24 março 2017

O que Adam Smith, o maior economista liberal de todos os tempos e pai da Economia, teria a dizer sobre a reforma trabalhista em curso? Vamos buscar a resposta no livro de economia mais importante da história, "A Riqueza das Nações"? Sim ou claro!?
1) Primeira dica de Smith para entendermos as reformas em curso: sobre a disputa entre patrões e trabalhadores.
"Os trabalhadores desejam ganhar o máximo possível, os patrões pagar o mínimo possível. Os primeiros procuram associar-se entre si para levantar os salários do trabalho, os patrões fazem o mesmo para baixá-los."
2) E quem costuma vencer essa disputa? Smith responde:
"Não é difícil prever qual das duas partes, normalmente, leva vantagem na disputa e no poder de forçar a outra a concordar com as suas próprias cláusulas. Os patrões, por serem menos numerosos, podem associar-se com maior facilidade; além disso, a lei autoriza ou pelo menos não os proíbe, ao passo que para os trabalhadores ela proíbe. Não há leis do Parlamento que proíbam os patrões de combinar uma redução dos salários; muitas são, porém, as leis do Parlamento que proíbem associações para aumentar os salários"
3) Além disso, quem aguenta mais tempo nessa disputa ?
"Em todas essas disputas, o empresário tem capacidade para aguentar por muito mais tempo. Um proprietário rural, um agricultor ou um comerciante, mesmo sem empregar um trabalhador sequer, conseguiriam geralmente viver um ano ou dois com o patrimônio que já puderam acumular. Ao contrário, muitos trabalhadores não conseguiriam subsistir uma semana, poucos conseguiriam subsistir um mês e dificilmente algum conseguiria subsistir um ano, sem emprego. A longo prazo, o trabalhador pode ser tão necessário ao seu patrão, quanto este o é para o trabalhador; porém esta necessidade não é tão imediata."
4) Como são aprovadas reformas trabalhistas como a terceirização irrestrita ?
"Tem-se afirmado que é raro ouvir falar das associações entre patrões, ao passo que com freqüência se ouve falar das associações entre operários. Entretanto, se alguém imaginar que os patrões raramente se associam para combinar medidas comuns, dá provas de que desconhece completamente o assunto. Os patrões estão sempre e em toda parte em conluio tácito, mas constante e uniforme para não elevar os salários do trabalho acima de sua taxa em vigor. Violar esse conluio é sempre um ato altamente impopular, e uma espécie de reprovação para o patrão no seio da categoria. Raramente ouvimos falar de conluios que tais porque costumeiros, podendo dizer-se constituírem o natural estado de coisas de que ninguém ouve falar freqüentemente, os patrões também fazem conchavos destinados a baixar os salários do trabalho, mesmo aquém de sua taxa em vigor."
5) E como se dá o conluio entre patrões ?
"Essas combinações sempre são conduzidas sob o máximo silêncio e sigilo, que perdura até ao momento da execução; e quando os trabalhadores cedem, como fazem às vezes, sem resistir, embora profundamente ressentidos, isso jamais é sabido de público."
6) Como os trabalhadores reagem aos ataques realizados pelos patrões contra os direitos trabalhistas?
"Muitas vezes, porém, os trabalhadores reagem a tais conluios com suas associações defensivas; por vezes, sem serem provocados, os trabalhadores combinam entre si elevar o preço de seu trabalho. Seus pretextos usuais são, às vezes, os altos preços dos mantimentos; por vezes, reclamam contra os altos lucros que os patrões auferem do trabalho deles. Entretanto, quer se trate de conchavos ofensivos, quer defensivos, todos são sempre alvo de comentário geral. No intuito de resolver com rapidez o impasse, os trabalhadores sempre têm o recurso
ao mais ruidoso clamor, e às vezes à violência mais chocante e atroz.

Desesperam-se agindo com loucura e extravagância que caracterizam pessoas desesperadas que devem morrer de fome ou lutar contra seus patrões para que se chegue a um acordo imediato para com suas exigências. Em tais ocasiões, os patrões fazem o mesmo alarido de seu lado, e nunca cessam de clamar alto pela intervenção da autoridade e pelo cumprimento das leis estabelecidas com tanto rigor contra as associações dos serviçais, trabalhadores e diaristas. Por isso, os trabalhadores raramente auferem alguma vantagem da violência dessas associações tumultuosas, que, em parte devido à interferência da autoridade, em parte à firmeza dos patrões, e em parte por causa da necessidade à qual a maioria dos trabalhadores está sujeita por força da subsistência atual — geralmente não resultando senão na punição ou ruína dos líderes"
7) O "empreendedorismo seria uma boa saída para o trabalhador se livrar do dilema anteriormente apresentado? Smith responde que não:
"Um trabalhador, dificilmente, consegue acumular capital suficiente para se tornar patrão.
Às vezes, ocorre realmente que um trabalhador independente tenha capital suficiente tanto para comprar os materiais para seu trabalho, como para manter-se até completá-lo. Nesse caso, ele é ao mesmo tempo patrão e operário, desfrutando sozinho do produto integral de seu trabalho, ou seja, do valor integral que seu trabalho acrescenta aos materiais por ele processados. Esse valor inclui o que geralmente são duas rendas diferentes, pertencentes a duas pessoas distintas: o lucro do capital e os salários do trabalho.
Contudo, esses casos não são muito freqüentes, e em todas as partes da Europa, para cada trabalhador autônomo existem vinte que servem a um patrão; subentende-se que os salários do trabalho são em todos os lugares como geralmente são, quando o trabalhador é uma pessoa, e o proprietário do capital que emprega o trabalhador é outra pessoa."
8) Então como o trabalhador faz para sair dessa sinuca de bico?
Essa pergunta Smith não responde com clareza. Mas Marx, quase um século depois, dá a dica:
“Trabalhadores do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser vossos grilhões”

(TRECHOS RETIRADOS DA OBRA PRIMA DE ADAM SMITH: "A Riqueza das Nações")

retirado do facebook

14 março 2017

"Passos rumo ao caos social:
1. Moro, mau como um pica-pau, começa a abordar pessoas e pedir educadamente por uma selfie. Meses depois, com andanças pelo país, são vazados na internet os Moro Files: gigabytes só de selfies de Moro com pessoas até então reputadas cidadãs de bem, avessas ao fascismo e à homolesbotransfobia.
2. As negações aparecem de todas as partes. Dentre as fotografadas, havia uma sorridente eleitora de Freixo que tirava uma selfie no Leblon. "Fui coagida!", disse. Logo a internet fica cheia de memes com o mote e a foto.
3. Em busca de algum, experts em photoshop identificam perfis de classe média. Gente de bem, avessa ao fascismo e à homolesbotransfobia, súbito começa a receber inbox montagens ao lado de Moro, com a ameaça: deposite X, ou eu posto.
4. Eleições de D.A. Brasil afora são decididas após estudantes terem suas contas de Facebook hackeadas e fotos ao lado de Moro postadas.
5. O golpe já é conhecido, mas muitos que constam nos Moro Files se aproveitam disso para negar seu passado espúrio. Clima de insegurança se instaura.
6. No Recife, um aluno de Sociais soca o colega olavete e garante para si a reputação de cidadão de bem inconteste. É imitado Brasil afora por gente consciente.
7. Atrás das grades, a classe média consciente denuncia o avanço do fascismo e do conservadorismo. Declaram-se presos políticos e escrevem à ONU, que ignora. Só o DCM, o Brasil 247 e a Mídia Ninja noticiam esse drama humanitário.
8. Em Curitiba, uma estátua de cera de Moro é feita. Vira ponto turístico e turistas tiram fotos ao lado dela."


Bruna Frascolla

09 março 2017

"O feminismo é multiespecífico!
Hoje eu queria lembrar que, como nos ensina Preciado, o feminismo não é um humanismo, mas um animalismo; ou, por outra, que "o animalismo é um feminismo dilatado e não antropocêntrico e que "não foram o motor a vapor, a imprensa ou a guilhotina as primeiras máquinas da Revolução Industrial, mas sim o escravo trabalhador da lavoura, a trabalhadora do sexo e reprodutora, e os animais. As primeiras máquinas da Revolução Industrial foram máquinas vivas."
Gostaria também de lembrar das autoras ecofeministas, em especial Val Plumwood, que nos explica como o discurso do mestre no ocidente é tradicionalmente aquele do "não marcado diante do outro marcado" e que "o dualismo abrangente da cultura ocidental opõe a esfera da razão (mente, espírito) à da natureza como uma esfera de múltiplas exclusões contendo mulheres, escravos, povos indígenas, não-brancos e animais (e, claro, muito mais, incluindo a vida biológica não-humana, a necessidade e o corpo."
O trabalho das fêmeas (e daqueles que ocupam posições marcadas) é invisibilizado, seus corpos violentados todos os dias. Entre a criminalização do direito ao aborto, o destino das vacas leiteiras, das galinhas poedeiras e das éguas mantidas grávidas para extração de hormônio (que beneficia fêmeas humanas, mas primeiramente dá muito lucro às farmacêuticas), só para ficar em algumas poucas práticas de tortura da vida feminina, há um laço. Entre o apagamento do trabalho doméstico feminino e o trabalho não reconhecido de animais em fazendas, laboratórios e outros, há conexões. Deve haver solidariedade entre nós.
Termino retornando a Paul B. Preciado, feminista que nasceu mulher e tornou-se homem (mas nunca aderiu ao lugar não marcado!):
"A mudança necessária é tão profunda que se costuma dizer que ela é impossível. Tão profunda que se costuma dizer que ela é inimaginável. Mas o impossível está por vir. E o inimaginável nos é devido. O que era o mais impossível e inimaginável, a escravidão ou o fim da escravidão? O tempo de animalismo é o do impossível e o do inimaginável. Este é o nosso tempo: o único que nos resta."

Juliana Fausto
"Uma das grandes dificuldades que a mulher enfrenta ao denunciar atos machistas perante organismos legais - delegacias, tribunais, etc - reside não só no fato de que esses organismos e instituições sejam perpassados pela lógica machista e pelos mais diversos preconceitos socio-culturais que deveriam combater, ou que a maioria dos cargos seja ocupada por homens, é que também a própria linguagem que define o sujeito autônomo moderno com o qual o direito opera está estruturado numa lógica patriarcal e em seus modos de tradução verbal específicos. Daí advém uma assimetria de linguagem fundamental para se pensar numa perspectiva feminista os fundamentos místicos da autoridade, pensados em outra circunstância por Derrida. inclusive as dinâmicas das redes sociais enquanto mobilizadoras de um tipo de denúncia coletiva que viria tentar corrigir a impotência da palavra das mulheres quando proferida de forma isolada perante a Lei. As construções sociais da linguagem cujos princípios legitimadores são esguios esquivos e muito difíceis de localizar incidem nos modos de recepção das falas que tratam de dar conta de violências sofridas. O filme A paixão de Joana D'Arc de Carl Theodor Dreyer é de certo modo uma longa e dramática reflexão sobre essa assimetria brutal de linguagens e a farsa jurídica que ela produz. Ainda que hoje o caráter "natural" das agressões vividas pela mulher na sociedade tenha sido questionada e desconstruída, a assinação de lugares e comportamentos naturais à atuação feminina são ainda extremamente enraizados no imaginário social. Quando o demente e anacrônico Michel Temer fala sobre a mulher numa perspectiva conservadora, circunscrevendo-a ao espaço doméstico, não está apenas confirmando a virulência misógina e a hierarquia patriarcal que faz questão de cultuar mas exibe aí também uma concepção político-jurídica que contribui para a manutenção dessas assimetrias tanto no nível da linguagem quanto no das práticas jurídicas. Impressiona ainda na indigência intelectual do seu pronunciamento que ele não seja sequer capaz de fazer uma distinção entre a mulher abstrata e generalizada e idealizada segundo critérios os mais retrógrados e a mulher como "outro" concreto, a mulher brasileira, a negra, pobre e solteira que trabalha fora, cria filhos, banca uma família inteira e se defende diariamente da violência psíquica e física a qual é exposta. O grande perigo de falas idiotas como as de Michel Temer é que têm um poder ressonância enorme, e não importa que a mulher ali delineada exista apenas na cabeça demente de um político porque na hierarquia das linguagens institucionais prevalece essa mesma ideia e projeto de mulher que torna inaudível a denúncia e a crítica de uma perspectiva feminista, porque a mulher real, para o sistema, ainda não existe. E ainda mais triste e preocupante, infelizmente ela ainda não existe também, na percepção e articulação de discurso de muitos intelectuais "sensíveis", pois para muitos destes, lá no fundo, quando uma mulher é também uma intelectual, é porque de certo modo ela conseguiu se tornar um homem."

Laura Erber 

22 fevereiro 2017

A Guerra dos Turbante

Mário Maestri

Já tivemos a “Guerra das Laranjas”, no período colonial, com diversos mortos e, século mais tarde, já em plena República, a “Guerra das Lagostas”, essa felizmente apenas folclórica. Vivemos agora, quando o mundo do trabalho conhece no Brasil ataque de intensidade inaudita, um novo e estranho confronto, a “batalha dos turbantes”, de conteúdo sobretudo ideológico e sentido não desprezível, já que expressa e alimenta a fragilidade do movimento social no Brasil. 

Em geral, os termos da declaração de guerra foram os seguintes. Eu sou negra, uso turbante. Tu é branca e necessariamente racista, mesmo quando não sabes. Portanto, tira a mão de meu turbante. Se não o fizeres, serás liquidada com a acusação de “apropriação cultural”, ou seja, adesão simbólica à exploração racial e econômica que teus ancestrais realizaram aos meus, no passado, e que sigo sendo objeto, por parte dos brancos, no presente. 
O que talvez mais impacta na presente “guerra dos turbantes” não é a verbalização de tal disparate, mas a repercussão que ele alcança nos meios da esquerda e progressistas aos quais é dirigido, meios vinculados e comprometidos com a luta anti-racista. Nesses segmento, alcança, não raro, ampla adesão, em geral acompanhada de não sempre verbalizada desconfiança para com o sentido real de tal proposta, que anatematiza com a acusação de racista a todos os que não o aceitam.
História e Memória 
Dizem que o Diabo sabe por que é velho, não por que é Diabo. Assisti no Rio de Janeiro, em inícios dos anos 1980, a chegada do talvez primeiro missionário negro estadunidense da Fundação Ford - rosto gentil do Departamento de Estado USA - oferecendo bolsas para estudar o escravismo e a África Negra naquele país. A proposta chamou-me a atenção pois, apenas chegado de sete anos de exílio, era então um dos poucos africanistas em um mercado universitário que desprezava aquela formação. O que me ensejou indiscutível espanto e compreensível apreensão foi o fato de que o formulário de candidatura exigia foto, já que o financiamento era, ainda que não explicitamente, exclusivo para candidatos negros. Se isso hoje pode parecer normal, naquele então causava ampla e geral surpresa e, até mesmo, indignação. 
Naqueles anos finais da ditadura militar, dominava o movimento negro que se organizava as tendência de esquerda revolucionária, com destaque para a Convergência Socialista, onde militara, havia até poucos meses. Na CS, conheci grandes companheiros e militantes negros, como o João, no Rio Grande do Sul, o Flavinho, o Hamilton e muitos outros, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Todos eles vinculavam estreitamente as lutas anti-racista e social, vistas como indissoluvelmente imbricadas. Impunha-se matar o dragão da maldade racista, que oprimia sobretudo os trabalhadores e populares negros, na luta contra suas modernas raízes de classe capitalistas. 
Eram anos em que, junto com os Panteras Negras estadunidenses, as direções negras gritavam: - Nada de cotas! - Nada de migalhas, para alguns poucos privilegiados. Escola de qualidade, pública e universal para todos os jovem negro. Mesmo que no início se obtivesse pouco, e não tudo, deveria ser para todos, sem privilégios e exceções. Naquele então, pouca atenção se dava às propostas inaceitáveis que chegavam diretamente dos Estado Unidos de consolidar a sociedade capitalista e a exploração, pondo na vitrine algumas caras negras. 
Por esses paradoxos da história, defendi desavisado, em reunião da regional rio-grandense da Convergência Socialista, a política das cotas, na primeira vez que a discutimos, em 1979, creio. Quase apanhei. O João, operário metalúrgico negro, muito respeitado, liquidou minha frágil defesa, explicando, com exemplos de seu cotidiano, a exigência de que a população negra mais explorada fosse contemplada e jamais esquecida, desde o primeiro momento. Apontou aquela proposta como própria dos segmentos médios negros colaboracionistas.

Luta Racial, Luta Social
A fusão da luta racial e social era antiga e tradicional política da esquerda comunista. Ainda que muito transitoriamente, nos anos 1930, comunistas brasileiros discutiram e enunciaram a proposta de um Estado negro independente na Bahia, certamente em tentativa de transplantação apressada para os Trópicos das repúblicas autônomas soviéticas. Em 1929, o primeiro operário candidato à presidência do Brasil foi um comunista negro, o marmorista Minervino de Oliveira, como lembra sempre o historiador Muniz Ferreira. José da Silva, comunista, foi o único “negro retinto” eleito à constituinte de 1945 e, como tal, destratado pela imprensa burguesa. Carlos Maringhella, dirigente tradicional do PCB, era filho de operário italiano e neto por parte de mãe de trabalhadores escravizados. Em geral, esse passado é desconhecido pelos militantes de esquerda, que assimilam, por ignorância, a acusação de “insensibilidade marxista” à questão racial. 
Em verdade, a própria consciência teórica da importância singular e, em alguns casos, da dominância do escravismo em nosso passado foi em grande parte obra de intelectuais e de militantes comunistas, marxistas e esquerdistas, de todos os sabores. Entre os mais destacados podemos citar Astrogildo Pereira; Duviano Ramos; Benjamin Perret; Clóvis Moura; Jorge Amado; Édison Carneiro; Décio Freitas, Emília Viotti da Costa. Alguns deles propuseram desde sempre as formas de resistência dos cativos contra a escravidão como formas fundamentais da luta de classes no Brasil. Ou seja, o âmago de nossa história seria, para eles, a saga da oposição inquebrantável do escravizado ao escravizador.
Em inícios de 1980, anos gloriosos, o movimento negro em organização e a luta contra o racismo sofriam a forte influência positiva das classes trabalhadoras em ofensiva e dos segmentos político-ideológicos que se reivindicavam do mundo do trabalho. Em 1979, vivemos verdadeiro “Ano Vermelho”, com vastíssimo renascimento das lutas sindicais do Brasil. Nos anos seguintes, fundavam-se o PT aguerrido e anti-capitalista e a CUT classista e combativa. Foi nessa conjuntura de ofensiva do movimento social que nasceu o Movimento Negro Unificado, sob o forte influxo positivo assinalado.
Maré Neo-Liberal
Tudo isso, porém, faz já parte da história. Em inícios dos anos 1980, em derrota epocal, que pesa até hoje sobre o mundo do trabalho e a sociedade mundial como um todo, a vitória da maré contra-revolucionária mundial fez retroceder as organizações, as lutas e a consciências das classes trabalhadoras e subalternizadas. Triunfaram e tripudiaram as visões pró-liberais, conservadoras, colaboracionistas, irracionalistas, anti-operárias, sociais-democratas. Eram os tempos do “fim da história”, em que refluiu nas ciências sociais o estudo resistência dos trabalhadores escravizados, das lutas dos operários, das mulheres populares, dos camponeses, etc.
No novo contexto, socialismo, revolução, solidariedade, fim da opressão e exploração, uma sociedade sem racismo e opressão, etc. transformaram-se em verdadeiras aberrações indecentes, naturalizando-se a opressão. O individualismo e o social-darwinismo transformaram-se em axiomas social. O sucesso pessoal passou a ser o norte fixo da bússola de legiões de políticos, ativista, sindicalistas. No PT e na CUT, triunfaram as propostas colaboracionistas que transformaram a militância política em caminho - direto ou torto - para o sucesso individual. 
No PT, pôs-se fim ao partido dos núcleos em prol do partido dos parlamentares, dos administradores, dos capas-petras. Em nome da ascensão social jamais realmente vista de segmentos populares, no seio e sob o império da sociedade de classes, regou-se com a abundância a a horta do grande capital industrial e sobretudo bancário. No frigir dos ovos, militantes e sindicalistas metamorfosearam-se em carreristas, intermediário e agenciadores do grande capital. Alguns terminaram fazendo milhões, apenas conferenciando! Apenas hoje temos a dimensão jamais imaginada de um processo de corrupção em geral já conhecido desde os primeiros momentos.
Negros de Sucesso
Acompanhando a debacle das idéias e lutas sociais, triunfaram igualmente no movimento negro organizado, dominado agora por seus segmentos médios, as propostas racialistas, pró-burguesas e antisocialistas, com seu corolário de integração à sociedade de classe e racial. Em forma sumária, propunha-se que o racismo não era expressão e reprodução da sociedade de classe. Não haveria exploradores e explorados. Havia apenas negros, explorados, e brancos, exploradores. Tout court! Esse movimento foi acompanhado de forte deslocamento da proposta de representação identitária. Abandonou-se como figura paradigmática e referencial o trabalhador feitorizado que, com seu trabalho e luta construíram a nação, sem gozar do produto de seu esforço, pelo negro de sucesso, mesmo se, no passado, se transformava em escravizador. No frigir dos ovos, trocava-se Zumbi por Pelé. E, muito logo, procedeu-se literal encobrimento da história da escravidão, como algo vergonhoso, procurando-se concatenação do passado do negro brasileiro diretamente com uma sociedade africana imaginada e idealizado. Nos últimos anos, os estudos sobre a escravidão desapareceram tendencialmente enquanto os sobre a África multiplicaram-se, em geral desconectados da experiencia escravista colonial.
Havia que criar, a todo custo, uma consciência, uma organização e uma representatividade racial destacadas e em oposição ao resto do movimento social. Agora, o que imperava era o “nós” e o “vocês”! Havia que parir, nem que fosse a forceps, consciência racialista anti-branco multitudinária por sobre as determinações de classe. Com ela, construiria-se a autoridade de direção negra que negociasse com o Estado, em nome do racismo e de suas sequelas, não a emancipação da população negra explorada, mas a promoção de indivíduos singulares. Não se tratava, jamais, de por fim à sociedade de classes branca, mas apenas de integrar alguns negros privilegiados a ela. Não se queria virar a mesa dos privilegiados, mas apenas alguns lugares no ajantarado dos bem servidos.
Um ministro, um general, um juiz, um burguês negro eram propostos como uma conquista histórica para o movimento, mesmo que nesse processo se consolidasse a exploração social e racial geral. Lutava-se para que, também no Brasil, tivéssemos os nossos Colin Power, as nosssas Oprah Winfrey e Condoleezza Rice e, sonho dos sonhos, algum dia, um Barak Obama! Tudo igual ao proposto pela cartilha dos segmentos negros integrados e pró-imperialistas sobretudo do Partido Democrata estadunidense.
Tudo pela Auto-Estima
As promoções isoladas e a conta-gota, enquanto a massa negra vegetava submergida na miséria material e espiritual, foram defendidas como imprescindíveis à promoção da “auto-estima” da população brasileira com afro-ascendência. Era como dezenas de milhares de operários negros, apinhados nos transportes coletivos, em direção do trabalho duro e enfadonho, gritassem de orgulho, ao verem um burguês afro-ascendência sentado no banco de trás de um mercedes! O PT satisfez parcialmente essa expectativa com, entre outras iniciativas, a nomeação de alguns ministros, com destaque para a indicação de Joaquim Barbosa ao Superior Tribunal Federal, devido apenas ao fato de ser indiscutivelmente negro. E deu no que deu! 
A reconversão pró-burguesa e anti-operária do movimento negro organizado foi toda ela comandada pelo imperialismo estadunidense. As ditas elites brasileiras não estavam, definitivamente, a altura de uma operação tão refinada. Em fins dos anos 1970, Abdias do Nascimento chegava ao Brasil de um pretendido auto-exílio, de dez anos, nos … USA! Em verdade, ele viajara aquele país a convite de universidade, ali permanecendo nos anos seguintes devido às oportunidades oferecidas. Jamais participara de organização de esquerda ou de oposição à ditadura militar. 
No passado distante, entre outras atividades políticas secundárias, Abdias aderira ao fascismo tupiniquim, tendo sido, inclusive, amigo de Plínio Salgado, fundador da Ação Integralista Brasileira. Apenas desceu do avião, ele começou a disparar contra a esquerda marxista, acusando-a de racista. Para a alegria dos ditadores de plantão. No seu retorno, foi acolhido e apadrinhado por Leonel Brizola, que, diga-se de passagem, mais branco não podia ser. O caudilho rio-grandense tudo fez para promovê-lo como parlamentar. Principal líder das propostas racialistas e socialmente assimilacionistas, Abdias morreu aos 94, militando no PDT.
Os Anos Dourados
O movimento negro organizado, sob o controle e influência dos segmentos médios, conheceu verdadeiros anos dourados, nos quais consolidou suas políticas racialsitas e social inegracionistas, quando o PT, já na presidência da República, abraçou plenamente as propostas de promoção étnica seletiva e restritiva como parte de sua demagogia social-liberal. De certo modo, o lulismo colhia o que o Brizola plantara! Sob o reino petista, as “cotas” e as “políticas compensatórias" transformaram-se na bandeira triunfante da promoção exemplar e seletiva , enquanto a imensa maioria dos jovens brasileiros, com destaque para os negros, era mantida na ignorância, na exploração, na pobreza, na alienação. Nos anos de reino petista, prosseguiu o massacre dos populares jovens, com destaque para os negros. 
O resultado dessas políticas foram pífios, a não ser para os contemplados. Em nosso país de 200 milhões de habitantes, apenas número escasso de médicos negros cotistas, quanto muito, foram formados, anualmente, como demonstração maior do conquistado. - Não é melhor isto do que nada? - respondiam as lideranças negras e petistas à pergunta sobre os milhões de jovens brasileiros de todas as cores marginalizados. Talvez a resposta tenha chegado nas asas dos aviões que derramaram sobre o Brasil borbotões de médicos negros cubanos, formados em um país de extrema pobreza de recursos, se comparado ao Brasil. Um pequeno país pobre que garante o ensino, não para alguns, mas para todos os jovens que desejem.
Resultados Pífios
Nesses quase quarenta anos envolvido em tais questões, três momentos paradigmáticos da hegemonia da política de racialização neo-liberal me golpearam fortemente. O primeiro foi o literal ostracismo político em que morreu Clóvis Moura, por parte do segmento dominante do movimento negro organizado, reconvertido ao neo-racialismo pró-burguês e pró-capitalista. Ele, que por primeiro iluminou, já nos anos 1950, a dominância da escravidão na antiga formação social brasileira, e realizou talvez a obra mais completa sobre a questão negra no Brasil, amargou com a dignidade que era sua o literal arquivamento a que sofreu. 
Uma vez perguntei-lhe: - Clóvis, meu velho, por que nunca te propuseram para a Fundação Palmares? - o que sabia ter sido sempre um seu desejo, ainda que jamais verbalizado. - Maestri, não confiariam em um velho militante comunista como eu - foi a resposta que recebi. E jamais confiaram, efetivamente. Destaque-se, a bem da verdade, que, até além de sua prematura morte, Clóvis Moura recebeu o agradecido reconhecimento solidário do MST, em geral, e de Pedro Stédile, em particular.
O segundo momento foi certamente a visita ao Brasil de Hillary Clinton, secretária de Estado dos USA, em dezembro de 2013. Ela proferiu badalada palestra-debate, na Faculdade Zumbi dos Palmares, universidade privada para negros, fortemente inspirada e apoiada pelos estadunidenses. Com a mediação de William Waack e Maria Beltrão, da indefectível Globo, Hillary pontificou sobre as maravilhas das políticas de “compensação” estadunidenses e de suas cópias caboclas. 
Os elogios e salamaleques à dama de mãos ensanguentadas foram incessantes e sequer um entre as dezenas de estudantes e lideranças negras presentes levantou uma palavra, um cartaz, uma faixa, em solidariedade às centenas de milhares de jovens negros enviados para a prisão, como forma de contenção social, sobretudo durante a administração Bill Clinton. Ou para pedir a liberdade de presos políticos negros nos USA, alguns encarcerados há décadas. 
O terceiro e último fato que muito me impactou foi o enorme silêncio, da imensa maioria das lideranças dominantes do movimento negro incrustado no PT ou fora dele, sobre a miserável ocupação militar do Haiti comandada pelo Brasil, às ordens do imperialismo estadunidense. Agressão inaugurada precisamente no segundo centenário da vitória gloriosa da insurreição haitiana, em 1804. Revolução negra que resultou no primero estado americano livre da escravidão! Até hoje, as tropas de ocupação brasileiras lá seguem, sem praticamente oposição nacional consistente a sua ação criminal. 
Um Balanço Geral
A política de racialização procurou sempre a divisão radical do movimento social. Para tal, mobilizou-se por uma divisão inverossímil da sociedade brasileira em dois campos. No primeiro, estariam os “brancos” exploradores. Seriam, todos eles, descendentes de escravistas, criados e amamentados por mães-pretas. Ou trabalhadores imigrantes europeus, chegados após o fim da escravidão, também privilegiados pelo racismo, em verdade, não se sabe como ou por quê. Uma descrição desrespeitosa de milhões de brasileiros não negros que viveram e vivem apenas de seu trabalho explorado.
Do outro lado se encontrariam os “negros”, todos eles explorados, e jamais exploradores, totalmente desterrados em sua própria terra, ou seja, o Brasil, pois incapazes de reconstituírem suas raízes africanas. “[…] seres sem um pertencimento definido, sem raízes facilmente traçáveis, que não são mais de lá [da África] e nunca conseguiram se firmar completamente por aqui [no Brasil].” Como se a existência social dependesse das raízes étnicas distantes e não da vida no aqui e agora da existência social.
Procura-se incessantemente divisão da sociedade brasileira em facções étnicas incomunicáveis, cada uma encastelada em suas tradições, como já assinalado. Uma proposta amalucada que fatia o Brasil artificialmente em descendentes de italianos, de alemães, de judeus, de portugueses, de africanos, de asiáticos e assim vai. Cada etnia com seus representantes raciais, negociando com o Estado e entre as diversas etnias as reivindicações de seus nacionais. Um projeto que nega de per si a possibilidade de uma nacionalidade comum, mesmo assentada no mundo do trabalho e não da exploração.
Teríamos, portanto, simplificando, uma cultura negro-africano e uma cultura branco-européia. A pizza seria dos italianos; o turbante, dos afro-descendentes. Se a apropriação da primeira não traria problemas, pois produzida por população “branca” que se pressupõe ter sido e ser racista, a segunda deve ser monopólio intocado, já que expressa simbolicamente a resistência anti-racista, exclusiva e necessariamente negra, contra todos os brancos. Tudo isso no reino das fantasias ideológicas. A pizza, nas suas raízes mais recentes, é bom lembrar, não é produção cultural italiana, mas das classes populares napolitanas, o que é muito, mas muito diferente. Assim como a proposta de uma cultura africana unitária é produto de uma síntese falsa nascida da manipulação ideológica ou da ignorância sobre a história e a realidade da África Negra. 
Unidade Cultura Contraditória
Esse proposto fatiamento social étnico, verdadeira abstração fantasiosa, talvez seja possível de ser imaginada, em forma forçada e manipulada, para algumas regiões dos USA ou da África do Sul. Ele é totalmente artificial entre nós. Sobretudo, no Brasil, fora imigrantes europeus e africanos muito recentes, a imensa maioria dos ditos “brancos” tem um pé na África e na “maloca”, assim como os mais insuspeitos “negros” possuem raízes étnicas européias e indígenas. 
Procurar encontrar as raízes e locais de proveniência dos ancestrais, para multidões de brasileiros, é se abrir em um leque vertiginoso de origens africanas, européias, americanas, asiáticas, etc., nenhuma delas possíveis de serem apreendidas fora de suas diversidades internas. Em apenas quatro gerações, cada um de nós possui nada menos do que quatorze ancestrais! Mas, em verdade, a verdadeira manipulação não se dá na construção de uma população brasileira imaginária de raízes raciais puras quando, em sua imensa maioria, são resultado de inúmeros cruzamentos étnicos. 
As propostas racialistas pró-burguesas e pró-capitalistas procuram sobretudo o encobrimento das verdadeiras raízes de nossa sociedade, operação empreendida por praticamente todos os ideólogos das classes dominantes brasileiras, do passado e do presente. As origens basilares da nossa nacionalidade não são européias, africanas, americanas. Esses e outros aportes culturais menores foram metabolizados e recriados por mais de três séculos de ordem escravista colonial, resultando desse processo sociedade nacional determinada pelas fortes contradições sociais despóticas da organização escravista e de suas sequelas. Entre elas, a cultura e a tradição racista anti-negro.
É sandice maior propor a separação do afro e do europeu na cultura brasileira. Nos fatos, é o mesmo que pretender separa o hidrogênio do oxigênio e ainda beber água. Da simbiose escravista, terrível em suas contradições, nasceu nossa forma de falar, de comer, de dançar, de amar, de socializar. Da escravidão dependeu a própria unidade nacional brasileira. Se temos Brasil, para o bem e para o mal, devemos a ela. A sociedade escravista foi a casa que nos coube, onde fomos infantados. O berço que conformou as raízes que temos que defrontar, para superar o que o passado teve e nos legou de terrível iniquidade, retomada pelo presente.
Por além das múltiplas ascendências étnicas que portamos todos nós, algumas dominantes, outras subordinadas, somos, todos os brasileiros, descendentes de trabalhadores escravizados ou de escravizadores, segundo nosso pertencimento atual ao mundo do trabalho ou do capital, objetiva ou subjetivamente. Nesse sentido, podemos dizer que é, efetivamente, a cor do turbante que todos nós portamos, em forma consciente e inconsciente, que define nossa alma social. 
Um Novo Período 
Entretanto, mesmo os poucos privilégios permitidos pelas políticas racialistas já fazem parte também de um passado em superação. O capital imperialista pôs fim às concessões sociais pontuais que acompanhavam as políticas liberais. Políticas que justificaram e alimentaram em boa parte a era petista. Com elas estão sendo enviadas para as calendas as propostas “compensatórias” e as promoções sociais exemplares. Ato inicial do governo Temer foi pôr fim ao Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Muito logo, o financiamento nas universidades privadas serão feitos a juros de mercado, entregando-se com o diploma ao formado dívida que jamais poderá pagar, como habitual nos USA. Já se iniciou, também, o desmonte das escolas universitárias públicas, em perspectiva de privatização das mesmas.
Aquelas iniciativas e concessões pontuais, criadas para favorecer a dominação pacífica do movimento social, através da cooptação dos seus segmentos superiores e direções, são desprezíveis para gestão do Estado e da sociedade que abre confronto direto com os núcleos centrais do mundo social e do trabalho. Uma política, na procura desenfreada de lucro crescente para o grande capital, despreocupada com o literal processo de canibalização da sociedade. Hoje já nos defrontamos com uma nova ordem que, ainda mais do que ontem, golpeia a todos, com destaque indiscutível para os setores mais frágeis, entre eles, as populações negras marginalizadas. A união dos oprimidos segue sendo, mais agora do que antes, o único caminho a ser trilhado. A divisão social é criminal.
"TROUBLANT TURBANTE
essa não é mais um palpite sobre a mais última treta do FB, aquela do turbante. Dessa vez vou ficar FORA, no êxodo.
Claro, um dos determinantes malucos dessa treta (e muitas outras) é o ex-governismo e seu uso e abuso de narrativas falsas. Essas narrativas multiplicaram situações como essas, onde não se procura apreender o conflito e sua dimensões paradoxal, mas a "solução". Não há solução e o politicamente correto apenas se desdobra, em dois turbantes igualmente legítimos.
O que interessa, é a organização do conflito como base de renovação democrática, para além da frustração das vitimas (que reivindicam o turbante para si apenas) e da falsa consciência daqueles e daquelas que querem pedir desculpa por serem "brancas ou brancos" e usarem um turbante (antes foi a polémica com o Rafucko)

Não interessa nem a boa consciência do lugar de fala nem a falsa consciência do não-lugar de fala, O que interessa é a luta, quanto isso contribui a organizar (ou não) a democracia.O resto é reprodução do cinismo ex-governista e de uma ex-querda extenuada.
Para isso, é interessante talvez ler esse trecho de um autor africano que passou muito tempo nas prisões africanas (da Nigéria). 
Um belo dia, o Wole Soyinka escreveu (tradução livre):

<>.
Numa entrevista, o mesmo Wole escreveu sobre negritude:
<>.

(não conheço a obra inteira do Wole, apenas li algumas entrevistas, então, apenas estou usando essas citações que me parecem me adequadas)"

Giusepe Cocoo

19 fevereiro 2017

Trabalhadores de todo o mundo, unam-se e sigam os Indígenas!

Com os últimos locais tecnicamente capazes de abrigar hidrelétricas, as últimas reservas de petróleo e gás e algumas grandes jazidas de minério localizadas em terras indígenas; ou estando estas terras localizadas entre as fontes de água, matérias-primas e combustíveis fósseis e as indústrias que as utilizam, tornando quase impossível que a construção de aquedutos, oleodutos, gasodutos e mineriodutos não se dê por dentro dessas terras; ou simplesmente a fronteira agrícola avançando sobre elas; surge uma enorme contradição. As corporações farão tudo que puderem, atropelando legislações ambientais (ou modificando-as através dos governos e parlamentos) e direitos humanos, para terem acesso a tais "recursos", o que implica simplesmente a conclusão do genocídio dos povos originários, a fim de abrir caminho para devastação final de suas terras. Os povos indígenas, cada vez mais, se virão obrigados a colocar os próprios corpos diante das máquinas e da força militar (e mesmo paramilitar) mobilizada pelo capital, na repetição recorrente do que se vê em Dakota, com os Sioux de Standing Rock, com os Guarani-Kaiowá enfrentando o agronegócio, os Munduruku e Belo Monte, os indígenas equatorianos e a exploração de petróleo em Yasuni. É o que se vê mesmo aqui no Ceará em que o mais irracional assalto à água pública, para que esta alimente termelétricas e siderúrgica, se dá por meio de uma gigantesca adutora que começa em terras Pitaguary, atravessa terras Tapeba e termina em terras Anacé. Na vanguarda não apenas pela luta por sua existência, mas numa luta em que representam toda a humanidade - e porque não dizer toda a biota - pela sobrevivência, os povos indígenas têm chances escassas de, sozinhos, saírem vitoriosos, pois lhes faltam número, recursos, ainda que atinjam um patamar de consciência, mobilização e organização ainda bem maiores do que hoje, no que inevtitavelmente será uma tentativa cada vez mais frequente de bloquear, interromper ou mesmo sabotar e destruir tais infraestruturas. Seu isolamento pode lhes significar a vitória da morte: água para as indústrias e não para as pessoas, avanço do desmatamento e ecocídio, com a destruição final da vida silvestre e a culminância da sexta extinção, acesso aos estoques de carbono que em sendo queimados nos lançarão inevitavelmente num cataclisma de caos climático e oceanos ácidos. Daí, a grande massa de bilhões, a classe trabalhadora mundial precisa definitivamente entrar em cena, mas com uma missão qualitativamente diferente daquela que dela se esperava no século XIX e no início do século XX. Não é mais possível pensar em simplesmente apropriar-se coletivamente desse imenso aparelho "produtivo" industrial erigido sob domínio do capital, na tentativa deste de subjugar o sistema Terra (ou a Mãe Terra, ou Gaia, ou Pachamama). É preciso desligar as caldeiras das térmicas, desligar altos-fornos, paralisar linhas de montagens de automóveis e fechar válvulas de refinarias, desmontar a indústria de armas e reorganizar por completo a base de fornecimento de energia e de produção de bens materiais, para uma sociedade com menor demanda energética, uso muito mais racional e equilibrado de água, rumo a um sistema produtivo de ciclo fechado, mimetizando a biosfera ao ser capaz de reaproveitar cada átomo já extraído do subsolo utilizando as fontes renováveis, com ênfase no aproveitamento da fonte primária, o sol. Isso implica em não apenas ter consciência de classe, mas consciência de espécie e consciência de biota. Isso implica em romper o acordo com o capital não apenas no que diz respeito a quem controla os meios de produção e quem se apropria da riqueza, mas no sentido mais profundo de questionar os próprios conceitos de produção e riqueza como estabelecidos pelo mundo do capital. Chegamos ao Antropoceno com o capitalismo "transformando o índio em pobre", como nos indica Viveiros de Castro. Sobrevivermos a ele e liquidarmos o capital implica em superar revolucionariamente essa negação do indígena, do vínculo com a terra e o território, da ligação com o mundo natural e material; essa alienação profunda em relação às fontes do que consumimos e ao destino do que rejeitamos; no limite, recuperar essas conexões é condição basilar para que não sucumbamos à barbárie, à fome, à ruína e em última instância à extinção."
Alexandre Araujo
 "Merece as homenagens. Mas, durante o regime militar, absteve-se – chegou a sustentar que não houve censura de livros durante o dito regime – isso em julho 1981, em um encontro de escritores, UBE e SESC, eu estava lá, ele levou uma bronca do Péricles Prade (então presidente da UBE, havia atuado no caso Herzog) por isso. Não participou da visita ao Armando Falcão da Lygia, Nélida, Antonio Torres e outros escritores para protestar contra a censura. Nem de mais nada. Não acho que isso o reduza ou deva ser cobrado. Tem o direito de tomar a posição que bem entender em cada circunstância. Já Roberto Freire era dirigente do PC, o Partidão, com militantes presos, torturados e até mortos. E daí? São as voltas que o planeta dá sobre si mesmo? Baudelaire e a defesa do direito de contradizer-se? Provavelmente. Se a reunião de 1981 fosse de adeptos do regime militar e não de opositores, então ele defenderia a redemocratização? Mas as manifestações sobre esse episódio da premiação, do Camões deveriam conter mais informação e menos demagogia. Tem gente que sabe muito bem do que estou falando e está omitindo, de ma fé. Estão inclusive enganando a garotada, o pessoal que chegou mais recentemente. Obliterar a história, esquecendo quem estava em qual lugar quando as coisas estiveram realmente feias, durante a vigência do golpe (daquele verdadeiro golpe) é péssimo, não se justifica de modo algum."

10 fevereiro 2017

"Há uma tese de doutorado clamando por ser escrita, mas desconfio que ela não o será, em parte porque ela contraria o foco e as premissas das ciências sociais brasileiras de hoje, em parte porque ela se choca com o próprio clima dominante na universidade. Pode até ser que alguém a escreva, embora eu duvide.
Seria uma tese sobre o papel da imprensa na produção da metáfora, da narrativa do Brasil Grande, nos últimos anos. Há teses sobre a produção dessa retórica durante a ditadura, claro, inclusive tratando o papel da imprensa. Quero ver escreverem sobre essa retórica na imprensa durante os governos petistas, particularmente a partir de 2008, quando se consolidou mesmo a opção desenvolvimentista, Lula trouxe – insulto supremo – Mangabeira Unger para cuidar da Amazônia, Marina, cansada de apanhar e perder, saiu do governo e já não havia travas ao trator dilmista sobre os povos originários.
Essa tese é difícil de ser escrita na universidade brasileira de hoje porque ela fala da CUMPLICIDADE da imprensa com a metáfora favorita do lulismo e do dilmismo entre 2006 e 2015 (particularmente até 2013), e as hipóteses universitárias sobre imprensa e política hoje no Brasil são, em maior ou menor grau, ainda tributárias do eterno choramingo petista e parapetista sobre “mídia golpista” – tese furada, desmentida todo santo dia, e só traficada por gente burra, e/ou mal intencionada e/ou monolíngue. Em suma, gente que não sabe ou finge não saber o quão duro o New York Times bate em qualquer presidente americano, o quão duro o Guardian bate em qualquer Primeiro Ministro britânico, o quão duro o Le Monde bate em qualquer presidente francês.
A imprensa brasileira tem mil e um problemas, mas ter batido demais nos governos petistas não foi um deles – bateu pouco, investigou pouco, inquiriu pouco. Deveria ter batido muito mais. Com efeito, em todas as questões que realmente interessavam àqueles governos (Copa, Olimpíadas, criminalização e repressão a manifestantes, grandes obras do PAC, hidrelétricas na Amazônia, remoções etc.), a imprensa brasileira esteve colada ao imaginário do Brasil Grande, tão entusiasmada com esse imaginário como os governos petistas e, não raro, atuando em conjunto com eles.
Essa tese não poderia deixar de passar por toda a lua-de-mel do dilmismo com a imprensa, desde a omelete na Ana Maria Braga até as várias capas da Veja em elogio à gerentona incorruptível, desde a infame capa d'O Globo sobre “vândalos” e “em apoio à resposta enérgica do governo” até a encandalosa edição do Jornal Nacional que fez propaganda de Belo Monte durante quase 20 minutos. Faça-se a pesquisa que corresponde, nos arquivos de Junho de 2013, e você verá que os discursos de imprensa e de governo federal (e também dos estaduais tucanos e não tucanos, dá na mesma) sobre “vandalismo”, “violência”, “black blocs” et caterva eram exatamente o mesmo discurso.
Quando Dilma finalmente saiu do silêncio e resolveu responder aos manifestantes, já em 23 de junho de 2013, sua reconhecidamente desastrada resposta (que incluía até a proposta de um monstrengo de Assembleia Constituinte parcial sobre a qual ela havia consultado … ninguém!) foi louvada pela Folha de São Paulo no editorial que reproduzo abaixo. Pesquisando os arquivos dos levantes de junho, uma das coisas interessantes que você encontra é que é impossível diferenciar a voz de José Eduardo Cardozo, Ministro da Justiça de Dilma e responsável pela coordenação do massacre aos levantes, e a voz do editorialista do Estadão ou d'O Globo, por exemplo.
Essa curiosa coincidência, surpreendente para quem fala de “mídia golpista” e “antipetista”, será explorada em alguma pesquisa séria, quantitativa ou não, mas com fontes primárias, feita na universidade? Temo que não."

Idelber Avelar 

27 janeiro 2017

"Sem dúvida, há a pichação de má qualidade. Por exemplo, a típica de classe média desocupada, e é como a própria classe que é mediocre e mau educada, nada mais nada menos. Ficam escrevendo com letras primárias e mau português um monte de babaquice por todos os lados, e acabam sujando a cidade. São péssimas frases de amor, como na música "sertaneja de novela", ou palavrões preconceituosos para destratar os vizinhos ou caluniar um professor da escola que resolveu cobrar a lição de casa, essas coisas abjetas que os mais idiotas fazem quando têm mesada para comprar latinha de spray. Mas eu acho que esses garotos jamais vão ser enquadrados, sempre surgirá papai, mamãe ou o amigo da família para liberar o B.O. na prosa afiada com o delegado. Agora, o que tem que diferenciar dessa merda de pichação é a Pixação que surgiu na periferia das cidades como SP e que criou uma linguagem urbana altamente complexa, com códigos individuais de diferenciação, organizando tradições e histórias dentro de grifes e irmandades, verdadeiras escolas de design gráfico, transformando este maravilhoso tecido visual da má arquitetura que infesta São Paulo. São jovens auto-didatas que vão com seus corpos e ousadia reprogramando o espaço dessas fachadas abandonadas e decadentes, criando nelas um novo espaço inteligente com uma elegância que lembra a dos antigos livros germânicos que usavam a tipologia gótica. Ou melhor, essas Pixações de alta qualidade mais parecem as inscrições nas xilogravuras do período Edo, com seus poemas misteriosos de tão sintéticos, como que em uma palavra, soando enigmáticos para nós, arrematados ainda por seus belíssimos carimbos de kanji japonês que reinventam os ideogramas de uma forma estonteante. Talvez até, sem pensarmos muito e se olharmos bem, nos melhores casos, eu diria, lembram a gestualidade zen dos pincéis dos mestres do nanquim oriental. O problema é que com esse papo de crime quem vai em cana são esses calígrafos da contemporaneidade que só possuem a sua própria arte para os defender."

Afonso Luz 

18 janeiro 2017

"... nós, progressistas, antifascistas, homens de esquerda, somos responsáveis por esses massacres. De fato, em todos estes anos não fizemos nada: 1. para que falar de 'Massacres de Estado' não se tornasse um lugar comum e tudo ficasse por isso mesmo; 2. (e mais grave) não fizemos nada para que os fascistas não existissem. Limitamo-nos a condená-los, gratificando nossa consciência com a nossa indignação; e quanto mais forte e petulante era a indignação, mais tranquila ficava a consciência. Na realidade nos comportamos com os fascistas (refiro-me sobretudo aos jovens) de maneira racista: quer dizer, quisemos apressada e impiedosamente crer que estavam predestinados por sua raça a serem fascistas, e perante essa decisão do seu destino não havia nada a fazer. E não o dissimulemos: todos sabíamos, em nossa sã consciência, que era por puro acaso que um daqueles jovens 'decidia' ser fascista, que se tratava de um mero gesto imotivado e irracional; talvez uma só palavra tivesse bastado para que isso não acontecesse. Mas nenhum de nós jamais conversou com eles, nem sequer lhes dirigiu a palavra. Aceitamo-los rapidamente como inevitáveis representantes do Mal. E eram certamente rapazes e moças de dezoito anos, que não sabiam nada de nada, e que mergulharam de cabeça nessa horrenda aventura por simples desespero."
(PIER PAOLO PASOLINI - 'O Verdadeiro Fascismo & O Verdadeiro Antifascismo' - in: "Os Jovens Infelizes")
"OBRE MEMÓRIAS E ESQUECIMENTOS
Tenho sido muito cobrado por ter supostamente defendido que a memória do regime militar seja esquecida, no sentido de ocultada. Nada mais falso. Sempre defendi o binômio de Nelson Mandela: verdade e reconciliação. Sem a perspectiva da reconciliação a busca da verdade se apequena, e reconciliação sem verdade é hipocrisia.

Não tivemos, no Brasil, maturidade suficiente para construir um processo desse tipo. Pagamos caro por isso. O regime militar continua como um fantasma que nos prende ao passado. Temos sido até incapazes de reconhecer que nos últimos 25 anos as forças armadas têm tido um comportamento exemplar em relação às instituições democráticas.
Pessoas, grupos, países e povos que viveram experiências muito mais duras e mais prolongadas que a nossa, como os sul-africanos, foram capazes de dar esse passo. É assim que se faz história.
Lembrar para poder nos libertar da lembrança – é disso que se trata. As pessoas sadias vivem a vida assim, lembrando e esquecendo. Quem não pode lembrar permanece atormentado pela interdição da lembrança. E quem não sabe esquecer enlouquece.
Esse equívoco que cometemos foi mais um tijolo na construção do muro que separa o Brasil e o futuro. Ter recusado a indenização associada à anistia foi uma forma, que encontrei, para deixar claro que não compactuava com o caminho que estava sendo seguido.
Guerreei quando achei que era preciso guerrear, mas não gosto de gente que anuncia muita coragem fora de tempo e lugar."

Cesar Benjamin 
O escritor e seu duplo 
Ricardo Piglia

A literatura atua sobre um estado de linguagem. Quero dizer que, antes de mais nada, para um escritor o social está na linguagem. Definitivamente, a crise atual tem na linguagem um de seus cenários centrais. Ou talvez deveria dizer que a crise está sustentada por certos usos da linguagem. Tem se imposto uma língua técnica, demagógica, publicitária e tudo o que não está nesse jargão fica fora da razão e do entendimento. Tem se estabelecido uma norma linguística que impede nomear amplas zonas da experiência social e que deixa fora da inteligibilidade a reconstrução da memória coletiva. 
Em The Retoric of Hitlers Battle, escrito en 1941, o crítico Kenneth Burke já fazia ver que a gramática da fala autoritária conjuga os verbos em um presente despersonalizado que tende a apagar o passado e a história. O Estado tem uma política com a linguagem, busca neutralizá-la, despolitizá-la e apagar os signos de qualquer discurso crítico. O Estado diz que quem não diz o que todos dizem é incompreensível e está fora de época. Há uma ordem do dia mundial que define os temas e os modos de dizer: a mídia repete e modula as versões oficiais e as construções monopólicas da realidade. Os que não falam assim estão excluídos e essa é a noção atual de consenso e de diálogo. 
O discurso dominante neste sentido é o da economia. A economia de mercado define um dicionário e uma sintaxe e atua sobre o valor das palavras; define uma nova linguagem sagrada e crítica, que necessita dos técnicos e de seus comentadores para decifrá-la e traduzi-la. Deste modo se impõe uma língua mundial e um repertório de metáforas que invadem a vida cotidiana. 
Os economistas buscam controlar tanto a circulação das palavras como o fluxo do dinheiro. Haveria que estudar a relação entre o que transcende, as infiltrações, os desmentidos, as versões e contraversões por um lado e as flutuações dos valores no mercado e na bolsa por outro. Há uma relação muito forte entre linguagem e economia. Nesse contexto escrevemos, e o que a literatura faz (em realidade o que tenho feito sempre) é descontextualizar, apagar a presença persistente do presente cego e construir outro tempo e outra realidade. Cada vez mais os melhores livros atuais (os livros de Walker Percy, de Andrea Zanzotto ou de Juan Gelman) parecem escritos em uma língua privada. Paradoxicalmente a língua privada da literatura é o rastro mais vivo da linguagem social. 
Quero dizer que a literatura está sempre fora de contexto e sempre é inatual; diz o que não é, o que tem sido apagado; trabalha com o que está por vir. Funciona como o reverso puro da lógica do Estado e da realpolitik. De modo que a intervenção política de um escritor se define antes de mais nada na confrontação com estes usos oficiais da linguagem. 
Os escritores sempre têm chamado a atenção sobre as relações entre as palavras e o controle social. Em seu explosivo ensaio Politics and the English Language de 1947, George Orwell analisava a presença do Estado nas formas da comunicação verbal: a língua instrumental dos funcionários policiais e dos tecnocratas havia se imposto, a linguagem tinha se convertido em um território ocupado. Os que resistem falam entre si em uma língua perdida. No trabalho de Orwell se veem condensadas muitas das operações que definem hoje o universo do poder. Pasolini por seu lado tem percebido de um modo extraordinário este problema em suas análises dos efeitos do neocapitalismo na língua italiana. Não me parece nada raro então que o maior crítico da política atual (um dos poucos intelectuais realmente críticos na política atual) seja Noam Chomsky: um linguista é certamente o que melhor percebe o cenário verbal da tergiversação, a inversão, a troca de sentido, a manipulação e a construção da realidade que definem o mundo moderno. 
Gostaria de recordar duas citações, onde se analisam estes procedimentos de encobrimento. Primeiro uma de Orwell: Bombardeiam povos indefensos, tiram os habitantes de sua terra e metralham seu gado, incendeiam suas cabanas e a isso se chama pacificação. Milhões de campesinos são despojados de suas granjas e enviados para a estrada sem nada, e a isso se chama retificação de fronteiras. E Chomsky, por sua vez, diz sobre a troca de nome de Departamento de Guerra (nos Estados Unidos) para Departamento de Defensa em 1947. Enquanto isto se sucedeu, qualquer pessoa sensata devia dar-se conta de que os Estados Unidos já não se ocupariam da defesa, participaria nas guerras tão somente como agressor. Também diz Chomsky: nos anos 40, nos círculos da indústria das relações públicas, tomou-se a decisão de introduzir expressões como livre empresa, mundo livre, ao invés de termos descritivos convencionais como capitalismo, insinuando que os sistemas de agressão e de controle nos quais estavam implicados aqueles que detinham o poder eram na realidade una forma de liberdade. Mundo livre, livre empresa, livre concorrência, livre mercado. Era uma maneira de nomear a concentração econômica e a política da expansão dos grandes monopólios. Desse modo se impõe uma linguagem encobridora, um estilo médio, e tudo o que não está nesse jargão é considerado hermético e fora de lugar. Ou seja, estabelece-se uma norma linguística, que não tem nada que ver com os registros da língua popular nem com as experiências concretas da vida cotidiana e se definem aí os níveis de compreensão e de sentido. 
Há uma cisão entre a língua pública, a língua dos políticos em primeiro lugar e os outros usos da linguagem que estão perdidos e quase apagados da superfície social. Tende-se a impor um modelo único - que funciona como um registro de legitimidade e de compreensão - que é manejado por todos os que falam em público. Em momentos em que a língua se tem tornado opaca e homogênea o trabalho detalhado, microscópico e quase invisível da literatura é uma resposta secreta e corrosiva ao estado das coisas.

13 janeiro 2017

"AUGUSTO DE CAMPOS: "Penso, como Cage, que a vanguarda — que prefiro chamar de poesia de “invenção”, a partir da classificação de Pound, para abarcar tanto o passado (como o trovador provençal Arnaut Daniel) quanto o presente — sempre exisitirá e não precisa ser um fato coletivo. É sinônimo de “curiosidade” e de “liberdade”. Não apenas expressar, mas mudar. Sempre haverá artistas que não se satisfaçam com a linguagem corrente, e queiram explorar novos caminhos, e não apenas falar da sua vida. No que diz respeito às “utopias“, apesar de me considerar pessimista, adoto a concepção de Oswald, que associo às ideias de Cage sobre vanguarda. “No fundo de toda utopia não há somente um sonho, há também um protesto”. Temos direito permanente ao fracasso da utopia. O universo digital e a internet são utopias que — para o bem ou para o mal — deram certo sob muitos aspectos. Mudaram a forma de comunicação mundial em duas décadas. A linguagem mudou, está mudando, e isso tem reflexos na própria linguagem da poesia que se faz hoje e que não pode ser a mesma do passado. Walter Benjamin, em 1926, predizia: “No futuro, antes que alguém abra um livro, desabará sobre seus olhos um turbilhão de letras móveis, coloridas, conflitantes. Nuvens de letras-gafanhotos. As chances do mundo do livro serão reduzidas a um mínimo. E os poetas terão que se tornar especialistas em grafias e diagramas para enfrentar o desafio das novas tecnologias.” É bom pensar nisso. Senão a poesia do “agora”, que o Haroldo postulava, pode virar poesia do “outrora”… 

11 janeiro 2017

"A raiz do pânico da imprensa com Donald Trump não vem, como alguns tolos insistem em imaginar, do fato de que este dissemina mentiras enquanto aquela representaria o bom senso e o compromisso com os fatos por oposição a ele. Trump mente mesmo, mas a questão aqui é outra.
Trata-se de coisa distinta, que demanda outro conceito de verdade, o foucaultiano. A imprensa está em pânico porque até agora a produção de verdade/ mentira da qual ela é dispositivo fundamental tem andado em compasso conjunto com a produção de verdade/ mentira do próprio poder estatal. Lembre-se aqui da Guerra do Iraque: foi baseada em mentiras, mas mentiras validadas no interior de um projeto de produção de verdade que mobilizava, sem fissuras, mídia e governo. Não é necessário acreditar em teorias bestas sobre a mídia maligna ou a conspiração da mídia para concordar com essa análise.
Agora é diferente: o soberano se transforma, ele mesmo, não apenas em fonte, mas também em veículo de produção de verdade. Trump, ele mesmo, gera a notícia, obrigando a imprensa, por exemplo, a fazer constantes programas jornalísticos sobre seus tuítes. Não importa o que é "mentira" ou "verdade" aqui -- o que importa é que a imprensa foi deslocada de seu poder reitor na administração do verdadeiro e do falso. E isso gera enorme confusão para o quarto poder. Está sendo divertido observar.

As redes sociais estão em guerra nos Estados Unidos. Informação não verificada, versão adulterada da informação não verificada, produtores de notícias falsas acusando o outro lado de produzir notícias falsas, geopolítica, guerras culturais, whistleblowers, acusações de violação da ética jornalística, traição à pátria -- tudo isso, junto e misturado no escândalo envolvendo Trump e a Rússia."

Idelber Avelar 

09 janeiro 2017

"As revistas Veja, Istoé e Época desta semana dedicaram suas capas aos recentes acontecimentos nas prisões localizadas no norte do país. Existe uma série de questões que podem ser debatidas a partir das matérias, mas por enquanto vou me limitar às que me parecem mais complicadas, seja pelo caráter consensual à esquerda e à direita, seja pela circularidade histórica dos argumentos que faz a positividade da prisão emergir sempre da constatação de seu fracasso.
Em primeiro lugar, aparece a chamada omissão do Estado. Atribui-se a dimensão atual do controle das facções a uma espécie de ausência estatal, precisamente, onde não faz qualquer sentido falar em falta de Estado. Não existe lugar onde o Estado seja mais Estado do que numa prisão. Tanto podemos retomar os fundamentos do contratualismo, quanto a tese weberiana do monopólio do exercício legítimo da violência para debater o problema, mas muito mais eficaz me parece ser o lembrete de que ninguém vai parar numa prisão se não por obra e graça do poder estatal.
Mesmo quando se trata de administração privada de unidade carcerária (voltarei a este ponto em outro post), o controle sobre como, quando, e de que forma se pune é, para lembrar Godwin, a questão fundamental da ciência política, assim como a prisão, por sua vez, tornou-se a forma elementar de punição na modernidade, segundo Foucault. Em ambos os casos, se tem algo que está implicado no debate é a presença inequívoca do Estado. Punir e prender talvez sejam as formas mais essenciais de um Estado Moderno se realizar enquanto tal. Atribuo, aliás, à ignorância de jornalistas, juristas e, pasmem, historiadores, a referência constante ao caráter medieval ou selvagem (sabe-se lá porque alternados como sinônimos) da situação nos presídios brasileiros. A prisão, tal como a conhecemos, é um produto da modernidade, da civilização e do humanismo. Creditar o que lá acontece a qualquer outra forma histórico-política é somente uma forma de afastar de nós mesmos as atrocidades que produzimos, segundo a crença que nos convém.
Os problemas que vão da tal superlotação à corrupção, passando por outras questões de gerenciamento, já não podem ser admitidos como ausência. Trata-se de uma política afirmativa que se define como governamentalização do Estado, ou seja, um arranjo polìtico específico das maneiras pelas quais se produz governo sobre a vida e a morte da população encarcerada, e cujo aspecto menos importante é definir-se pela ação ou omissão em termos gramaticais ou jurídicos, posto que ambas consistem em um fazer, um funcionamento, um modo de se mover estrategicamente.
Em outras palavras, o Estado não é omisso ou fraco quando deixa o governo das prisões ser exercido por grupos que trabalham no campo dos ilegalismos. É exatamente para que estes desonerem as instituições de um fazer que não pode ser anunciado ou defendido enquanto tal pelos devotos do Estado Democrático de Direito - sempre dispostos a afirmar a legitimidade da prisão e propor projetos mirabolantes para reformá-la - que esta delegação acontece.
Em São Paulo, há muito se sabe que o governo das prisões se dá pelo compartilhamento de gestão entre a SAP-SP e o PCC, o que implica dizer que a alternância de poderes entre eles permite que só tenhamos notícias dos horrores perpetrados no sistema prisional quando algum acordo se rompe e anuncia uma nova reacomodação de forças. E é precismente por isso que você e eu dormimos tranquilos todas as noites, sem sermos assombrados por cabeças decapitadas. Alguns de nós, inclusive, pedem novas formas de criminalização, enquanto se mostram comovidos ou indignados com a “barbárie”, que não é nada mais que o fio desencapado das nossas Luzes.
Quando a impresa informa que a empresa administradora do Compaj, em Manaus, notificou o governo do estado sobre a possível ocorrência de rebelião, é preciso entender a comunicação entre os gestores como de fato ela opera: não uma mera troca de ofìcios e pedido de reforço policial, cuja ausência de resposta foi a causa do massacre (vamos lembrar que no Carandiru foi exatamente o contrário...), mas um “cumpra-se” para o extermínio que formalidade nenhuma consegue esconder. Para quê se desgastar quando é possível fazer o serviço que se pretende sem sujar as fardas ou as mãos? Percebam que, depois, não faltou quem dissesse que entre os mortos não havia santo...

Dito isto, vamos ao que mais interessa: os massacres nas prisões, de tempos em tempos, emergem como uma das formas de controle da superlotação e remanejamento de novos contingentes de encarcerados para inauguração de unidades prisionais que já surgem sob as mesmas condições de possibilidade que anunciam a próxima tragédia. Tragédia, aliás, que irá chocar as sensibilidades humanistas menos habituadas a se olharem no espelho. E é por isso que eu começo a escrever, o que provavelmente será uma série de longos posts, sugerindo um tantinho de honestidade neste debate: não são a tortura e chacina que nos chocam, é a exposição de suas imagens que atrapalha nosso café da manhã." - Aline Passos

23 dezembro 2016

"A morte é uma coisa grande. É uma nova rede de relações com as ideias, os objetos, os costumes do morto. Ela é um novo arranjo do mundo. Nada mudou aparentemente, mas tudo mudou. As páginas do livro são as mesmas, mas não o sentido do livro. Precisamos, para sentir a morte, imaginar as horas em que temos necessidade do morto. Então, ele nos faz falta. Imaginar as horas em que ele precisaria de nós. Mas ele não precisa mais de nós. Imaginar a hora da visita amiga. E descobri-la oca. É preciso ver a vida em perspectiva."
Antoine de Saint-Exupéry, Piloto de guerra, 2015 [1941], p. 36.
"Existe sempre um algoritmo para prever um aspecto do comportamento humano: o possível coincide cada vez mais com o provável, e entender se algo é mais ou menos possível se tornou uma mera questão de potência de cálculo. O diretor da Uber, em resposta a uma pergunta sobre o aumento dos custos para o usuário, certa vez declarou à revista Wired o seguinte: 'Nós não fixamos os preços. É o mercado que fixa o preço. Nós temos os algoritmos para determinar o que é o mercado'."
Trecho de Emanuelle Braga, "Política do algoritmo", artigo da excelente edição recente da Piseagrama.