas a coisa é “pragma”, que deu pragmático, e práxis deu “prático”. O grego distingue o estatuto da coisa da ação que a traz à existência: “poiésis” é o gesto de criar, “poiéma” é o poema. Ao contrário, as palavras no neutro também terminam com “on” – como “eidolon”, que fez “ídolo” – e designam, no visível, as operações das coisas, dos objetos, na sua consistência opaca e presente, no seu efeito de real. Ergon não é poièsis, nem todo fabricante é poeta.
Voltemos agora ao eikon, que foi traduzido por “ícone”. Da minha parte, prefiro traduzir por “semblante”, pois a tradução literal de eikon é “semblante”[1], no particípio presente, é a “coisa aparente”. O segundo sentido da palavra eikon é “semelhante”[2]: “semblante”, “aparência do outro”, portanto, “semelhante”, “quanto ao retorno da aparência[3]”. É muito importante compreender que o grego diferencia as operações do visível das operações do sensível e que, se o platonismo rejeitou as imagens, em grande parte – salvo em alguns casos, como no Timeu, em que a imagem serve à visão cosmológica do mundo – é porque a aparência coloca um problema ontológico à filosofia. Pois se uma coisa que parece não é, ela não tem um estatuto ontológico de verdade. Ela é inapreensível. Platão não confunde eikon e eidolon, e coloca o eikon ao lado daquilo que parece. E, de fato, para ele é ainda ontologicamente insuficiente. É insuficiente porque sobre aquilo que parece não se pode construir um saber. O que Platão vê aí é de todo justo e eu o defendo: não há saber sobre a imagem. Para Platão é sua fraqueza, para mim é sua força e seu destino político. Como analisei em meu livro Le commerce des regards, a filosofia platônica só reconhece dignidade àquilo que permite construir um saber e uma verdade, associando o ser das coisas à verdade do discurso sobre tal ser das coisas, o que faz com que, ontologicamente, a imagem não possa ter seu lugar na dignidade metafísica de uma verdade sobre o ser. Mas Platão diz, apesar de tudo, que essa aparência não é não-ser: é uma insuficiência. O fato de que a aparência não seja nem ser nem não-ser coloca o próprio Platão em dificuldade: ele diz que é verdade que a imagem não é – Ontos mè onta. É ontologicamente que ela não tem ser. Assim, ela participa, ela é ao mesmo tempo on e mè onta, ela está entre o ser e o não-ser. O fato de ser “entre” é o modo do eikon: é ser “entre”, entre o ser e o nada, é esse modo de aparição do mundo que coloca o olhar em crise, que faz com que nós vejamos nos inquietemos, duvidemos, suspeitemos. Ao mesmo tempo, talvez isso tenha a ver – pensa Aristóteles, mais do que Platão – com os regimes daquilo que os homens partilham na cidade, das coisas pouco certas, verossimilhanças, dos regimes opinativos da palavra, das ignorâncias sobre o amanhã, das contingências, das fragilidades: partilhamos muito mais fragilidades e dúvidas do que certezas em uma cidade. Platão gostaria que o rei fosse filósofo e que o matemático fosse filósofo e, portanto, que o matemático fosse o rei e o filósofo, ou seja, ele gostaria que tudo isso fabricasse um poder um pouco sólido; enquanto o interesse do pensamento aristotélico buscava compreender a política como um regime de fragilidade e de dúvida, de inconstância, de ignorância, pois a vida política é temporal e, assim, ligada à morte do passado e à ignorância do futuro, e o presente era feito, trabalhado, por essa desaparição das coisas e por essa ignorância do que vem. E a imagem esta aí, entre todas essas coisas que são partilhadas pelos cidadãos. Portanto, o eikon, esse regime de aparência, antes de ter sido um objeto, foi designado pela língua grega, com desconfiança ou esperança, como um regime singular da aparência e da verossimilhança, da doxa e do endoxon.
Quanto aos ídolos, sem dúvidas é preciso esperar uma reflexão mais aprofundada dos Padres da Igreja para lhes dar um estatuto no coração do pensamento da imagem. O ídolo é um objeto que mediatiza as relações entre os viventes e os mortos, entre os poderes ocultos e as impotências reais. Ele não é o antônimo do ícone, antes do debate doutrinal sobre a imagem. Por razões que enunciei em minhas obras – a saber, que há uma crise do olhar na produção das imagens entre instâncias do poder –, sou tocada pelo fato de que a imagem, nesse debate, é denunciada, criticada ou defendida de acordo com a questão: “o eikon e o eidolon são a mesma coisa ou são coisas diferentes?” Os iconoclastas dizem que todo eikon não se deixa conhecer como eidolon, portanto, há idolatria. A resposta dos iconófilos, triunfante – e que penso ser extremamente interessante –, é que o único meio de salvar o regime da imagem é dizer que entre eikon e eidolon há incompatibilidade, uma distinção definitiva; há mesmo uma contradição. Eikon designa uma relação, eidolon designa um objeto. E, portanto, os iconófilos puderam dizer aos iconoclastas: vocês é que, ao destruírem os ícones, são idólatras, uma vez que diante da fragilidade e aparência do ícone vocês veem apenas o objeto. Assim, vocês têm um olhar idólatra para aquilo que não deveria ser senão um objeto. É seu olhar que reifica o objeto da fragilidade, da aparência. Fazemos referência ao dois lados da questão sobre o ídolo. Mas se quisermos verdadeiramente responder a tais questões – “o que é um olhar que reifica?” e “o que é um olhar que respeita a fragilidade do ícone?” –, a cada vez, vamos encontrar apenas a palavra “imagem” por ser lida. Daí a reflexão sobre a “imagem”.
Ora, quando em francês dizemos “imagem”, há um desconforto – que encontramos também nas línguas anglo-saxônicas, as quais não nos auxiliam muito –, pois a grande reflexão de fundação é feita em grego e encontrou a sutileza de um desdobramento plural das palavras em latim. O francês exige muita explicação aí onde o grego, que a respeito disso também se explicou, encontra palavras para especificar os regimes: tanto articulados quando incompatíveis uns com os outros. Se pesquisarmos sobre o latim “imago” teremos mais nuances, sabendo que o interessante do latim imago é que é muito ligado às práticas funerárias e, portanto, sem dúvida ligado à experiência da morte, do desaparecimento e do que é retido daqueles que não estão mais aqui. Mas percebemos que a imago flutuou entre os latinos, tanto que, no latim medieval, palavras diferentes circularam e se esforçaram para dar conta da dimensão espiritual da imago. Santo Agostinho e os padres latinos, necessariamente, precisam se ocupar da imagem por razões teológicas evidentes, uma vez que a encarnação é uma estrita questão de visibilidade da imagem. Encontraremos reflexões muito sutis e apaixonantes a respeito de “signum”, de “species”, “figura”, “fictio”, “res picta”, a coisa pintada, “res ficta”, a coisa imaginada. Entre “imago” e “imagines” acontecerão também idas e vindas.
Assim, como dar conta dessas vibrações lexicais quando escrevemos em francês? E quem escreve em francês? Todo esse tempo que passei trabalhando entre noções gregas que faziam distinções de extrema sutileza, para, em seguida, falar de imagem a meus contemporâneos, era preciso retrabalhar os efeitos do próprio vocabulário. A maior parte do tempo fui obrigada a dizer: chamo “visibilidades” o modo no qual aparecem no campo do visível objetos que ainda esperam sua qualificação por um olhar. Irei chamar “imagem” o modo de aparição frágil de uma aparência que se constitui a olhares subjetivos, em uma subjetivação do olhar. A “imagem” é efetivamente, no meu léxico, o que constitui o sujeito. O eikon é o modo de aparição dos signos que permite a estes se constituir para permitir a partilha do simbólico. O “ídolo” é o modo sob o qual pode totalmente se afundar e se aniquilar a questão do desejo, quando o desejo de ver dá a si mesmo o objeto de sua completa satisfação, digamos, de seu gozo. E, assim, quando os antigos criticam o ídolo, é preciso não se esquecer jamais de que há essa suspeita, de todo legítima, em relação a objetos que se consomem e que consomem o sujeito. O ídolo é então aquilo que ameaça a subjetividade, uma vez que essa relação é de consumo passional, fusional e fantasmática. Nesse sentido, o desejo de destruição é inseparável do destino dos ídolos. Finalmente, quando coloco “imagens” no plural, designo o conjunto de produções do visível às quais ainda não dei qualificação, ainda não sabendo a quais operações do olhar elas vão dar lugar.
P: Várias vezes a senhora colocou em evidência o fato de que a imagem encontra seu lugar entre a visão e a representação, que ela necessita de uma construção, uma formação prévia do olhar de um sujeito falante (e que ela é, nesse sentido, inacessível aos olhares dos outros mamíferos, por exemplo). Trata-se, assim, no caso do olhar humano, de uma competência cultural. A senhora poderia especificar qual é a natureza da relação entre o sujeito e a imagem?
Nas nossas sociedades de hoje, encontramo-nos diante da designação massiva da palavra “imagem” a tudo o que é produzido no visível: fotos, obras de arte, publicidades, televisão, cinema, documentos. Todos são “imagens”. Sim, mas em que são eles imagens? Sob qual título? Pelo meu trabalho, gostaria de dar conta dos regimes de pensamento que foram fundadores em relação à definição da imagem: fundadores não quanto ao seu estatuto de objeto, mas quanto àquilo a que ela remete nas operações do olhar a ela dirigido por um sujeito. As coisas se esclarecem a partir do momento em que classificamos a imagem na relação que ela tem com o olhar do sujeito, com o cruzamento de olhares e com a troca, a circulação de signos, distinta do comércio das coisas, daquilo que chamo o comércio de olhares. É o olhar do sujeito que dá à imagem seu estatuto de “eikon”, de “eidolon”, de “fantasmata”, de “fantasma”; é a maneira de construir o olhar que reifica ou não seu objeto. Posso tomar os maiores lugares do olhar e da aparição frágil da história da arte e deles fazer objetos idolátricos. E é justo por isso que os artistas surrealistas, em particular, os dadaístas, lutaram contra a arte burguesa, necessariamente idólatra e que reifica a arte como mercadoria. Por meio dos objetos de arte, eles jogaram e atacaram os ídolos da cultura burguesa para mostrar que estes são operações do olhar que foram lentamente desqualificadas pelo comércio dos objetos. Eis as coisas que nos concernem de modo vital hoje.
Minha abordagem faz um apelo a cada um de nós, enquanto sujeitos, a nossa potência subjetiva de qualificação do visível; a neste reconhecer signos em um campo de signos que circulam; a dizer que o que chamamos de imagem pode ser, ou não, constituinte ou destituinte dos sujeitos que as olham.
É aí que as coisas se complicam na definição, pois é preciso explicar em que, antropologicamente, a imagem é constituinte da relação entre os sujeitos, e do próprio sujeito. A fim de dar conta da abordagem patrística e dos efeitos bastante modernos que ela poderia ter para nós, e do interesse que por ela poderíamos ter para nutrir nosso pensamento da imagem, o problema mencionado me obrigou a me dirigir à antropologia e à psicanálise. Ambas me fizeram ver como, genealogicamente – do ponto de vista filogenético (a constituição da humanidade) de um lado, ou ontogenético (a constituição do sujeito humano na sua individualidade e singularidade) do outro –, a questão da imagem era parte envolvida na gênese do sujeito. E assim compreendia que um sujeito que era privado de imagens, que não podia construir uma imagem de si, havia produzido na nossa sociedade, tão plena de imagens, uma verdadeira patologia da imagem. Isto é, que havia um sofrimento, uma patologia, um abuso do olhar, que fazia com que houvesse uma destituição da imagem, um abuso do narcisismo primário: como nos constituímos a nós mesmos na imagem que temos de si em relação a um outro sujeito, em relação ao olhar de um outro sujeito? A psicanálise, a psicopatologia, os textos sobre a psicose, muito me esclareceram sobre o fato de que a imagem era uma aposta constituinte para os sujeitos na sua relação matricial, na sua origem. Filogeneticamente, também, percebia que, no fundo, a própria humanidade assinalava-se como humanidade por inscrição dos signos que, antes de dar testemunho de uma linguagem ou mesmo de uma escritura, designavam o modus imaginis, o modo da imagem, como primeiro gesto de separação. Tornando-se a condição necessária ao acesso de cada um de nós às operações simbólicas da palavra, a imagem pode ser um separador, um operador de separação. Um bebê, por exemplo, que não tem nenhum meio de construir e apreender sua própria imagem – sinestésica e visual ao mesmo tempo – é uma criança que jamais terá acesso à palavra. E, assim, nos autismos, nas afasias, nas psicoses infantis, tratamos e retomamos as coisas pela questão da imagem: fazemos desenhar. Recomeçamos pela construção da imagem.
Se o sujeito se constrói, então compreendemos que o que os Padres designavam pela palavra eikon era algo constituinte das relações entre os sujeitos. Desse modo, o que é constituinte do político, isto é, do viver juntos, no sentido grego, assim o é porque é constituinte dos procedimentos, dos protocolos de subjetivação. Não há sujeito sem imagem. É muito importante. O ídolo torna-se, no seu processo de reificação, muito mais o modo pelo qual o visível não produz o sujeito, mas o reduz ao estado de objeto: o ídolo é o que reifica o sujeito, ao ser uma reificação da imagem.
É nesse sentido que digo que há uma verdadeira patologia da imagem, a qual faz com que aqueles que não têm imagem de si mesmos, senão por meio de objetos, sejam reduzidos ao estado de objeto e persuadidos de que é a apropriação e o consumo dos objetos que vão lhes permitir construir uma imagem de si mesmos. Do ponto de vista inicial do sofrimento social de hoje, pedir o reconhecimento de identidade peloo consumo dos objetos produz violências. Isto é, alguém que não tem nenhum meio de se fazer reconhecer em um campo social por um outro olhar, procura chamar a atenção desse olhar pelo consumo de objetos que lhe dão uma identidade em relação ao olhar do outro. Para ele serão precisos Nike, Lacoste etc.. O consumo das marcas torna-se um marcador identitário. De uma só vez, vamos nos tornar qualificados, identificados, pelos objetos que estamos à altura de consumir. Fazemos de nós mesmos objetos – e pensamos ser esse tornar-se objeto o único meio de obter o olhar do outro e um processo de reconhecimento, portanto, de dignidade. Estamos em uma história de loucos: as pessoas tornam-se criminosas porque não têm nenhuma imagem de si mesmas. Estão em uma tal desqualificação interna que vem como uma dor absoluta, que engendra uma violência absoluta, que dá vontade de matar, de morrer.
P: Com o objetivo de especificar o papel cultural do “eikon”, voltemos mais uma vez à terminologia. No seu livro Image, icône, économie, a senhora dirige sua atenção para o fato de que, nos contextos não cristãos (clássicos e pagãos), a palavra “oikonomia” designava tudo o que era gestão e administração, ao mesmo tempo dos bens (economia) e das visibilidades (ikonomia). A senhora assinala igualmente que o termo “economia” tornou-se, no momento da crise iconoclasta bizantina, o leitmotiv da defesa icônica. A senhora poderia elucidar as razões dessa retomada do termo “economia” no contexto cristão?
Para mim, foi uma descoberta saber que os Padres da Igreja tinham, depois de São Paulo, construído toda a doutrina do “eikon” sobre algo que eles opunham à “teologia”. A imagem é uma relação econômica, isto é, anti-teológica. A economia é a dimensão real, histórica, é a dimensão temporal do olhar. Ela designa essa negociação ininterrupta dos olhares entre o que está presente e o que está ausente. É dizer que só há vida dos signos numa relação com a ausência e em uma separação da presença. É magnífico que “a economia” tenha se tornado o conceito operatório dessa construção, pois isso toca a totalidade das trocas humanas e vai, efetivamente, do comércio e circulação de signos até o comércio das coisas e a circulação das mercadorias. A mesma palavra! A que isso se refere? À nossa responsabilidade ética e política no campo do visível. Cabe a nós escolher. Os objetos, nisso, não podem nada. Eles não fazem nada, eles não matam, eles esperam.
Ora, a palavra “economia” não é uma invenção dos cristãos, mas é retomada do grego clássico: foi muito utilizada por Xenofonte, por Aristóteles. Ela designa toda a gestão e administração doméstica e, em Aristóteles, é tomada nas suas relações com a administração da cidade. Como, para Aristóteles, o modelo familial permanece o modelo da economia política, passamos da gestão e administração do patrimônio pelo pai, à gestão e administração dos bens e serviços no campo social. E mesmo o “oikonomos” era já um intendente. É ele que está encarregado de gerir, administrar, regular, compatibilizar, velar, pelo equilíbrio na produção, na difusão, no gasto.
A palavra “economia” foi traduzida ao latim essencialmente por duas palavras: “dispositio” e “dispensatio”. “Dispositio” é como o grego “systema”; é o conceito de organização que está por trás e a partir do qual encontramos o sentido na “oikonomia”: a organização. O grande “oikonomos” na teologia é Deus, o grande organizador, o ordenador do mundo, o arquiteto cosmológico. É também por que a economia foi identificada tão rapidamente com a providência, com o “cosmos”, em grego, querendo dizer ao mesmo tempo a ordem, a beleza e o mundo. Estamos em um mundo onde só podemos admirar e anotar a inteligibilidade, a regularidade, a ordem e a beleza – “cosmos”. A origem desse “cosmos” é um “oikonomos”: uma entidade, um princípio de organização racional e estético sem falha. É por isso que “oikonomia” se tornou “pronoia”, providência.
Mas, a partir do momento em que essa providência, no mundo cristão, entregou-se ao exercício histórico admirável da economia, produzido pela imaginação cristã da encarnação, a providência e a ordem do mundo foram mudadas. Em todos os casos, eles se implementam sobre um outro regime do que o que conhecemos da teologia cosmológica: aquele da história dos homens como gasto de Deus (Dispensatio). Tal mudança é devida à encarnação, esta que consiste em duas coisas fundamentais. Um, a temporalização da divindade que nasce, vive e morre: a divindade se torna temporal e histórica; dois, a divindade, que não é visível, torna-se visível. Temporalização e visibilidade são as duas características da encarnação. A partir do momento em que é Deus que a quis, em que é a providência que organiza isso, será preciso integrar essa história, essa narração, à “oikonomia”, e dizer que esse fenômeno da encarnação faz parte do plano geral da divindade, que se torna um plano não simplesmente invisível, inteligível e cósmico, mas histórico e vivível.
Assim, “eikonomia” – cuja homofonia, em grego, com “oikonomia” assinalei, pois, para os grego, “oi” e “ei” são ambos pronunciados “i” –, o direito do ícone, a lei do ícone, é também a lei da casa, a nova habitação. Ele se fez Verbo, Ele se fez Pai e Ele veio habitar entre nós. Desse modo, essa lei da habitação, do “oikos” e do ícone, que são completamente homofônicos; e, penso, não apenas homofônicos: eles são sinônimos. Não podemos separar o registro icônico do registro histórico e do registro providencial, de gestão e de administração do mundo. Apenas – como compreenderam muito bem os latinos ao dizer que há não somente “dispositio”, reorganização, mas também “dispensatio”, gasto – essa economia é, ao mesmo tempo, em um regime computável, um investimento, com tudo o que isso representa de perdas e benefícios. E, numa boa economia, é preciso que o gasto seja um investimento que traga benefícios. Por consequência, a ressurreição é o modo pelo qual a perda será superada por um benefício incalculável, incomensurável, que é a Redenção. Há aí uma economia, um investimento e um gasto – pois não é pouca coisa enviar um filho, uma imagem, e entregá-lo à paixão e à morte: é um grande risco econômico assumido pela própria divindade. Mas tal risco é bem gerido, uma vez que isso dura até agora e que é um caso que não conheceu a bancarrota.
P: A aposta de seu livro Image, icône, économie era a de desvelar as fontes do imaginário contemporâneo na querela iconoclasta na época bizantina (725-843). Ainda que falemos com frequência em relação às “guerras das imagens” do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, em Nova York, poderíamos mencionar também a recente lide seguida à publicação das caricaturas de Maomé em um jornal dinamarquês. Para a senhora, podemos identificar a censura contemporânea à iconoclastia bizantina? Há diferenças entre essas duas estratégias de eliminação das imagens?
Todo poder tem suas imagens e recusa ao contra-poder ter sua visibilidade. Aqui estamos perto da problemática iconoclasta: quem toma o poder tem o monopólio da imagem e de sua significação. E, portanto, interrompe a busca icônica do outro, ou o censura.
Entretanto, a iconoclastia bizantina não era uma censura: era uma maneira de destruir uma instância de poder, recusando as imagens àqueles que delas se serviam para tomar o poder, justo por reconhecer que tal era o poder das imagens. Essa prática consistiu em suprimir imagens retirando uma categoria do poder que se queria eliminar, mas para substitui-lo por imagens do poder que se queria constituir. E aquele que as destruiu, ao mesmo tempo, compreendeu bem que as imagens tinham um poder, uma vez que atribuiu a si mesmo o poder de fazer suas próprias imagens. Os iconoclastas não são an-icônicos: eles são contra as imagens religiosas, as imagens no campo da Igreja, para desenvolver um imaginário profano, um imaginário do poder; há até mesmo uma arte iconoclasta. Assim, não se trata de uma eliminação das imagens, mas de uma eliminação do outro enquanto utiliza suas imagens para tomar o poder.
Ademais, em Bizâncio, a imagem não é um pretexto. Ao contrário, ela é a aposta do poder e a própria razão da crise: todos queriam tomar o poder com suas próprias imagens e suprimir as imagens do outro para tomar-lhe o poder. Isso quer dizer que a imagem é, nesse momento, reconhecida como portadora de um poder de convicção, de submissão e de representação do poder do qual se quer privar seu adversário.
Quando as caricaturas de Maomé são proibidas, isso não é feito por que se quer tomar o poder, suprimir um poder às imagens. É em um contexto de todo diverso, em uma outra paisagem política, que é a do terror ideológico. Muitos não foram enganados por esse história de censura das caricaturas de Maomé, dizendo que a produção e a denúncia das caricaturas eram uma operação de propaganda nos dois sentidos. A questão da imagem era aí extremamente secundária: nem mesmo eram caricaturas que faziam rir, com algum um interesse gráfico. Apenas se aproveitou de uma manchete visual por meio da caricatura para inflamar um conflito ideológico que é somente a máscara de um conflito de tipo econômico. O Islã e as convicções religiosas são hoje a aposta sob a qual se opõem potências econômicas no mercado do ópio, do petróleo, das armas. Ora, em vez de dizer que, neste momento, as pessoas morrem por causa do ópio, do petróleo e do mercado das armas, criou-se uma martiriologia terrificante, ao dizer que as pessoas se matam porque há um choque de culturas, uma incompatibilidade de culturas. Mesmo no momento das caricaturas de Maomé, dizia-se que o conflito advinha da fratura cultural entre os regimes de religiões. Ora, para mim, tudo isso era apenas simulacro, uma montagem teatral para esconder as apostas políticas do conflito.
Tomemos um outro exemplo, aquele dos Budas de Bamiyan: eles estavam ali há muitos séculos, em um país islâmico que, até aí, neles não viam inconvenientes. Para eles eram ídolos, o Deus dos outros, e isso não lhes concernia uma vez que não retirava atenção das sua própria divindade. Somente a partir do momento em que o outro se tornou inimigo eles notaram que aqueles Budas de Bamiyan faziam parte do patrimônio mundial da cultura, defendido pela Unesco, representante da cultura ocidental com a qual eles estão em guerra. Decidiram atacar o Ocidente, tocá-lo onde declara seus mais altos valores. A saber, não quiseram matar o budismo, mas atacar a ideia que o Ocidente faz da obra de arte e do patrimônio cultural. É também por isso que filmaram a cena da destruição. Eu recebi uma imagem em que o filme da destruição é objeto de um auto-de-fé: filma-se o auto-de-fé do filme para fazer um filme de auto-de-fé das imagens.
Estamos aí em uma espécie de circularidade das visibilidades – e o 11 de setembro de 2001 foi a fórmula exemplar do mesmo princípio – que é: uma vez que vocês são uma sociedade espetacular, nós também iremos fazer espetáculo e fazer de vocês os espectadores privilegiados da sua destruição… Eles sabem que Hollywood é inseparável dos modos narrativos escolhidos pelo Pentágono para construir suas narrações guerreiras e sua legitimidade. São os cenaristas de Hollywood que fornecem ao Pentágono os cenários para contar aos jovens soldados e convencê-los da grandeza heroica e legítima de seu sacrifício no Iraque. As pessoas gostam que para elas sejam contadas suas histórias. George Bush disse em um discurso: “People like stories”. Então a eles contamos histórias. E como os militares não sabem contar histórias, pedimos para que Hollywood escreva histórias que iremos contar aos militares. No mundo islâmico, em guerra econômica e financeira com os Estados Unidos, acontece de modo similar. Estamos em uma gestão espetacular: a organização econômica e industrial do espetáculo torna-se o sujeito de narrações que são lendas – no sentido em que fazemos lendas em torno de imagens, para torná-las compreensíveis – que precisam ser contadas para legitimar operações estritamente imperialistas, de um lado e do outro. O ícone de Bin Laden é inesgotável dos dois lados.
Assim como a imagem foi verdadeiramente uma grande aposta no momento da guerra iconoclasta, também a gestão industrial do espetáculo coloca-se como pano de fundo aos verdadeiros contextos do conflito. Mas também não é o contrário da iconoclastia, porque na questão da iconoclastia, a denúncia dos ídolos faz parte da problemática escondida do poder. Hoje assistimos a uma gestão industrial dos ídolos. Cada um quebra os ídolos do outro pois o próprio dos ídolos, de modo contrário às imagens, é que podemos quebrá-los. Os Padres já haviam compreendido muito bem que não podemos quebrar a imagem, pois a imagem não é um objeto. Quando vocês destroem um ícone, vocês não destroem a imagem. Vocês atacam a sacralidade, mas isso não pode atacar a imagem: vocês destroem o objeto. A imagem é indestrutível.
P: Em 2002 a senhora participou de um projeto de exposição Iconoclash, concebido e realizado pelo filósofo Bruno Latour e pelo artista Peter Weibel. A aposta teórica da exposição era chamar a atenção para a problemática da produção e destruição das imagens existentes nos três domínios culturais diferentes: a ciência, a arte e a religião. A senhora era membra do comitê científico desse projeto; como a senhora o julgaria em face do pensamento teórico da imagem nos nossos dias?
Essa exposição, para mim, foi um pouco um problema, pois a problemática que Bruno Latour queria apresentar provinha diretamente de meu trabalho sobre a economia icônica e a iconoclastia. Sem dúvidas foi por isso que ele me associou ao projeto: porque a maneira com a qual abordei a questão da iconoclastia havia sugerido que ele poderia abordar o conjunto da problemática da imagem em campos diferentes sob o signo da positividade da própria destruição e da reversibilidade das interpretações da violência no campo da criação. Isso permitiu a ele – com a cumplicidade amigável de muitos teóricos e artistas – fazer uma exposição de todo atual, isto é, na qual era possível ver formas críticas, formas de ironia, formas de destruição, no sentido crítico e sarcástico, dadaísta, surrealista ou científico. Mas em vez de ser um espaço onde colocar em crise a crença em todos os níveis, por fim, isso produziu uma exposição de arte contemporânea: a enésima exposição de arte contemporânea na qual experts em arte contemporânea arranjaram-se, bem ou mal, para impor um certo número de artistas como emblemáticos dessa positividade da destruição e dessa turbulência. Penso que, apesar da abundância das obras e dos textos, isso dissimulou mal uma fraqueza teórica e uma organização consensual sobre a questão da destruição: a exposição Iconoclash atraiu o mundo, queria fazer sorrir e ser ao mesmo tempo muito epicurista e agradável, pois o projeto dizia respeito a um grupo de pessoas talentosas e cúmplices, as quais tinham estabelecida uma colaboração de longa data. Nada de conflitual, não podendo dar à manifestação sua dimensão verdadeiramente política. Por certo é muito excitante para Bruno Latour, que é de uma grande inteligência filosófico-especulativa, dizer que se tornou o curador que preside eventos de cultura e de arte que cobrem, cada vez mais, todos os campos: a religião, a ciência, a arte. É um poder. Mas ele estava proibido de falar do Islam em Iconoclash. O assunto é demasiado delicado! Enquanto poderíamos, ao contrário, ter feito uma seção extremamente interessante – sem indignidade, por outro lado – para dizer que era agora ou nunca o momento de produzir um espaço de reflexão positiva sobre a interdição e a destruição. Mas os responsáveis tinham medo de que os terroristas chegassem a Karlsruhe! Isso não desqualifica o que foi mostrado, mas devo dizer que a ambição da empresa revela um desejo de cobrir uma totalidade. Hoje as exposições são eventos no mercado da comunicação cultural. As ideias circulam, os objetos deixam-se reconhecer, mas não é certo que o pensamento tenha tido tempo de se renovar verdadeiramente. Em muitos casos, a publicação programática de um conceito não contribui ao avanço do pensamento. Entretanto, estamos contentes por ter visto objetos admiráveis que jamais teríamos podido ver de outro modo, pois se encontram do outro lado do mundo ou são desconhecidos da maior parte das pessoas… E mesmo se o objeto parece incongruente nesse lugar, e se o curador da exposição decidiu fazer dela algo completamente diferente, podemos nos contentar por tê-la visto.
O historiador pode fazer várias ligações, pode se tornar expert das articulações entre as imagens: por exemplo, entre os magníficos quadros do século XV que estavam em Iconoclash. Não tenho nada contra, mas, torná-los solidários a um sistema é esquecer que eles excedem tal sistema. E quando eles são co-extensivos ao sistema, eles não são mais operantes. É por isso que as exposições temáticas são tomadas por um paradoxo interno: serem obrigadas a justificar a co-extensividade do conceito aos objetos que são apresentados e, se os objetos forem muito bem escolhidos, eles excedem em muito o projeto. Assim, eles fazem aparecer o caráter inoperante.
O que acho mais interessante, como modo de reunião dos objetos, é a exposição das coleções de alto nível. Somos convidados a seguir um olhar colecionador que pôde, durante uma vida, comprar coisas: tentamos entrar na história de um olhar, apreender o fio de uma sensibilidade com suas aberturas, seus riscos, seus transbordamentos. Vi a exposição da doação Daniel Cordier, em Toulouse, onde está tudo o que ele acumulou durante sua vida: pode ter aí um tronco de árvore, um objeto das Novas Hébridas, um talismã, um objeto da vida quotidiana, um quadro de Matta, desenhos de Henri Michaux. História de um olhar que se exerce em toda uma vida. Há obras de arte no meio de tudo aquilo que uma vida pôde recolher de bonito, de surpreendente, de improvável ou de inquietante.
P: Finalmente, eu me permitiria colocar-lhe uma última questão concernente à fotografia. No seu livro Image, icône, économie a senhora fala da fotografia a fim de colocá-la em paralelo com a imagem aquiropita (a imagem que não é feita pela mão do homem). A senhora assinala que, uma vez que todo gesto fotográfico coloca a questão da impressão, a invenção da fotografia foi acolhida como confirmação da possibilidade de produzir a imagem aquiropita pelo artefato e de fabricar as impressões fetiches, tais como o Santo Sudário e o Véu de Verônica. A senhora poderia indicar qual a natureza da relação entre essas imagens supostamente “verdadeiras” e a demanda de veracidade da fotografia documental?
A questão da impressão é muito ligada ao fato de que o texto ao qual você faz alusão é consagrado à construção do Santo Sudário de Turim. Portanto, a uma fotografia de tipo impressa e na qual se joga com a impressão fotográfica e a impressão de um corpo real. Dizendo que a fotografia, que já é uma impressão, tinha fotografado uma impressão que, ela mesma, era o negativo de uma fotografia. É, verdadeiramente, a fotografia sobreposta, em uma perspectiva indicial da fotografia. Hoje, a maior parte da produção fotográfica é digital, portanto, não mais indicial. Ela é por pixels, segundo um sistema binário, e permite todas as manipulações.
No que diz respeito à veracidade da fotografia, ainda na época em que era indicial, era já uma arte do falso, no sentido do simulacro habitado pela crença do espectador. As imagens não têm realidade ontológica. Eu disse há pouco, mesmo antes de falarmos sobre fotografia: o estatuto do eikon é uma aparência. Assim, o fato de que a fotografia possa ser uma punção em um estado do mundo não dá a prova desse estado do mundo por causa da fotografia.
Para compreender melhor, remeto a um filme de Jean Eustache que se chama Les photos d’Alix. Esse filme, absolutamente genial, consiste em mostrar uma jovem fotógrafa que mostra a um jovem, filho de Jean Eustache, fotos que ela tirou. Ela diz o que há, a data, a hora, o lugar, a estação, os nomes, quem são as pessoas que vemos na foto. Há, portanto, uma relação com o real: compreendemos que ela tirou essas fotografias em Londres, há três meses, de noite etc.. Mas quando vemos a foto, não vemos nada correspondente àquilo que ela diz. No início, há uma correspondência um pouco vaga, mas a credibilidade cresce. Em seguida, progressivamente, no correr dos 18 minutos e 18 fotos, estamos no fim do filme e vemos um quarto, uma escrivaninha diante de uma janela, o que há sobre a escrivaninha, uma lâmpada, um espelho. Ela diz: “ah, esta foto eu tirei há três meses em Fez, é um pôr-do-sol em Fez”. “Podemos reconhecer Fez”, dirá ela, e vemos a escrivaninha e a janela etc..
Esse filme mostra bem que a foto remete a estados do mundo. Em um momento, ela diz “eis uma foto”: vemos que tal foto é tirada dentro de um carro, o condutor é então tomado pelas costas, há o retrovisor e, no retrovisor, vemos longe ao fundo. “Esta é uma lembrança da infância, é a foto de meu pai, enfim, de meu padrasto, tal como eu sempre o vi; viajávamos juntos, era os Estados Unidos, entre São Francisco e não sei mais onde, enfim, era os Estados Unidos; eu estava atrás, via suas duas grandes mãos no volante e só via, de seu rosto, aquilo que se mostrava no retrovisor. É uma lembrança da infância.” E ela diz: “É uma lembrança da infância mas não como as crianças delas se lembram, e é por isso que esta foto é uma lembrança. Enfim, é a foto que fiz recentemente, de uma lembrança que tive.” Pouco a pouco percebemos que estamos vendo uma foto de infância, mas não como são as fotos de infância: ela fotografou há um mês uma lembrança da infância. Não vemos nem seu pai nem os Estados Unidos: a foto está na provocação da palavra à cegueira que exige a composição do olhar. O objeto que vemos flutua entre eles como um espectro de um mundo que não existe mais, de sua infância, de um pai que não está mais aí, de um país: não vemos por que, sobre essa foto, ela tem necessidade de dizer que foi há anos, nos Estados Unidos, uma vez que fora há um mês, na memória dessa viagem que fez com seu pai. Esse filme é uma obra-prima sobre a desrealização do olhar em face da imagem.
Aliás, o que ela diz, tecnicamente, sobre os objetos é verdade. Por exemplo, em certo momento, vemos uma foto como duas botas, como as de Van Gogh. Antes que as vejamos, vemos a fotógrafa dizer “bem, é uma foto que tirei em Londres, em um pub, gosto muito dos pubs”, e, de pronto, vemos a foto que mostra, ao lado das botas, um vazio. Ela diz: “eu estava em pé, com esses dois homens; com este – ela mostra um sapato –, com este eu perdi contato, o outro é ainda um amigo, gosto muito da atmosfera dos pubs”. Ela conta uma história. E então, repentinamente, diz: “o que me importava nessa foto era, efetivamente, trabalhar com a falta de foco na parte de baixo – que está desfocada – e com essa luz branca – de fato, tudo está branco – que descia desde o canto – e também aí, realmente, há uma luz branca –, é uma lembrança da Inglaterra”. Sem parar, estamos entre o que vemos e o que ela diz mas não vemos: a referência ao quadro de Van Gogh e o que ela mostra ao jovem, o que ela faz entender ao mostrar-lhe. Essa mudança do que damos a ver, do que damos a entender, do que fazemos crer, é o regime da fotografia, compreendido neste o da fotografia documental.
O que dizemos, o que escrevemos, o que contamos, de modo intrínseco faz parte daquilo que fazemos ver. Se mostramos a foto sem dizer nada, sem palavra, como um material bruto, nós a damos à visão de um outro sem construir uma relação entre o ver e o fazer ver por meio da palavra e da partilha da crença. A foto não prova o real, mas ela sempre coloca em jogo, como toda imagem, a relação de confiança e de crença que um olhar tem em relação a um outro olhar.
No meu trabalho sobre o fotojornalismo, dou uma grande importância ao que é dito do país e do momento em que uma foto foi tirada, àquilo que me dão a ver, à razão pela qual tal foto fora tirada, e ao que ela pode significar para quem a tirou. Em muitos casos, penso ser a foto inútil, desinteressante ou excessiva, pois não se dirige mais a mim como alguém que partilharia a possibilidade de construir, ao mesmo tempo, o que ela quer dizer. Ainda que tenha necessidade de um efeito real, a imagem o excede, e é sobre tal excesso que se constrói a liberdade do outro, a quem nos endereçamos. Mas se essa liberdade é deixada, é preciso ver sobre qual base de partilha: há aí um caminho dos regimes de crença diferentes que podem ir da credulidade à confiança, e da confiança a uma necessidade de liberdade.
Acabo de escrever um texto em que homenageio Sophie Ristelhueber, pois penso que em seu trabalho sobre o Iraque e a Palestina – no qual não vemos nem a guerra, nem o guerreiros, nem as vítimas – ela não mostra cenas, nem teatraliza o conflito. Pelo contrário, é o que ela não mostra que faz ver e, portanto, compreender. Ela se considera totalmente oposta às fotos do fotojornalismo: não é uma reportagem, é um objeto político e, ao mesmo tempo, suficientemente artístico, pois ela compõe, trabalha, ela faz as coisas não importa como.
Acho que isso nos esclarece também sobre o que temos direito de exigir dos fotojornalistas que trabalham demasiadamente, como na revista Choc, por exemplo, em que vemos até onde pode ir a obscenidade na apreensão do real. A obscenidade do real pode ser algo lamentavelmente trivial: é a pretensão de tudo mostrar, em vez de retirar. Assim, como diz Comolli para o cinema documentário: “quando vou fazer um documentário, começo por me perguntar sobre o que não vou mostrar. Começo decidindo o que não mostrarei.” Começamos pela retirada, depois vemos o que deixamos a ver: construímos o fora de campo. E para a fotografia é o mesmo: é preciso sempre construir seu fora de campo.
Entrevista publicada originalmente em: http://sens-public.org/spip.php?article500&lang=fr