16 junho 2017

A POESIA MERECE IR PARA O SACO

notas de estética e sociologia da literatura


Marcus Fabiano Gonçalves
Poeta, autor de Arame Falado.

Coloquem num saco (de preferência transparente) o nome de uns 50 professores de literatura. Gente de todas as regiões e gerações, ativos e aposentados. Para esse saco devem ir nomes de veteranos que estudaram latim no colégio e já leram de tudo nessa vida e também nomes desses jovens recém-chegados no mundo intelectual, cheios de novas teorias e passagens por prestigiosas universidades estrangeiras. Antes, é claro, apurem bem direitinho se ninguém aí fez um livro que está concorrendo ou se está patrocinando alguma obra que pode entrar no páreo - esses não podem ir para o saco, eles estão impedidos não só de julgar como também de concorrer à própria chance de fazê-lo. Daí é só sacudir um pouco e solicitar a alguém que tire uns três ou cinco papeizinhos do tal saco em um lugar previamente marcado e na frente de todos que queiram assistir ao sorteio. Pronto: já temos um júri legal e legítimo. Um júri escolhido por tal sistemática dispensa o subjetivismo das indicações de notáveis, pois envolve um ritual e uma contingência, a nítida combinação entre a diversidade de perfis e o elemento randômico da oportunidade. Essa é uma lição dos gregos, que tanto observavam o acaso e a preferência, a vontade dos homens e a dos deuses. Aliás, os atenienses eram muito ciosos com a lisura dos concursos de seus festivais dramáticos. Os júris das competições teatrais eram sorteados (entre os aristocratas para as tragédias e entre todo o demos para as comédias) e, após premiações e festejos, uma assembleia de cidadãos reunia-se no próprio teatro para discutir e criticar publicamente a organização do torneio. 

Um jurado é um juiz e, como tal, o seu ofício é parte essencial da democracia, palavra que hoje nomeia tanto um procedimento quanto uma ética isonômica e igualitária. Como em qualquer processo racional (acadêmico, jurídico, administrativo), um jurado deve estar disposto a motivar, justificar e fundamentar a sua escolha tomada no interior de um campo de possibilidades previamente delimitadas pela lei (a isso se chama “discricionariedade”). Assim, em virtude de tal exigência, é altamente aconselhável que um jurado tenha boas condições teóricas de transformar a sua suposta intuição estética em uma explicação, mesmo que sucintamente. Em um concurso literário, avaliar constitui atividade semelhante àquela do julgamento crítico, embora aí a fundamentação já venha sendo infelizmente substituída pela simples autoridade de quem escolhe mais para exaltar ou demolir uma obra, não raramente a partir de critérios que falseiam suas qualidades e em nome de uma ânsia por influenciar desmesuradamente nos rumos da competição estética. No entanto, para além desse problema essencialmente ético, não é novidade o alegado colapso da crítica literária no Brasil e no mundo: poderosos jornais eliminaram suas colunas e as análises autênticas deram lugar a arrolamentos de louvores que, de tão levianos, tediosamente cheiram a propaganda barata, quando já não a colunismo social. Quem sem maiores precauções de longe visse por aqui tais textos de encomenda talvez pensasse que o Brasil é uma civilização de Rimbauds promovidos pelo generoso mecenato de editoras interessadas em apoiar inúmeras "revelações" e projetos “não comerciais” - o que, no primeiro caso é uma ilusão e, no segundo, uma mentira.

Há um mistério de fundo inescrutável na encarnação do estilo que se faz voz e verbo divisáveis. Mas tal acontecimento, a despeito de sua estrita raridade, tem posto a crítica mais silente que genuflexa diante das poucas façanhas que se mostram inabordáveis como o duende de Lorca. A celebração do banal como simplicidade conquistada e o elogio do cotidiano como presumida derrisão das sobrancerias metafísicas (acusadas de grandiloquentes) camuflam uma aquiescência a facilidades e clichês que também escamoteiam as misérias de uma crítica intelectualmente inane e afeita a empulhar seus leitores (clientes?) com recursos constantes ao non sequitur. O petulante descuido na guarda da tradição, a imperícia no manejo de aparatos teóricos e a estreiteza de horizontes na composição dos panoramas autorais são só algumas de suas carências. Agregue-se a isso a reconfiguração do sistema literário como uma “rede” na qual jovens autores são participantes que se revezam como dublês de críticos de seus pares a fim de impulsionar obras em um rodízio que supre de trabalho abundante e praticamente gratuito os interesses negociais de editoras grandes e pequenas. Esse aplainamento da intervenção analítica, bem como o seu acostamento às atividades de divulgação literária explicitamente partidária, acaba fustigando o papel do crítico como prócer portador de uma voz cuja autoridade era reconhecida pelo sistema de recepção como um todo. Cada grupo de autor passou atualmente a dispor de seus próprios críticos, e se as colisões intergrupais constituem uma exceção ruidosa, a regra que elas exceptuam é a de uma tepidez aceitante e generalizada. Na amplidão dessa platitude, as diferenças mínimas de uma mesmidade monótona são faturadas como vitórias estéticas, ao passo que o contra-cânone dos injustiçados é amortizado ao seu mínimo e as dissidências mais enfáticas são contabilizadas como simples aversão pessoal ou acrimônia de espírito. 

Como se sabe, a poesia exige tempo. A autoria poética é de maturação lenta e sedimentação irregular: mesmo um ótimo poeta pode voltar a escrever versos aborrecidos e sofríveis. Ela não se submete a classificações etárias nem admite a afobação dos calendários de prêmios, feiras e outros comércios. A crítica que se debruçar seriamente sobre criações desse escol necessitará atentar à delicadeza de suas condições de produção, especialmente as que são constituintes do topos pré-compreensivo de uma voz que se singulariza justamente a partir delas. E pretender falar do lugar desde o qual um poeta fala é sempre uma aventura fugidia e arriscadíssima, mormente quando se considera a busca de algum índice de originalidade. Se criticar é essencialmente distinguir, isso também se exercita elucidando-se o ver e o visto – as propriedades e as habilidades hermenêuticas dos sistemas de apreensão e representação bem ou mal atingidas pelo equipamento expressivo de um escritor. Nesse sentido, a crítica é uma analítica descritiva e explicativa dedicada a apresentar um arsenal de juízos eles próprios também discutíveis desde a perspectiva assertórica da correção de seus enunciados e premissas. Dito de outro modo, a verdadeira crítica de pronto aceitará submeter-se ela mesma ao ajuizamento de suas ponderações. Entretanto, isso de modo nenhum significa que se resolva, por essa via da crítica e do criticado, o problema anterior que também estou aqui suscitando: o da seletividade extraliterária dos autores criticáveis. Nesse quadro de proliferação bibliográfica, ensejado inclusive pelas facilidade tecnológicas, o ser (in)digno de apreciação já não é preponderantemente um problema de crítica literária, mas sim um tópico candente de sociologia da literatura: quais redes e por quais meios se disputam as táticas de fixação das identidades autorais? – eis a questão, posta em um lugar metacrítico ao qual retornarei. 

Um dos últimos espaços de refúgio da crítica é a universidade, lugar onde o juízo a duras penas (ainda) se cultiva por ofício em matéria de uma correção estética e teórica alcançada mediante o pólemos das controvérsias nascidas do choque entre preferências artísticas e intelectuais. Apesar do relativismo barato e da guetificação multiculturalista, na universidade uma fraude ou um absurdo devem ser desmascarados por dever, tal como reza a tradição crítica que desde Kant separou o pensamento da religião que outra vez se disfarça em novos sistemas de dogmas. A universidade, muito especialmente a pública, é o útero da sociedade: alimentada pelo cultivo da tradição e fecundada pela pluralidade respeitosa, ela gera o futuro. A universidade é um dos derradeiros espaços relativamente a salvo do ímpeto mercantil do mundo das publicações e da lógica artificiosa de certo jornalismo cultural obcecado pela celebridade. Exatamente por isso, defendo a presença ostensiva dos professores universitários na constituição dos júris de nossos concursos. Os docentes e pesquisadores estão habituados, por encargo profissional, a dar explicações públicas sobre as suas escolhas teóricas, práticas e até mesmo bibliográficas. E é isso o que mais deseja uma pessoa avaliada: saber algo a respeito dos critérios que mensuram o seu desempenho. Claro que julgar poesia (e qualquer arte em geral) não é tarefa das mais fáceis. A carga subjetiva que comparece à escolha é sempre fortíssima e, nesses casos, é ainda o silêncio que tantas vezes fala mais forte e obsequiosamente. Entretanto, é errôneo acreditar-se que tal subjetividade invariavelmente degringole em um relativismo inócuo, ou que ela radique em uma espécie de “caixa preta” das cargas idiossincráticas perdida nas funduras mais abissais da personalidade. Sendo o gosto socialmente construído (e tantas vezes imposto goela a baixo), pode-se esperar que quem o analise e o exprima exemplarmente possa equilibrar seu juízo entre as principais tensões que o modulam: a recepção da tradição (a memória preservada dos melhores feitos, tantas vezes exercida pelos jovens) e a inovação (o sentido de ruptura e atualização, com frequência curiosamente desempenhado pelos veteranos que, podendo prescindir das alianças mais espúrias, sentem-se livres para reconhecer as inovações e os altos conseguimentos que subitamente irrompem no mundo da criação). 

Com efeito, também cumpre assinalar que a universidade está longe de ser refratária às disputas de poder e aos corporativismos que lhe alcançam, dos pequenos privilégios nas publicações às épicas rasteiras nos concursos de recrutamento. Ademais, todos sabemos que há diversos autores (bons e ruins) com perfil acadêmico que lhes permite impulsionar suas obras a partir do prestígio granjeado em outras atividades suas, ligadas sobretudo à pesquisa científica, à tradução, à edição e, em especial, à circulação doméstica e internacional pelas instituições de pós-graduação. Por óbvio, nada disso é reprovável ou por si elogiável. Mas é importante lembrar que esse mesmo sistema universitário dispõe de um verdadeiro exército de centenas de especialistas altamente qualificados que jamais cogitaram tal duplicidade de carreiras, garantindo-se assim a isenção necessária para não serem impedidos de participar de listas de julgamentos e possibilitando-se, ao menos em princípio, apreciações mais voltada às obras que aos nomes e seus respectivos círculos e currículos. Estes podem, pois, entrar para o saco. 

Naturalmente, essa minha caracterização tão sintética de um ideal modelar nutre-se de uma pretensão normativa, posto que o diagnóstico contrafático apurado nas artes do Brasil é amiúde o seu mais exato avesso. A falência do nosso sistema educacional fez com que os pouquíssimos indivíduos que se candidatam à carreira de escritores rotineiramente percorram um calvário humilhante de bajulações e buscas de apadrinhamentos que transmutem a severidade do juízo crítico em uma reles questão de afabilidade pessoal. O escritor aspirante passa então a ser um cortejador reverente, um agente manso e inofensivo, um frequentador assíduo de grupelhos que implora a sua vaguinha no seleto grupo dos estabelecidos. Premiadas e aclamadas, a alta projeção pública de nulidades indiscutíveis e retumbantes só pode ser assim explicada pela lógica indulgente desse tipo de acesso facilitado à porta dos fundos da consagração. Animada por concursos organizados pelo mercado, a República das Letras retrocede assim a uma confraria de amigos ilustres que, ao arrepio de análises mais sinceras e rigorosas, funciona segundo essa regra de ouro da falsa universalidade corporativa: “enquanto formos poucos, todos somos bons”. Pois bem, isso equivale a dizer: se todos são bons, ninguém é bom – e que se lavre o atestado de óbito da excelência, a ser subscrito por todos os pares. Com o amplo acesso aos circuitos de publicações, em nome da diversidade, uma vertiginosa inflação de obras insignificantes ou simplesmente inassimiláveis acaba atravancando o caminho do que poderia ser acolhido por uma recepção atilada e criteriosa. É assim que poetas e romancistas promissores são sepultados vivos pelo volume extraordinário de publicações que se nivelam pela unidade da mediocridade, um quadro em cujo contexto essa mesma perspectiva cortesã ainda forja o idílio de um campo literário harmônico e acolhedor, pasto fértil no qual uma gerontocracia de tetas há muito murchas ensina os seus dóceis bezerros a ruminar o esterco de algumas poucas vacas sagradas.

Todavia, o campo literário é em verdade um campo minado. As elites com algum laivo cosmopolita há muito descobriram que a brutalidade econômica de seus privilégios – sua soja, seus bois, seus bancos, seus imóveis, seus jornais e televisões e seus tradicionalíssimos nomes de família – pouco importa lá fora se não for revestida de algum signo de distinção espiritual: um “talento” que pela força supostamente miraculosa de sua aparição logre mitigar o rastro dos pesadíssimos investimentos decisivos na conquista de uma reputação. Assim, a glória nas letras e nas artes é desde há muito apresentada como uma eclosão inexplicável à qual todos poderiam inocentemente aspirar, um tipo de ponto fora da curva que descreve os altos e baixos da escala meritocrática na qual misteriosamente tão bem as aristocracias burguesas sempre se saem. Desde uma perspectiva “puramente estética”, isso tudo é pouco visível e mesmo de relevância bastante secundária frente a uma história que se consome, às vezes de modo até cômico, em narrar desavenças entre correntes e grupos de “ismos” formados por revistas, editoras, manifestos, coletivos e até gerações inteiras. Porém, quando já observados de fora do sistema literário, tais embates (1) simplesmente não existem; (2) são encarados como o luxo de um enfretamento diletante; (3) ou são de fato sobredeterminados pela efetividade do poder extraliterário dos adversários que se digladiam pelo reconhecimento. Nos dias de hoje, contudo, a emulação massiva desses encastelamentos, pela força gregária que imprimem às suas atuações partidárias, acaba por perturbar a própria expressão da singularidade que noutros tempos melhor definia uma voz postulante ao reconhecimento. Mas isso que na atualidade tanto se aviva, guarda antecedentes bem determináveis. Para Alfonso Berardinelli, na Modernidade, “[...]grupos e tendências organizadas, ou partidos políticos da arte, têm também uma função autopromocional: dão segurança, força, garantias, proteção aos artistas individualmente, em sua luta por concorrência no mercado. Em suma, os partidos políticos da arte também são agências de promoção e colocação. Os artistas de um grupo de vanguarda se apresentam e se compram em bloco. E isso faz diminuir, para cada um deles, os riscos de fracasso e de exclusão. A garantia oferecida por um manifesto e a legitimação histórica fornecida por uma ideologia anulam ou mascaram os problemas de maior ou menor sucesso de cada artista e cada produto artístico.” (Berardinelli: 2007:179). 

Mas quem ainda não notou haver atualmente inúmeros poetas escrevendo exatamente do mesmo jeito? Quem ainda não teria percebido que isso é fomentado por cursinhos de truques & macetes para candidatos a escritores que já sem pejos lançam-se à cena pública sem uma mínima carga de leitura? Quem ainda não percebeu que o jogral dos contemporâneos dissimula com frequência uma desafinação generalizada? Quem já não concluiu que as desabridas loas em órgãos de imprensa provêm de meros contatos privilegiados no campo jornalístico? A despeito da ausência de projetos estéticos consistentes, e diante da avidez pela notoriedade a qualquer custo, é crucial que os concursos literários estejam muito bem precavidos contra as ingerências desses partidos estéticos que, outrora revolucionários na época áurea das vanguardas, agora já se tornam títeres de espúrios interesses comerciais, isso para não se mencionar os gurus que movimentam seus seguidores e seus "talentos revelados" como peças de um tabuleiro em franca guerra de posições. Por óbvio, esse processo não é exclusivo da cultura brasileira - que, entretanto, o agrava com comportamento tardoperiférico de seu elitismo disfarçado. Ele enraíza-se na institucionalização das vanguardas que provocou uma normalização do experimentalismo e da afoiteza contestatória. Abordando o envelhecimento da Modernidade, apontado por Adorno, e a incorporação dos discursos experimentais à academia, Alfonso Berardinelli sustenta que “o público burguês clássico, escandalizado e ultrajado pelas vanguardas históricas, fora adestrado pela crítica e se transformara em público neoburguês avançado e condescendente, que considerava a transgressão vanguardista o primeiro mandamento cultural.”(Berardinelli, 2007:178). 

Seria então esperar demais que um júri estivesse atento contra o endosso a esse público neoburguês e a modorra de suas vanguardas adestradas? Creio que não, desde que tal júri pudesse tomar a distância necessária para avaliar uma conjuntura estética sem simultaneamente protagonizar algum papel na sua dinâmica concorrencial. Para tanto, e sem aqui almejar uma impossível neutralidade axiológica, os certames públicos devem ao menos agenciar a imparcialidade pela estrita legalidade dos seus procedimentos tanto quanto pelo equilíbrio real das forças concorrentes. Todavia, nada disso funcionará a contento se não forem vigorosamente inibidos os vis sentimentos de inveja e de tendência ao bloqueio de acesso aos espaços de visibilidade que animam certas escolhas. A maneira mais prática de se obstar tais sentimentos baixos e altamente reativos é estabelecer que um competidor do mundo literário não possa ser, ao mesmo tempo, um julgador que se sirva dos critérios da sua obra ou do credo estético do seu grupo para determinar a aprovação ou a rejeição de outros autores. No Recurso que dirigi pedindo a anulação do Prêmio Alphonsus de Guimaraens à Biblioteca Nacional reafirmei a seguinte compreensão: “a dificuldade de profissionalização do setor cultural no Brasil incita diversos operadores do mundo literário a uma espécie de ubiquidade: das mesquinhas disputas de poder à mais chã necessidade de sobrevivência financeira, vejo poetas promissores paralisando suas obras e sendo levados a desempenharem funções simultâneas de críticos, ministradores de oficinas, sócios de editoras, jornalistas, agitadores culturais, curadores, promotores de revistas e, ainda, de jurados – jurados tantas vezes levados à constrangedora situação de avaliarem os mesmos novos autores apresentados por eles ou ‘revelados’ em seus próprios cursos e oficinas. Absolutamente nada disso é ilegal, apenas compondo antes o quadro de nossa sofrível precariedade institucional. Mas assevero que o exercício cumulativo de tais e tantas funções acaba por prejudicar gravemente um juízo crítico que, em um concurso, há de ser emitido em estrita observância aos princípios da transparência, da moralidade, da impessoalidade e, sobretudo, da motivação fundamentada. Importantes sociólogos no século XX demonstraram, inclusive com pesquisas empíricas, que o campo literário não tem, de fato, o caráter de uma confraria de amigos que às vezes pretende manifestar. Ele é, isso sim, um sistema essencialmente competitivo, no qual está em permanente disputa a rara e árdua excelência estética, no que a lisura das premiações públicas desempenha um papel capital de objetivação das veleidades e dos relativismos dos gostos meramente pessoais, engajando os julgadores na responsabilidade pública de suas escolhas.”.

Invoco, em contrapartida, o caso paradigmático do prêmio Nobel. Por que todo esse seu prestígio? Além do valor elevado do prêmio e de seu singular alcance mundial, em tempos de Guerra Fria, os júris do Prêmio Nobel não hesitaram em agraciar conservadores e comunistas. Além disso, em uma mesma instituição, um júri de literatura subitamente deparou-se com os critérios objetivos das ciências naturais em matéria de originalidade e precedência dos inventos e descobertas de seus agentes – coisas seguramente custosas de se verificar no terreno humanístico, mas ainda mais difíceis de ser impugnadas como ideais. Isso, porém, não significa que o Nobel não tenha lá seus inúmeros problemas. Alguns deles nas duas últimas décadas inclusive se agravaram, sobretudo desde a guinada multiculturalista dessa premiação. Mesmo assim, creio que em certos momentos os júris do Nobel souberam colocar a qualidade e a universalidade da arte acima e além de caprichos e interesses mais transitórios, sem tampouco deixar de se posicionar, às vezes quase rotativamente, sobre quem melhor representava uma excelência estética imediatamente brandida pelo séquito dos seus admiradores e confrades de agremiação ideológica. Mas seria uma tolice colossal supor que a humanidade toda, a cada ano, só gere um mísero nome de destaque internacional. Qualquer júri sério frequentemente se vê condenado a estabelecer uma hierarquia de posições artificiais entre vozes cujas peculiaridades as tornam absolutamente imprestáveis a qualquer paralelo ou escalonamento. Tal circunstância se dá quando um nível de disputa pela originalidade acirra-se de modo positivamente exacerbado. E quem ganha com isso são sempre os leitores mais esclarecidos, aqueles que, tendo as suas preferências bem constituídas, já olham sem muita ilusão as tarjas e os selos com a palavra “prêmio” apostos sobre as capas. 

No âmago da discricionariedade fundamentada sempre cintilará a subjetividade que a governa. Mas esta não pode se exercer de uma maneira fetichista e desonesta, muito especialmente porque sempre há de deixar inúmeros rastros e indícios para ser objetivada em uma descrição de suas formas sociais de ocorrência. Também é verdade, no universo das obras produzidas por e para comentário, que a encenação de certo “interesse no desinteresse” busca transmitir a ideia da arte e da cultura como lazeres estudiosos que atingem a fineza de levar a sério coisas de ordem lúdica (Bourdieu, 1988:499). Vinculando-se à elegância da leveza, a doxa literária procura resistir à objetivação que pudesse revelar as suas afinidades mais estritas com inúmeros agenciamentos do poder: ela procura a custo manter a “illusio que é a condição do funcionamento de um jogo do qual também é, ao menos parcialmente, o produto.” (Bourdieu, 1988:373). Contra essa despistagem, muitas vezes um simples mapa de proximidades e relações (de ordens profissional, acadêmica, política ou até mesmo familiar) dirá mais e melhor sobre os percalços das escolhas subjetivas do que toda a parafernália de articulações estéticas que se possa oferecer em nome de um discernimento supostamente especializado. Ao cabo, um regime de reconhecimento pode experimentar vícios de diferentes ordens, até o limite de o seu funcionamento tornar-se completamente corrompido. A propósito da precariedade dos circuitos de consagração, Bourdieu afirma que eles se tornam “mais potentes quando são mais longos, mais complexos e mais ocultos aos próprios olhos dos que participam e deles se beneficiam.[...] Quanto mais complicado é o ciclo de consagração, mais ele é invisível, mais a sua estrutura é irreconhecível, maior o seu efeito de crença” (Bourdieu, 1984:206).

Competição justa e chance de alternância são expressões vitais e complementares para que os competidores de uma premiação simplesmente não abandonem a arena revoltados, denunciando a fraude de um falso triunfo. Entretanto, mesmo com muita transparência e honestidade, o regime de reconhecimento em vida sempre guardará seus limites estruturais sem exaurir o juízo sobre a excelência de obras feitas para durar perante outros públicos. Tampouco o exclusivo acesso a prêmios pode ser considerado o indicativo absoluto da qualidade de um escritor. Nem Proust, nem Kafka, nem Borges, nem Machado de Assis, nem diversos outros autores desse jaez receberam o Nobel ou distinções de semelhante destaque. Grandes autores também se constroem contra e apesar do senso estético de seus tempos, tirando a certeza sobre os seus trabalhos de um empenho descomunal e de alguns reconhecimentos críticos precursores. Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, capciosamente afirma no seu Livro do Desassossego que “[...] o prazer da fama futura é um prazer presente – a fama que é futura.”. Um extremo desses casos de denegação do reconhecimento envolve a insólita consciência da própria genialidade. Quando isso não se converte em um patético delírio narcisista, pode produzir uma arte ainda mais potente porque aliada a uma impostura de retirada e escárnio, coisa que também ocorre na versão de uma crítica humorada e virulenta à paralisia experimenta por um sistema de aclamação dominado por monopólios e endogenias. A esse respeito, e em perspectiva comparada, recomendo a leitura do MANIFESTO ANTI-DANTAS (1916), de José de Almada Negreiros (há no Youtube uma interpretação espetacular de Mário Viegas) e do seminal ensaio Heróstrato, ou futuro da celebridade, de Fernando Pessoa.

No panorama dos séculos XX e XXI, assim como a poesia foi arredada pelo romance, este vem sendo substituído no imaginário social pelo cinema, essa maneira essencialmente moderna de se contar histórias e que já se encontra perigosamente à beira de ser fundida com a realidade virtual do entretenimento. Entretanto, a poesia não guarda apenas um conjunto de histórias a ser narradas. Ela é o que permite a existência dessas próprias histórias ao se confundir com a experiência mesma da linguagem no horizonte transmissivo da temporalidade, preservando assim a mais alta inteligência de uma língua em matéria (1) de ideação e compreensão de imagens e conceitos, (2) de possibilidades vocais e acústicas (rítmicas, rímicas, tonais e melódicas, que não se confundem com a música) e (3) de um potencial transgramático de incorporação e violação de regras. Em meu projeto estético e intelectual, venho pesquisando o fenômeno poético a partir da hermenêutica, da linguística, da antropologia, da neurologia e até da genética, buscando um entendimento da relação entre a manualidade dos utensílios e os processos de nomeação que virtualmente ampliam o estoque de dizibilidade do pensamento ao revelar o modo de operação de nossas sutilíssimas estruturas metonímicas e metaforizantes - sim, a poesia é também um permanente campo de estudo e experimentação. Logo, em virtude dessa sua natureza excepcional e fundante no quadro geral da artes, da cultura e mesmo do conhecimento, acredito que a poesia careça de ser protegida e promovida pelo Estado e pela educação pública, haja vista que uma instituição como o mercado não pode dar conta do alto valor que ela gera, acumula e generosamente doa sem muito se preocupar com restituições financeiras. Por isso o valor venal da poesia é tema simultaneamente pouco relevante para o ethos criativo dos escritores e de grande investimento demagógico para as editoras, que buscam se impregnar da ética autoral disfarçando o seu (des)interesse comercial na multiplicação diversificada de produtos ofertados e no amplo retorno indireto de mídia que a interação entre eles proporciona. De todo modo, a circulação da poesia é e continuará sendo anterior à mercancia dos livros, como bem demonstram os sítios, os blogues, as revistas eletrônicas e as páginas especializadas que chegam a tornar despiciendas as próprias obras impressas. Outrossim, ao discorrer aqui sobre as relações entre um ideal crítico e a sociologia da literatura, não pretendo insinuar que os diversos a(u)tores dedicados à crucial atividade de divulgação da poesia, o mais das vezes graciosamente, devam ser postos sob suspeita. Muito antes pelo contrário: com seus eventos, comunidades virtuais e revistas, eles devem é ser muito bem estudados, mesmo por que, ao atingirem boas visões sistêmicas parciais e ao franquearem espaço a vozes silenciadas, oferecem, com seus repertórios de apostas e preferências, um ótimo quadro de agentes concretos, alianças objetiváveis e tomadas de posições.

Enquanto atividade de resistência, a poesia tornou-se estrategicamente essencial no combate ao encolhimento drástico das sintaxes, dos vocabulários e das inteligências verbais, sobretudo das crianças expostas à drástica transformação tecnológica da produção e circulação dos códigos comunicativos, em especial visuais. Submetidas aos espantosos volumes da cultura de massas, as sociedades periféricas atravessam um agravamento da imbecilização de milhões de seus indivíduos mundo afora. Tal acontecimento é também propiciado pela fanorreia que mergulha o mundo discursivo em um espesso lodo de imagens enquanto anula a própria possibilidade de qualquer assimilação processada de definições, sentidos e sentimentos, fomentando uma conjuntura cognitiva muito mais perniciosa que a da chamada alienação nos séculos XIX e XX. Gerações completas de jovens assintagmáticos vem tendo as suas aptidões intelectuais gravemente comprometidas por uma sonegação de acesso às experiências formadoras da linguagem nos espaços da educação formal e da cultura. Em nome do manejo estatístico de índices de desempenho educacional, milhões de crianças brasileiras passam a acumular gravíssimas dificuldades em formar frases, articular e coordenar pensamentos, engrossando legiões cada vez maiores de analfabetos funcionais saídos de um sistema de ensino que muito aprova e cada vez menos educa.

Por estar envolvidos nesse compromisso simultaneamente ontológico e político com a preservação das condições da linguagem humana é que os poetas não devem permitir que a poesia torne-se apenas mais uma ridícula arena de vaidades medidas por critérios comerciais. Nenhum artista realmente digno dessa qualificação escreve para ganhar prêmios. Entretanto, é absolutamente justo (e diria hoje ainda mais: imperioso) que ele os ganhe quando de fato fizer jus a tais distinções, podendo então fazer da sua escrita o seu trabalho e logrando assim afastar-se daqueles que têm na arte só um entretenimento ou um mero meio de abiscoitar indicadores de prestígio e sofisticação nas relações sociais.

Há algum tempo conheci pessoalmente dois poetas cujas obras imediatamente considerei bem superiores àquela que eu mesmo vinha preparando. Desde então, passei três anos tentando compreender o que eles faziam para, sem copiá-los, superar as questões que suscitavam e as soluções que tão naturalmente atingiam. Poucos meses atrás fui procurá-los e, para minha total decepção, ambos haviam desistido da poesia: não escreviam mais e sequer interessavam-se por autores novos. Um deles prestou concurso para uma autarquia, o outro voltou para o interior e agora vende automóveis usados. É disso que estou falando: de bem pouco, mas justamente daquele mínimo para uma subsistência digna que, no caso de certos escritores, envolve até a possibilidade de compra de alguns livros, esse cada vez mais caro pão de nossa alma. De outro lado, observo que junto desses e de tantos outros desistentes, sempre estiveram também aqueles autores predestinados ao renome: os bem nascidos e relacionados que movimentam amplas cargas de contatos sociais e heranças familiares. Esses já surgem com um acesso facilitado à imprensa e à academia, leia-se: acesso à autopublicidade e aos efeitos de autoridade do comentário erudito. As calculadas estreias desses predestinados são cercadas de muitos preparativos, até que, repentinamente, voilà: eles são “descobertos” como “talentos” e “sensações” de alguma ocasião inventada pelo fluxo dos mercados sempre cobiçosos por novos produtos. Em regra, há por trás do “talento” dessas “grandes novidades” das vitrines midiáticas uma poderosa estratégia disso que venho chamando “fabricação da consagração”, um conjunto de procedimentos que devem ser sociologicamente apurados em suas minúcias a fim de que sejam revelados como um fator de desequilíbrio em uma competição, sobretudo quando patrocinada às expensas do Estado e de um debate supostamente honesto de argumentos críticos. 

Da sementeira paga de “jovens talentos” às entrevistas constrangedoramente vácuas arranjadas em grandes órgãos de imprensa, a “fabricação da consagração” desencadeou uma corrida pelo status de celebridade literária. No Brasil, a natureza artificiosa desse tipo de reconhecimento a fórceps ainda robustece a sua (auto)legitimação com números de vendagem que tentam aproximar a excelência estética da mensurabilidade dos resultados econômicos alcançados com um público indiscutivelmente minúsculo e mal formado. Nesse caso, a poesia passa a ser avaliada pelos mesmos critérios de êxito da autoajuda que, literal e literariamente, empurra a arte para baixo, (1) endossando a facilidade que nega aos leitores o acesso às conquistas da melhor escrita, (2) acumpliciando-se com a múltipla falência da educação e (3) vinculando-se ao culto da futilidade que converte o autor em um macaco de auditório permanentemente obrigado a peregrinar por eventos nos quais deve agradar sua plateia com gracejos, reprimendas politicamente corretas e até acenos terapêuticos. 

Noutro sentido, em nome das chamadas “intertextualidades”, certa crítica contemporânea pretende facilitar o seu trabalho renunciando à empreitada analítica e passando a coescrever outra obra em alegado “diálogo” com aquela que se deveria examinar. Ora, quando o crítico que assim procede é um Roland Barthes, ou alguém de semelhante estofo, a coisa anda mesmo às mil maravilhas. Ocorre, porém, que críticos dessa envergadura intelectual são cada vez mais raros. Em regra, o que então se observa em nome da tal intertextualidade é um uso aparatoso de alguns floreios filosóficos e outras tantas invocações de autoridade capazes de só produzir um ensaísmo epidérmico e inconclusivo, eivado de cacoetes retóricos facilmente detectáveis na tentativa de se enredar um autor tíbio pela teia forte de algum clássico ou de um representante da última moda intelectual, nesse caso, provavelmente oriunda daqueles centros exportadores de tendências teóricas que fatiam o mundo da cultura em nichos correspondentes a diversos segmentos políticos, étnicos, sexuais, econômicos, ambientais, religiosos e mercadológicos. É também nesse sentido que a competição entre obras e autores subitamente passa a ocorrer como epifenômeno da luta entre frações de mercados que tanto criam como atendem demandas identitárias. 

Ao fim e ao cabo, um concurso de premiações inevitavelmente reveste-se de uma dura natureza meritocrática jamais completamente imune às injustiças, inclusive as de origem socioeconômica, e essas, não podendo ser reparadas com algum saneamento administrativo, acabam por ser reproduzidas pela implacável seletividade da profissionalização no mundo das artes. Por isso é muitíssimo urgente que o sistema literário (isto é: você que está agora lendo isso) mostre-se vigilante e mesmo desconfiado em relação a esse estado de coisas que passa por uma via nevrálgica de nossa tépida democracia: o direito não apenas de ser poeta, mas também o de almejar ser reconhecido como tal. Eis a tônica republicana e igualitarista que eu gostaria que permeasse o debate estético e político sobre o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, cuja nulidade da atribuição solicitei ao Presidente da Fundação Biblioteca Nacional pelas razões constantes no Recurso que pode ser lido por aí. 

Atravessamos uma situação de genuíno loteamento da cultura por uma mesma meia dúzia de grupos que vendem carissimamente o seu entretenimento ruim para governos que terceirizaram a educação e as artes. O encontro entre os interesses privatistas e a vaidade desmesurada dos que apelam à “fabricação da consagração” fazem a literatura, e a poesia em especial, experimentarem um delírio autista: o de que estamos atravessando um momento de ampla fertilidade e expansão do público leitor. Mas como isso seria possível, se o letramento no Brasil atinge as raias escandalosas do analfabetismo funcional? Entre podricalhos e multisseculares negociatas, prosseguimos com esse esse sinistro arranjo de uma elite parasitária e nepotista, sempre aguardando as benesses públicas para a perpetuação de sua índole fraudulenta. Dissimulada agora nos ares democráticos da Civilização do Edital, a cultura praticada por essas elites (1) torna-se excessivamente dependente do financiamento público, (2) sem jamais chegar a formar um verdadeiro mercado consumidor de bens espirituais e (3) ainda fazendo com que as relações entre o gosto e o público sejam mediadas por um corpo de atravessadores frequentemente despreparados e/ou já transversalmente interessados em suas próprias opções. As afinidades seletivas elegem os que serão dignos de ingresso em um circuito doravante chancelado por participantes especiais que prescindiram tanto do discurso ajuizante com das preferências populares mais autênticas. 

Todavia, esmagado entre a plebe rude do entretenimento e o sofisticado clube dos (auto)escolhidos, subsiste um grupo de autores autênticos, jovens e maduros, ingênuos e céticos, errando de porta em porta com originais que tantas vezes guardam insuspeitas maravilhas e fortes indícios de carreiras promissoras. Tais autores não podem depender apenas da duvidosa simpatia de algum curador privado que, comportando-se como um marechal de patota, busca antes de tudo novos apadrinhados que reforcem os seus próprios poderes de decisão, sobrevivendo mais dos vícios que das virtudes de um sistema literário cuja fragilidade já vem sofrendo a dura concorrência dos vorazes e hiperprofissionais “publishers” norte-americanos. 

Imaginemos então algo diferente: não seria formidável se os Ministérios da Educação e da Cultura, querendo de fato amparar as tais edições não comerciais, editassem alguns milhares de uma antologia de poetas de todo o Brasil, escolhidos até sem ordem hierárquica de classificação em concursos transparentes e rigorosos, organizados pelo sistema universitário? Talvez nem existam 50 poetas publicáveis em todo o país. Estou aqui arbitrando esse número. Talvez sejam só 30, ou quem sabe apenas 20, dentre os quais só dois ou três realmente notáveis. Imaginemos ainda que faria parte desse concurso a obrigatoriedade de que a obra fosse distribuída pelas escolas públicas e particulares de todo o país, instituições que seriam então visitadas pelos autores escolhidos a fim de ministrarem cursos complementando o ensino regular e curricular de artes e de literatura no gênero poesia, apresentando lá as suas produções e seguindo um programa de ensino estabelecido segundo um mapa de diversidades regionais. Já imaginaram um poeta do Ceará mostrando o repente e a embolada nas escolas gaúchas e ainda falando do seu trabalho? Ou já imaginaram um aluno de Minas Gerais aprendendo a poesia de Drummond ensinada por um poeta da Paraíba? E se os paulistas fossem falar do concretismo no Acre, será que voltariam mais índios e menos bandeirantes? E se Castro Alves fosse mais conhecido fora da Bahia? Que tal se ainda trouxéssemos alguns poetas portugueses para falar de Camões e de Pessoa no Piauí? E se eles também viessem de algum país lusófono da África, ou de Macau e do Timor Leste? E se para lá também fossem os nossos autores em missões culturais ligadas menos à publicidade e ao marketing das feiras literárias e bem mais ao sistemas educacionais? Necessitamos introduzir essa dimensão estratégica da lusofonia na avarenta vaidade que rege as altercações sobre a poesia, esse patrimônio intelectual e estético que há de ser posto a serviço de milhões de pessoas, sobretudo crianças e jovens em idade escolar. É imperioso romper com a lógica socialite da literatura como uma noite de gala em que escritores falam e escrevem para escritores que logo começam a se detestar e a escrever para si mesmos sobre essa própria detestação. 

Walt Whitman certa vez afirmou que não existe grande poeta sem um grande público. Concordo plenamente com essa afirmação. E penso ainda que essa grandeza é também uma questão de contingente: formar milhões de leitores argutos e perspicazes, muito mais do que poucas dezenas de autores precários, é uma medida altamente sediciosa no contexto das democracias semianalfabetas de países como o nosso, com tanta riqueza material concentrada e que distribui tão generosamente a sua pobreza espiritual, essa miséria impossível de ser medida por qualquer índice conhecido. Quando a profissionalização dos escritores maciçamente encontrar a formação de um autêntico público pelo sistema educacional (não por nebulosas ONGs, nem por via do marketing cultural ou de parcas bolsas de exceção), seguramente teremos menos queixosos da sua orfandade de leitores e talvez até possamos ter melhores poetas, pois o acesso prazeroso e precoce à monumentalidade da tradição literária fomenta a consciência da difícil originalidade ao mesmo tempo em que dissuade os incautos, frustra os oportunistas e enxota os diversos Dantas que grassam por aí. Quem sabe então, lenta e progressivamente, a venda de livros aumente e assim se dissipe o dandismo dessas caricaturas da afetação que ridiculamente reclamam a voz e a vez dos bardos entre o blasé bronzeado e o visceral acéfalo, essas atitudes de requentamento de ocos formalismos e cafonas plangências performáticas que só ganham espaço graças à minguada exigência dos leitores.

A formação desse leitorado escolar teria por objetivo uma aproximação efetiva entre a cultura e o sistema educacional. Ele custaria apenas alguns trocados para o orçamento dos governos e ainda uniria de modo concreto os atores acadêmicos aos mundos do ensino e da produção literária. Em contrapartida, isso tudo frutificaria em leitores cativos e na estabilidade para a carreira de alguns autores aspirantes, tornando o ulterior acompanhamento das premiações algo de interesse efetivamente público, nada que se pareça com essa rinha entre dois ou três galos depenados seguidos de uns pintos implumes. Por ora, e em perspectiva bem mais modesta, continuo pensado no saco de sorteio dos jurados que mencionei no começo desse texto. Seria altamente louvável se aqueles que lidam com a responsabilidade das láureas e dos galardões lembrassem que o tempo julga os julgadores, pois, como disse Camões a respeito de honrarias e prêmios

Melhor é merecê-los sem os ter
Que possuí-los sem os merecer.

______________

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERARDINELLI, Alfonso. Da Poesia à Prosa. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

BOURDIEU, Pierre . Questions de Sociologie. Paris: Les éditions de Minuit, 1984. 

BOURDIEU, Pierre. Les Règles de l'art. Genèse et structure du champ littéraire. Paris: Seuil, 2002. 

PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego (ed. Richard Zenith). Lisboa: Assírio & Alvim, 2007.

PESSOA, Fernando. Heróstrato e a Busca da Imortalidade (ed. Richard Zenith). Lisboa: Assírio & Alvim, 2000
RECURSO AO PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL SOLICITANDO A ANULAÇÃO DO RESULTADO DO PRÊMIO DE POESIA ALPHONSUS DE GUIMARAENS DO ANO 2012 E A CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO JÚRI PARA O CERTAME


Ilustríssimo Senhor Galeno Amorim
MD Presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN)


Ao cumprimentá-lo, venho pelo presente interpor RECURSO FUNDADO NO ITEM 9.3 DO EDITAL DOS PRÊMIOS LITERÁRIOS DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL 2012 E NA LEI N. 12.527/11 (LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO), solicitanto a IMEDIATA ANULAÇÃO da atribuição do Prêmio de Poesia Alphonsus de Guimarães à obra CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POESIA 1930-62, publicada pela Editora Cosac Naify, de autoria de Carlos Drummond de Andrade e inscrita por Bernardo Ajzenberg, em uma decisão tomada pelo júri integrado pelos Senhores Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Carlito Azevedo), Francisco Estevão Soares Orban e Leila Míccolis. 

Passo a expor abaixo as razões e os fundamentos da solicitação:

1. O livro em questão sofreu uma errônea avaliação pelo júri: foi considerado como contribuição crítica à obra de um poeta consagrado, Carlos Drummond de Andrade, em um certame que não poderia avaliar ensaios ou textos desse teor, mas apenas poesia propriamente dita. Além disso, sequer enquanto antologia organizada segundo um recorte temporal tal obra, apresentada como edição crítica, poderia concorrer, haja vista que o próprio Carlos Drummond de Andrade já havia coligido os dez livros que a integram na antologia de nome REUNIÃO, publicada em 1969 pela editora José Olympio.

2. Assim, o certame há de ser ANULADO e um novo júri constituído, pois este enganou-se no proferimento de sua decisão, escolhendo justamente como contribuição crítica a ÚNICA obra de um autor falecido em um concurso que contou com 153 autores vivos que pleitearam inscrições com obras genuinamente autorais de poesia. Em razão disso, todo o item 2 do Edital foi violado pela habilitação da obra CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POESIA 1930-62. 

3. Outrossim, é indiscutível que o Prêmio Alphonsus de Guimaraes somente pode ser atribuído a autores vivos, posto que representa uma importante distinção em um gênero cada vez mais inflacionado pelo alto volume de diletantes. Cumpre ainda recordar que inclusive um dos jurados, o Senhor Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Carlito Azevedo), já foi agraciado, em 1991, com o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, justamente por uma antologia sua e sem nenhum aparato crítico. Caberia então digressionar: como teria ficado ele, à época, se algum detentor de direitos autorais resolvesse, por exemplo, inscrever uma Edição Crítica de Fernando Pessoa? Talvez o Senhor Carlito Azevedo ficasse sem o seu estimado – e creio: muito merecido – Prêmio e, sem ele, talvez não compusesse o júri que agora integrou. Logo, a projeção de uma cadeia de consequências retroativas nesse cenário hipotético, ao incluir autores falecidos em premiações contemporâneas que não contemplam nenhuma hipótese de atribuição de uma láurea póstuma ou “in memoriam”, desenha algo de patético e incompatível com a urgência do fomento à poesia de alta qualidade no Brasil, objetivo maior colimado pela premiação da Fundação Biblioteca Nacional, instituição de alta credibilidade e que tem hoje à sua frente ninguém menos que Vossa Senhoria, um especialista em políticas públicas sobre o livro e a leitura. 

4. O próprio Senhor Azevedo, em publicação na rede social Facebook, estranhou a habilitação do livro ora impugnado: “Então porque é que (sic) o incluíram na caixa de ‘livros habilitados’ para o concurso?”. Mas, estranhamente, ele o disse para, em seguida, enaltecer o seu caráter crítico, aduzindo ainda, nesse seu mesmo texto da rede social, que os jurados fizeram constar na Ata do Concurso que a obra escolhida haveria de servir como estímulo a outras edições críticas (mencionando João Cabral e Murilo Mendes) e que, tendo decidido por Drummond, ele não temia aqueles a quem chamou de os seus “linchadores”. Ora, há nisso ao menos quatro erros grosseiros que se superpõem: PRIMEIRO) a negligência da FBN na habilitação de uma obra crítica de poesia que sequer é inédita, de um autor falecido (e consagradíssimo); SEGUNDO) a escolha inválida do júri justamente dessa mesma obra e em razão das virtudes do seu aparato crítico; TERCEIRO) a má compreensão da função de um prêmio destinado a autores vivos; e QUARTO) a deplorável insinuação de que a crítica pública ao exercício de uma função pública de jurado, aceita voluntariamente, possa constituir algum tipo de “linchamento”. 

5. Ainda ontem (dia 26/12/2012), ao contactar o funcionário da FBN responsável pelo concurso, Senhor André Benitez , foi-me informado que ele não estava em seu posto e que me “atenderia” por e-mail (até o momento sem resposta). Decidi então buscar na internet o contato com os membros do júri. E foi aí que, para minha surpresa, deparei-me com uma fotografia, datada do dia 15/12, desse mesmo júri reunido. Indago então a Vossa Senhoria: estaria o júri do Prêmio Alphonsus de Guimaraens deliberando antes mesmo da fase de inscrição ser concluída, o que só aconteceria no dia 18/12? (foi no dia 18/12 que recebi o e-mail da FBN em resposta ao meu recurso por inabilitação causada por um suposto CPF inválido). Para dirimir essa dúvida, solicito então a Vossa Senhoria, nos termos da Lei de Acesso à Informação (Lei n. 12.527/11), a pronta divulgação da Ata de Reunião desse júri, a fim de que se verifiquem as suas assinaturas, datas e lugares dos encontros e eventuais testemunhas. Contudo, em contato telefônico acontecido hoje (27/12) e ainda há pouco, o senhor Tuchaua Rodrigues, funcionário em Cargo de Comissão da FBN, muito pronta e gentilmente esclareceu-me que todos os livros, os habilitados e os inabilitados, foram ao cabo entregues aos jurados, que, assim, os analisaram independentemente da validade de suas inscrições. Vou aqui me eximir de uma apreciação a respeito da racionalidade desse procedimento. Apenas mencionarei o quão irresponsável e abusivo é exigir de um júri de poesia a análise de 154 obras (cento e cinquenta e quatro) em poucos dias e ainda na véspera das festas natalinas. 

6. Entendo ainda que a FBN violou os itens 2.1 e 2.10.1 do Edital, que determinavam que os recursos à inabilitação das inscrições fossem enviados para um endereço postal físico, passando a recebê-los por via eletrônica. Isso já seria juridicamente suficiente para anular TODOS os Prêmios do Concurso, pois dezenas (e talvez mesmo centenas) de autores foram confundidos por essa duplicidade inexplicável de critérios. Reza o dispositivo do edital: “O recurso deverá ser remetido para análise no endereço descrito no item 2.10.2 deste edital.” Já o site da BFN instruía que os recursos fossem encaminhados ao e-mail “economiadolivro@bn.br”. E, como se não bastasse tudo isso, após uma infrutífera pesquisa de meu nome no Diário Oficial da União, indaguei, por telefone, a um funcionário da FBN em que data havia ocorrido a tal publicação das inscrições homologadas, conforme determina o mesmo Edital, e o mesmo respondeu-me que “isso custaria mais de R$ 20.000,00 e que então se decidiu que a publicação ocorreria apenas no site da própria Biblioteca Nacional”. Outra vez, algo inadmissível para a legalidade de um concurso que se rege pela Portaria MinC nº 29/2009, entre outros dispositivos legais e constitucionais. 

7. O presente Recurso não pretende suscitar polêmicas vãs ou macular os dignos nomes dos membros de um júri que tem inclusive a chance de se retratar do seu equívoco publicamente. Tampouco pretendo desmerecer o alentado esforço ecdótico do Senhor Julio Castañon, da Fundação Casa Rui Barbosa, na preparação da obra inquinada. Pretendo apenas ter aqui apontado a responsabilidade maior da FBN nas falhas pela organização geral do concurso e pela sucessão dos acontecidos, esperando de Vossa Senhoria as devidas medidas corretivas. E imagino que Vossa Senhoria possa até partilhar de ao menos alguns elementos das convicções que me animaram a interpor o presente Recurso: a dificuldade de profissionalização do setor cultural no Brasil incita diversos operadores do mundo literário a uma espécie de ubiquidade: das mesquinhas disputas de poder à mais chã necessidade de sobrevivência financeira, vejo poetas promissores paralisando suas obras e sendo levados a desempenharem funções simultâneas de críticos, ministradores de oficinas, sócios de editoras, jornalistas, agitadores culturais, curadores, promotores de revistas e, ainda, de jurados – jurados tantas vezes levados à constrangedora situação de avaliarem os mesmos novos autores apresentados por eles ou “revelados” em seus próprios cursos e oficinas. Absolutamente nada disso é ilegal, apenas compondo antes o quadro de nossa sofrível precariedade institucional. Mas assevero que o exercício cumulativo de tais e tantas funções acaba por prejudicar gravemente um juízo crítico que, em um concurso, há de ser emitido em estrita observância aos princípios da transparência, da moralidade, da impessoalidade e, sobretudo, da motivação fundamentada. Importantes sociólogos no século XX demonstraram com pesquisas empíricas que o campo literário não tem, de fato, o caráter de uma confraria de amigos que às vezes pretende manifestar. Ele é, isso sim, um sistema essencialmente competitivo, no qual está em permanente disputa a rara e árdua excelência estética, no que a lisura das premiações públicas desempenha um papel capital de objetivação das veleidades e dos relativismos dos gostos meramente pessoais, engajando os julgadores na responsabilidade pública de suas escolhas.


8. EM SÍNTESE: por (1) não ter sido a obra premiada inscrita pelo seu autor, que é falecido; por se tratar (2) ou de uma antologia que não é inédita; e/ou (2) de uma edição crítica que foge ao escopo do Prêmio Alphonsus de Guimarães de Poesia, a ser atribuído apenas a autores vivos, solicito a Vossa Senhoria que, nos usos dos poderes lhe conferem o item 9.3 do Edital e o Decreto 5538/04, determine a IMEDIATA ANULAÇÃO do certame e A PRONTA CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO JÚRI a fim de determinar o resultado do Prêmio Alphonsus de Guimaraens do ano 2012, bem como se digne a providenciar a DIVULGAÇÃO DA ATA DE REUNIÃO DO JÚRI ATUAL, conforme o que dispõe a Lei n. 12.527/11 (Lei de Acesso à Informação).

Como um autor que empenhou sete anos na produção de um livro de poemas (ARAME FALADO) respeitosamente solicito a Vossa Senhoria que se empenhe para que a nova disputa seja encaminhada de maneira lúcida e lícita, desejando-lhe bom êxito no solucionamento dos entraves administrativos que cercam um evento cultural dessa dimensão. 

Sendo o que tinha para o momento, coloco-me à vossa inteira disposição para quaisquer esclarecimentos e, ao aguardar vossa manifestação pelo provimento dos pedidos acima formulados, colho do ensejo para reiterar meus votos de elevada estima e distinta consideração, subscrevendo-me. 

Porto Alegre, 27 de dezembro de 2012

Atenciosamente, 


Marcus Fabiano Gonçalves
Obra inscrita: ARAME FALADO

12 maio 2017

Por Acauam Oliveira

"Antonio Candido é uma figura fundamental para mim. São muitas as coisas que aprendi a admirar lendo Antonio Candido, tomando como uma espécie de modelo ideal de conduta. Uma delas é a primazia da leitura do texto\objeto estético, independente das frágeis certezas que podemos ter do lugar de Verdade de nosso horizonte teórico, ou de nossas convicções políticas. Aliás, Antonio Candido nos ensina que o rigor crítico muitas vezes implica justamente em não seguir uma linha teórica específica, mas reter um conhecimento aprofundado de tantas quantas forem as linhas exigidas por seu objeto de investigação. A verdadeira crítica se faz ali onde se torna impossível preencher relatórios de pesquisa.
Sua assombrosa e praticamente impossível capacidade de alinhar rigor e densidade intelectual com um altíssimo nível de clareza e lucidez na escrita é outro de seus traços admiráveis. Candido conseguia aquela síntese tão rara (muito, mas muito rara mesmo) entre professor excepcional e intelectual verdadeiramente relevante, daquele tipo de relevância que não se mede pelo tamanho do Lattes, mas pelo impacto real na existência daqueles que importam. Em um país com altíssimos níveis de analfabetismo, ajudou a colocar a literatura em primeiro plano como instrumento de autoconhecimento do país, instituindo e ajudando a popularizar os cursos de Letras entre nós.
Todas essas características tinham por base a convicção ética profunda de que o Brasil só seria um país decente quando incluísse os mais pobres em seus processos de cidadania. Seu modelo de escrita, que almeja atingir aquele leitor\ouvinte que não domina os jargões especializados (lição modernista, via Manuel Bandeira); sua leitura do texto literário pensado sempre em relação as possibilidades de construção de cidadania; seu desejo de fortalecer e popularizar instituições que sequer existem e pareciam impossíveis no Brasil (lição modernista, via Mário de Andrade). Acredito que até mesmo sua migração das Ciências Sociais para o campo das Letras deve-se a esse anseio de popularização\democratização, falar a mais gente, contribuir mais diretamente.
Se fosse gringo, teria influenciado toda uma geração de críticos literários no mundo. Seria um Bakhtin, Barthes, Foucault. Aqui, ajudou a tornar o curso de Letras um dos mais populares e democráticos do país, além de colocar a literatura no centro das investigações sobre as contradições da sociedade brasileira. Um projeto generosamente radical.
Ainda ontem estava lendo sobre a importância e o impacto da Formação da Literatura Brasileira, o quanto ela já foi acusada de crimes opostos – nacionalismo excessivo, por Haroldo de Campo e pelo multiculturalismo atual, ou pouco nacionalista e lusófilo, por Afrânio Coutinho – o que só confirma seu estatuto de clássico. E fui reconhecendo em meu próprio trabalho algumas convicções profundas, daquelas que se tornam tão suas que você esquece que tem autoria, e que aprendi com Antonio Candido. Uma delas é a noção de que a principal causa da fragilidade do sistema literário brasileiro (apesar de sua consolidação) é a participação ativa no sistema de exclusão dos mais pobres, que regula a ordem institucional do país até hoje. Coisa que tantos hoje afirmam exaltadamente (vejam como a literatura é excludente!), como se fosse uma descoberta recente, quase inédita. Mas em Candido, existe dialética, e esse sistema excludente será o mesmo a produzir obras de grande qualidade estética. O segredo consiste na incorporação reflexiva (ou semi-reflexiva) dessa disfunção na própria forma literária, fazendo de seus melhores momentos um espaço privilegiado de expressão de um pensamento contra ideológico. Um diagnóstico formal que é ao mesmo tempo um horizonte de construção nacional e um posicionamento ético diante da barbárie. Minha própria convicção sobre música popular deriva diretamente dessa percepção de Candido: a de que o sistema cancional é fortíssimo no Brasil justamente por ser espaço radicalmente ocupado pelos mais pobres, realizando simbolicamente aquilo que o país inviabiliza na prática. O exato oposto da posição da literatura, portanto, e que também consegue atingir resultados contra ideológicos (embora seja cooptado frequentemente pela ideologia), mas por razões bem diferentes. Sua força não está na formalização do caráter excludente das instituições nacionais, mas na verdade da sustentação fantasmagórica de uma voz que, pela lógica do país, não deveria existir. A fragilidade no caso não está na inscrição da forma, mas na impossibilidade do salto civilizatório, sistematicamente barrado. “Crime, futebol, música, caralho, eu também não consegui fugir disso ai”. Mesmo sem que Candido aborde diretamente música popular, carrego comigo a mesmíssima convicção, fortalecida pelo contato mais íntimo com sua obra: que o grau de sucesso ou fracasso de uma civilização de mede pelo destino que ela confere aos mais pobres. E é a partir desse horizonte, que é ético, que as obras devem ser avaliadas.

Rigor intelectual, fidelidade aos princípios éticos de forma não reducionista, horizonte de emancipação humana. Antonio Candido nos deixou, mas sua missão (para além da intelectual, humana) foi mais do que cumprida." - Antônio Candido 

16 abril 2017

Já em 1989 -- in: 'A Sucessão na Crise e a Crise na Esquerda' -- José Chasin alertava para os compromissos de classe do PT: 
(Via: Natan Cunha)

“O PT - como partido dos trabalhadores - é por essa via o fantasma idolatrado da esquerda ausente. A quimera palpável de esperanças e perspectivas sem sustentação orgânica, o altar visível de um deus oculto, com cuja galeria de santos e profetas parece ser possível coabitar, uma vez que a simples proximidade física dos trabalhadores, por suposto, faria do PT a trincheira de todos os sonhos revolucionários.
Todavia, esse ledo engano não é uma projeção totalmente arbitrária, mas propiciada pelo fato de que, no PT ou para o PT, tudo se passa como se - movimento sindical fosse diretamente movimento operário, para usar uma expressão que se consagrou justamente por efetuar, ao contrário, a precisa distinção entre ambos. Pela indistinção entre a legítima ação corporativa de setores e frações profissionais e a atuação societária de classe que visa a reconfiguração cabal do universo humano de convivência, é que se esvai a possibilidade do PT se objetivar como uma organização política de esquerda, e ganha corpo, em contrapartida, sua configuração qualitativamente diversa de partido representativo dos trabalhadores situado na esquerda, extremo do arco político compreendido pela equação social da lógica do capital. Identificação entre movimento sindical e movimento operário apoiada sobre a noção reducionista de agente – profissional (sindical) e/ou político, que comparece em detrimento da categoria de classe social. Posto de outro ângulo, para o PT – movimento operário é o movimento sindical operando politicamente, mas sem a mediacão das determinações sociais, ou seja, é a transpiração do agente sindical para o universo político, desconsideradas, portanto, as clivagens sociais determinadas pela antítese estrutural entre capital e trabalho que ordena a sociabilidade capitalista. O que é perdido nessa passagem, e com isto o teor e a direção peculiares de uma política da perspectiva do trabalho, é a própria entificação de classe que medeia entre o movimento sindical e o movimento operário. Trata-se, em resumo, de um transporte para uma política meramente assentada sobre si mesma, isto é, uma transferência politicista para a política, que a própria origem do PT condiciona e explica.
Basta dizer que o PT é o encontro da combatividade sindical dos últimos anos da década de 70, que preencheu de maneira notável o vácuo escandaloso a que fora reduzido até mesmo o movimento corporativo dos assalariados, pela conduta omissa, quando não diretamente desmobilizadora da esquerda tradicional, com os representantes e o clima teórico-ideológico do conjunto de teses elenco mais atrás. De maneira que o renascimento firme e pujante da movimentação dos trabalhadores veio, assim, a submergir na atmosfera politicista, quando buscou os caminhos da organização e das definições políticas. Por consequência, ao inverso do que se daria num rumo de esquerda, com seu desenvolvimento o PT simplesmente politicizou a prática sindical, não extraiu da lógica do trabalho a política que supera a política, isto é, ficou nos limites do entendimento político, não se alçou à política norteada pela razão-social.
Em síntese, o formidável movimento sindical que originou o PT resgatou as lutas corporativas, mas o PT não resgatou, pela submersão politicista, o campo da esquerda, cuja ausência continua sendo sua única notabilidade. No interior dessa brecha o PT é recoberto por uma espuma fantasiosa de esquerda, sem ter ideologia ou prática de esquerda.”

14 março 2017

"Passos rumo ao caos social:
1. Moro, mau como um pica-pau, começa a abordar pessoas e pedir educadamente por uma selfie. Meses depois, com andanças pelo país, são vazados na internet os Moro Files: gigabytes só de selfies de Moro com pessoas até então reputadas cidadãs de bem, avessas ao fascismo e à homolesbotransfobia.
2. As negações aparecem de todas as partes. Dentre as fotografadas, havia uma sorridente eleitora de Freixo que tirava uma selfie no Leblon. "Fui coagida!", disse. Logo a internet fica cheia de memes com o mote e a foto.
3. Em busca de algum, experts em photoshop identificam perfis de classe média. Gente de bem, avessa ao fascismo e à homolesbotransfobia, súbito começa a receber inbox montagens ao lado de Moro, com a ameaça: deposite X, ou eu posto.
4. Eleições de D.A. Brasil afora são decididas após estudantes terem suas contas de Facebook hackeadas e fotos ao lado de Moro postadas.
5. O golpe já é conhecido, mas muitos que constam nos Moro Files se aproveitam disso para negar seu passado espúrio. Clima de insegurança se instaura.
6. No Recife, um aluno de Sociais soca o colega olavete e garante para si a reputação de cidadão de bem inconteste. É imitado Brasil afora por gente consciente.
7. Atrás das grades, a classe média consciente denuncia o avanço do fascismo e do conservadorismo. Declaram-se presos políticos e escrevem à ONU, que ignora. Só o DCM, o Brasil 247 e a Mídia Ninja noticiam esse drama humanitário.
8. Em Curitiba, uma estátua de cera de Moro é feita. Vira ponto turístico e turistas tiram fotos ao lado dela."


Bruna Frascolla

09 março 2017

"O feminismo é multiespecífico!
Hoje eu queria lembrar que, como nos ensina Preciado, o feminismo não é um humanismo, mas um animalismo; ou, por outra, que "o animalismo é um feminismo dilatado e não antropocêntrico e que "não foram o motor a vapor, a imprensa ou a guilhotina as primeiras máquinas da Revolução Industrial, mas sim o escravo trabalhador da lavoura, a trabalhadora do sexo e reprodutora, e os animais. As primeiras máquinas da Revolução Industrial foram máquinas vivas."
Gostaria também de lembrar das autoras ecofeministas, em especial Val Plumwood, que nos explica como o discurso do mestre no ocidente é tradicionalmente aquele do "não marcado diante do outro marcado" e que "o dualismo abrangente da cultura ocidental opõe a esfera da razão (mente, espírito) à da natureza como uma esfera de múltiplas exclusões contendo mulheres, escravos, povos indígenas, não-brancos e animais (e, claro, muito mais, incluindo a vida biológica não-humana, a necessidade e o corpo."
O trabalho das fêmeas (e daqueles que ocupam posições marcadas) é invisibilizado, seus corpos violentados todos os dias. Entre a criminalização do direito ao aborto, o destino das vacas leiteiras, das galinhas poedeiras e das éguas mantidas grávidas para extração de hormônio (que beneficia fêmeas humanas, mas primeiramente dá muito lucro às farmacêuticas), só para ficar em algumas poucas práticas de tortura da vida feminina, há um laço. Entre o apagamento do trabalho doméstico feminino e o trabalho não reconhecido de animais em fazendas, laboratórios e outros, há conexões. Deve haver solidariedade entre nós.
Termino retornando a Paul B. Preciado, feminista que nasceu mulher e tornou-se homem (mas nunca aderiu ao lugar não marcado!):
"A mudança necessária é tão profunda que se costuma dizer que ela é impossível. Tão profunda que se costuma dizer que ela é inimaginável. Mas o impossível está por vir. E o inimaginável nos é devido. O que era o mais impossível e inimaginável, a escravidão ou o fim da escravidão? O tempo de animalismo é o do impossível e o do inimaginável. Este é o nosso tempo: o único que nos resta."

Juliana Fausto
"Uma das grandes dificuldades que a mulher enfrenta ao denunciar atos machistas perante organismos legais - delegacias, tribunais, etc - reside não só no fato de que esses organismos e instituições sejam perpassados pela lógica machista e pelos mais diversos preconceitos socio-culturais que deveriam combater, ou que a maioria dos cargos seja ocupada por homens, é que também a própria linguagem que define o sujeito autônomo moderno com o qual o direito opera está estruturado numa lógica patriarcal e em seus modos de tradução verbal específicos. Daí advém uma assimetria de linguagem fundamental para se pensar numa perspectiva feminista os fundamentos místicos da autoridade, pensados em outra circunstância por Derrida. inclusive as dinâmicas das redes sociais enquanto mobilizadoras de um tipo de denúncia coletiva que viria tentar corrigir a impotência da palavra das mulheres quando proferida de forma isolada perante a Lei. As construções sociais da linguagem cujos princípios legitimadores são esguios esquivos e muito difíceis de localizar incidem nos modos de recepção das falas que tratam de dar conta de violências sofridas. O filme A paixão de Joana D'Arc de Carl Theodor Dreyer é de certo modo uma longa e dramática reflexão sobre essa assimetria brutal de linguagens e a farsa jurídica que ela produz. Ainda que hoje o caráter "natural" das agressões vividas pela mulher na sociedade tenha sido questionada e desconstruída, a assinação de lugares e comportamentos naturais à atuação feminina são ainda extremamente enraizados no imaginário social. Quando o demente e anacrônico Michel Temer fala sobre a mulher numa perspectiva conservadora, circunscrevendo-a ao espaço doméstico, não está apenas confirmando a virulência misógina e a hierarquia patriarcal que faz questão de cultuar mas exibe aí também uma concepção político-jurídica que contribui para a manutenção dessas assimetrias tanto no nível da linguagem quanto no das práticas jurídicas. Impressiona ainda na indigência intelectual do seu pronunciamento que ele não seja sequer capaz de fazer uma distinção entre a mulher abstrata e generalizada e idealizada segundo critérios os mais retrógrados e a mulher como "outro" concreto, a mulher brasileira, a negra, pobre e solteira que trabalha fora, cria filhos, banca uma família inteira e se defende diariamente da violência psíquica e física a qual é exposta. O grande perigo de falas idiotas como as de Michel Temer é que têm um poder ressonância enorme, e não importa que a mulher ali delineada exista apenas na cabeça demente de um político porque na hierarquia das linguagens institucionais prevalece essa mesma ideia e projeto de mulher que torna inaudível a denúncia e a crítica de uma perspectiva feminista, porque a mulher real, para o sistema, ainda não existe. E ainda mais triste e preocupante, infelizmente ela ainda não existe também, na percepção e articulação de discurso de muitos intelectuais "sensíveis", pois para muitos destes, lá no fundo, quando uma mulher é também uma intelectual, é porque de certo modo ela conseguiu se tornar um homem."

Laura Erber 

22 fevereiro 2017

A Guerra dos Turbante

Mário Maestri

Já tivemos a “Guerra das Laranjas”, no período colonial, com diversos mortos e, século mais tarde, já em plena República, a “Guerra das Lagostas”, essa felizmente apenas folclórica. Vivemos agora, quando o mundo do trabalho conhece no Brasil ataque de intensidade inaudita, um novo e estranho confronto, a “batalha dos turbantes”, de conteúdo sobretudo ideológico e sentido não desprezível, já que expressa e alimenta a fragilidade do movimento social no Brasil. 

Em geral, os termos da declaração de guerra foram os seguintes. Eu sou negra, uso turbante. Tu é branca e necessariamente racista, mesmo quando não sabes. Portanto, tira a mão de meu turbante. Se não o fizeres, serás liquidada com a acusação de “apropriação cultural”, ou seja, adesão simbólica à exploração racial e econômica que teus ancestrais realizaram aos meus, no passado, e que sigo sendo objeto, por parte dos brancos, no presente. 
O que talvez mais impacta na presente “guerra dos turbantes” não é a verbalização de tal disparate, mas a repercussão que ele alcança nos meios da esquerda e progressistas aos quais é dirigido, meios vinculados e comprometidos com a luta anti-racista. Nesses segmento, alcança, não raro, ampla adesão, em geral acompanhada de não sempre verbalizada desconfiança para com o sentido real de tal proposta, que anatematiza com a acusação de racista a todos os que não o aceitam.
História e Memória 
Dizem que o Diabo sabe por que é velho, não por que é Diabo. Assisti no Rio de Janeiro, em inícios dos anos 1980, a chegada do talvez primeiro missionário negro estadunidense da Fundação Ford - rosto gentil do Departamento de Estado USA - oferecendo bolsas para estudar o escravismo e a África Negra naquele país. A proposta chamou-me a atenção pois, apenas chegado de sete anos de exílio, era então um dos poucos africanistas em um mercado universitário que desprezava aquela formação. O que me ensejou indiscutível espanto e compreensível apreensão foi o fato de que o formulário de candidatura exigia foto, já que o financiamento era, ainda que não explicitamente, exclusivo para candidatos negros. Se isso hoje pode parecer normal, naquele então causava ampla e geral surpresa e, até mesmo, indignação. 
Naqueles anos finais da ditadura militar, dominava o movimento negro que se organizava as tendência de esquerda revolucionária, com destaque para a Convergência Socialista, onde militara, havia até poucos meses. Na CS, conheci grandes companheiros e militantes negros, como o João, no Rio Grande do Sul, o Flavinho, o Hamilton e muitos outros, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Todos eles vinculavam estreitamente as lutas anti-racista e social, vistas como indissoluvelmente imbricadas. Impunha-se matar o dragão da maldade racista, que oprimia sobretudo os trabalhadores e populares negros, na luta contra suas modernas raízes de classe capitalistas. 
Eram anos em que, junto com os Panteras Negras estadunidenses, as direções negras gritavam: - Nada de cotas! - Nada de migalhas, para alguns poucos privilegiados. Escola de qualidade, pública e universal para todos os jovem negro. Mesmo que no início se obtivesse pouco, e não tudo, deveria ser para todos, sem privilégios e exceções. Naquele então, pouca atenção se dava às propostas inaceitáveis que chegavam diretamente dos Estado Unidos de consolidar a sociedade capitalista e a exploração, pondo na vitrine algumas caras negras. 
Por esses paradoxos da história, defendi desavisado, em reunião da regional rio-grandense da Convergência Socialista, a política das cotas, na primeira vez que a discutimos, em 1979, creio. Quase apanhei. O João, operário metalúrgico negro, muito respeitado, liquidou minha frágil defesa, explicando, com exemplos de seu cotidiano, a exigência de que a população negra mais explorada fosse contemplada e jamais esquecida, desde o primeiro momento. Apontou aquela proposta como própria dos segmentos médios negros colaboracionistas.

Luta Racial, Luta Social
A fusão da luta racial e social era antiga e tradicional política da esquerda comunista. Ainda que muito transitoriamente, nos anos 1930, comunistas brasileiros discutiram e enunciaram a proposta de um Estado negro independente na Bahia, certamente em tentativa de transplantação apressada para os Trópicos das repúblicas autônomas soviéticas. Em 1929, o primeiro operário candidato à presidência do Brasil foi um comunista negro, o marmorista Minervino de Oliveira, como lembra sempre o historiador Muniz Ferreira. José da Silva, comunista, foi o único “negro retinto” eleito à constituinte de 1945 e, como tal, destratado pela imprensa burguesa. Carlos Maringhella, dirigente tradicional do PCB, era filho de operário italiano e neto por parte de mãe de trabalhadores escravizados. Em geral, esse passado é desconhecido pelos militantes de esquerda, que assimilam, por ignorância, a acusação de “insensibilidade marxista” à questão racial. 
Em verdade, a própria consciência teórica da importância singular e, em alguns casos, da dominância do escravismo em nosso passado foi em grande parte obra de intelectuais e de militantes comunistas, marxistas e esquerdistas, de todos os sabores. Entre os mais destacados podemos citar Astrogildo Pereira; Duviano Ramos; Benjamin Perret; Clóvis Moura; Jorge Amado; Édison Carneiro; Décio Freitas, Emília Viotti da Costa. Alguns deles propuseram desde sempre as formas de resistência dos cativos contra a escravidão como formas fundamentais da luta de classes no Brasil. Ou seja, o âmago de nossa história seria, para eles, a saga da oposição inquebrantável do escravizado ao escravizador.
Em inícios de 1980, anos gloriosos, o movimento negro em organização e a luta contra o racismo sofriam a forte influência positiva das classes trabalhadoras em ofensiva e dos segmentos político-ideológicos que se reivindicavam do mundo do trabalho. Em 1979, vivemos verdadeiro “Ano Vermelho”, com vastíssimo renascimento das lutas sindicais do Brasil. Nos anos seguintes, fundavam-se o PT aguerrido e anti-capitalista e a CUT classista e combativa. Foi nessa conjuntura de ofensiva do movimento social que nasceu o Movimento Negro Unificado, sob o forte influxo positivo assinalado.
Maré Neo-Liberal
Tudo isso, porém, faz já parte da história. Em inícios dos anos 1980, em derrota epocal, que pesa até hoje sobre o mundo do trabalho e a sociedade mundial como um todo, a vitória da maré contra-revolucionária mundial fez retroceder as organizações, as lutas e a consciências das classes trabalhadoras e subalternizadas. Triunfaram e tripudiaram as visões pró-liberais, conservadoras, colaboracionistas, irracionalistas, anti-operárias, sociais-democratas. Eram os tempos do “fim da história”, em que refluiu nas ciências sociais o estudo resistência dos trabalhadores escravizados, das lutas dos operários, das mulheres populares, dos camponeses, etc.
No novo contexto, socialismo, revolução, solidariedade, fim da opressão e exploração, uma sociedade sem racismo e opressão, etc. transformaram-se em verdadeiras aberrações indecentes, naturalizando-se a opressão. O individualismo e o social-darwinismo transformaram-se em axiomas social. O sucesso pessoal passou a ser o norte fixo da bússola de legiões de políticos, ativista, sindicalistas. No PT e na CUT, triunfaram as propostas colaboracionistas que transformaram a militância política em caminho - direto ou torto - para o sucesso individual. 
No PT, pôs-se fim ao partido dos núcleos em prol do partido dos parlamentares, dos administradores, dos capas-petras. Em nome da ascensão social jamais realmente vista de segmentos populares, no seio e sob o império da sociedade de classes, regou-se com a abundância a a horta do grande capital industrial e sobretudo bancário. No frigir dos ovos, militantes e sindicalistas metamorfosearam-se em carreristas, intermediário e agenciadores do grande capital. Alguns terminaram fazendo milhões, apenas conferenciando! Apenas hoje temos a dimensão jamais imaginada de um processo de corrupção em geral já conhecido desde os primeiros momentos.
Negros de Sucesso
Acompanhando a debacle das idéias e lutas sociais, triunfaram igualmente no movimento negro organizado, dominado agora por seus segmentos médios, as propostas racialistas, pró-burguesas e antisocialistas, com seu corolário de integração à sociedade de classe e racial. Em forma sumária, propunha-se que o racismo não era expressão e reprodução da sociedade de classe. Não haveria exploradores e explorados. Havia apenas negros, explorados, e brancos, exploradores. Tout court! Esse movimento foi acompanhado de forte deslocamento da proposta de representação identitária. Abandonou-se como figura paradigmática e referencial o trabalhador feitorizado que, com seu trabalho e luta construíram a nação, sem gozar do produto de seu esforço, pelo negro de sucesso, mesmo se, no passado, se transformava em escravizador. No frigir dos ovos, trocava-se Zumbi por Pelé. E, muito logo, procedeu-se literal encobrimento da história da escravidão, como algo vergonhoso, procurando-se concatenação do passado do negro brasileiro diretamente com uma sociedade africana imaginada e idealizado. Nos últimos anos, os estudos sobre a escravidão desapareceram tendencialmente enquanto os sobre a África multiplicaram-se, em geral desconectados da experiencia escravista colonial.
Havia que criar, a todo custo, uma consciência, uma organização e uma representatividade racial destacadas e em oposição ao resto do movimento social. Agora, o que imperava era o “nós” e o “vocês”! Havia que parir, nem que fosse a forceps, consciência racialista anti-branco multitudinária por sobre as determinações de classe. Com ela, construiria-se a autoridade de direção negra que negociasse com o Estado, em nome do racismo e de suas sequelas, não a emancipação da população negra explorada, mas a promoção de indivíduos singulares. Não se tratava, jamais, de por fim à sociedade de classes branca, mas apenas de integrar alguns negros privilegiados a ela. Não se queria virar a mesa dos privilegiados, mas apenas alguns lugares no ajantarado dos bem servidos.
Um ministro, um general, um juiz, um burguês negro eram propostos como uma conquista histórica para o movimento, mesmo que nesse processo se consolidasse a exploração social e racial geral. Lutava-se para que, também no Brasil, tivéssemos os nossos Colin Power, as nosssas Oprah Winfrey e Condoleezza Rice e, sonho dos sonhos, algum dia, um Barak Obama! Tudo igual ao proposto pela cartilha dos segmentos negros integrados e pró-imperialistas sobretudo do Partido Democrata estadunidense.
Tudo pela Auto-Estima
As promoções isoladas e a conta-gota, enquanto a massa negra vegetava submergida na miséria material e espiritual, foram defendidas como imprescindíveis à promoção da “auto-estima” da população brasileira com afro-ascendência. Era como dezenas de milhares de operários negros, apinhados nos transportes coletivos, em direção do trabalho duro e enfadonho, gritassem de orgulho, ao verem um burguês afro-ascendência sentado no banco de trás de um mercedes! O PT satisfez parcialmente essa expectativa com, entre outras iniciativas, a nomeação de alguns ministros, com destaque para a indicação de Joaquim Barbosa ao Superior Tribunal Federal, devido apenas ao fato de ser indiscutivelmente negro. E deu no que deu! 
A reconversão pró-burguesa e anti-operária do movimento negro organizado foi toda ela comandada pelo imperialismo estadunidense. As ditas elites brasileiras não estavam, definitivamente, a altura de uma operação tão refinada. Em fins dos anos 1970, Abdias do Nascimento chegava ao Brasil de um pretendido auto-exílio, de dez anos, nos … USA! Em verdade, ele viajara aquele país a convite de universidade, ali permanecendo nos anos seguintes devido às oportunidades oferecidas. Jamais participara de organização de esquerda ou de oposição à ditadura militar. 
No passado distante, entre outras atividades políticas secundárias, Abdias aderira ao fascismo tupiniquim, tendo sido, inclusive, amigo de Plínio Salgado, fundador da Ação Integralista Brasileira. Apenas desceu do avião, ele começou a disparar contra a esquerda marxista, acusando-a de racista. Para a alegria dos ditadores de plantão. No seu retorno, foi acolhido e apadrinhado por Leonel Brizola, que, diga-se de passagem, mais branco não podia ser. O caudilho rio-grandense tudo fez para promovê-lo como parlamentar. Principal líder das propostas racialistas e socialmente assimilacionistas, Abdias morreu aos 94, militando no PDT.
Os Anos Dourados
O movimento negro organizado, sob o controle e influência dos segmentos médios, conheceu verdadeiros anos dourados, nos quais consolidou suas políticas racialsitas e social inegracionistas, quando o PT, já na presidência da República, abraçou plenamente as propostas de promoção étnica seletiva e restritiva como parte de sua demagogia social-liberal. De certo modo, o lulismo colhia o que o Brizola plantara! Sob o reino petista, as “cotas” e as “políticas compensatórias" transformaram-se na bandeira triunfante da promoção exemplar e seletiva , enquanto a imensa maioria dos jovens brasileiros, com destaque para os negros, era mantida na ignorância, na exploração, na pobreza, na alienação. Nos anos de reino petista, prosseguiu o massacre dos populares jovens, com destaque para os negros. 
O resultado dessas políticas foram pífios, a não ser para os contemplados. Em nosso país de 200 milhões de habitantes, apenas número escasso de médicos negros cotistas, quanto muito, foram formados, anualmente, como demonstração maior do conquistado. - Não é melhor isto do que nada? - respondiam as lideranças negras e petistas à pergunta sobre os milhões de jovens brasileiros de todas as cores marginalizados. Talvez a resposta tenha chegado nas asas dos aviões que derramaram sobre o Brasil borbotões de médicos negros cubanos, formados em um país de extrema pobreza de recursos, se comparado ao Brasil. Um pequeno país pobre que garante o ensino, não para alguns, mas para todos os jovens que desejem.
Resultados Pífios
Nesses quase quarenta anos envolvido em tais questões, três momentos paradigmáticos da hegemonia da política de racialização neo-liberal me golpearam fortemente. O primeiro foi o literal ostracismo político em que morreu Clóvis Moura, por parte do segmento dominante do movimento negro organizado, reconvertido ao neo-racialismo pró-burguês e pró-capitalista. Ele, que por primeiro iluminou, já nos anos 1950, a dominância da escravidão na antiga formação social brasileira, e realizou talvez a obra mais completa sobre a questão negra no Brasil, amargou com a dignidade que era sua o literal arquivamento a que sofreu. 
Uma vez perguntei-lhe: - Clóvis, meu velho, por que nunca te propuseram para a Fundação Palmares? - o que sabia ter sido sempre um seu desejo, ainda que jamais verbalizado. - Maestri, não confiariam em um velho militante comunista como eu - foi a resposta que recebi. E jamais confiaram, efetivamente. Destaque-se, a bem da verdade, que, até além de sua prematura morte, Clóvis Moura recebeu o agradecido reconhecimento solidário do MST, em geral, e de Pedro Stédile, em particular.
O segundo momento foi certamente a visita ao Brasil de Hillary Clinton, secretária de Estado dos USA, em dezembro de 2013. Ela proferiu badalada palestra-debate, na Faculdade Zumbi dos Palmares, universidade privada para negros, fortemente inspirada e apoiada pelos estadunidenses. Com a mediação de William Waack e Maria Beltrão, da indefectível Globo, Hillary pontificou sobre as maravilhas das políticas de “compensação” estadunidenses e de suas cópias caboclas. 
Os elogios e salamaleques à dama de mãos ensanguentadas foram incessantes e sequer um entre as dezenas de estudantes e lideranças negras presentes levantou uma palavra, um cartaz, uma faixa, em solidariedade às centenas de milhares de jovens negros enviados para a prisão, como forma de contenção social, sobretudo durante a administração Bill Clinton. Ou para pedir a liberdade de presos políticos negros nos USA, alguns encarcerados há décadas. 
O terceiro e último fato que muito me impactou foi o enorme silêncio, da imensa maioria das lideranças dominantes do movimento negro incrustado no PT ou fora dele, sobre a miserável ocupação militar do Haiti comandada pelo Brasil, às ordens do imperialismo estadunidense. Agressão inaugurada precisamente no segundo centenário da vitória gloriosa da insurreição haitiana, em 1804. Revolução negra que resultou no primero estado americano livre da escravidão! Até hoje, as tropas de ocupação brasileiras lá seguem, sem praticamente oposição nacional consistente a sua ação criminal. 
Um Balanço Geral
A política de racialização procurou sempre a divisão radical do movimento social. Para tal, mobilizou-se por uma divisão inverossímil da sociedade brasileira em dois campos. No primeiro, estariam os “brancos” exploradores. Seriam, todos eles, descendentes de escravistas, criados e amamentados por mães-pretas. Ou trabalhadores imigrantes europeus, chegados após o fim da escravidão, também privilegiados pelo racismo, em verdade, não se sabe como ou por quê. Uma descrição desrespeitosa de milhões de brasileiros não negros que viveram e vivem apenas de seu trabalho explorado.
Do outro lado se encontrariam os “negros”, todos eles explorados, e jamais exploradores, totalmente desterrados em sua própria terra, ou seja, o Brasil, pois incapazes de reconstituírem suas raízes africanas. “[…] seres sem um pertencimento definido, sem raízes facilmente traçáveis, que não são mais de lá [da África] e nunca conseguiram se firmar completamente por aqui [no Brasil].” Como se a existência social dependesse das raízes étnicas distantes e não da vida no aqui e agora da existência social.
Procura-se incessantemente divisão da sociedade brasileira em facções étnicas incomunicáveis, cada uma encastelada em suas tradições, como já assinalado. Uma proposta amalucada que fatia o Brasil artificialmente em descendentes de italianos, de alemães, de judeus, de portugueses, de africanos, de asiáticos e assim vai. Cada etnia com seus representantes raciais, negociando com o Estado e entre as diversas etnias as reivindicações de seus nacionais. Um projeto que nega de per si a possibilidade de uma nacionalidade comum, mesmo assentada no mundo do trabalho e não da exploração.
Teríamos, portanto, simplificando, uma cultura negro-africano e uma cultura branco-européia. A pizza seria dos italianos; o turbante, dos afro-descendentes. Se a apropriação da primeira não traria problemas, pois produzida por população “branca” que se pressupõe ter sido e ser racista, a segunda deve ser monopólio intocado, já que expressa simbolicamente a resistência anti-racista, exclusiva e necessariamente negra, contra todos os brancos. Tudo isso no reino das fantasias ideológicas. A pizza, nas suas raízes mais recentes, é bom lembrar, não é produção cultural italiana, mas das classes populares napolitanas, o que é muito, mas muito diferente. Assim como a proposta de uma cultura africana unitária é produto de uma síntese falsa nascida da manipulação ideológica ou da ignorância sobre a história e a realidade da África Negra. 
Unidade Cultura Contraditória
Esse proposto fatiamento social étnico, verdadeira abstração fantasiosa, talvez seja possível de ser imaginada, em forma forçada e manipulada, para algumas regiões dos USA ou da África do Sul. Ele é totalmente artificial entre nós. Sobretudo, no Brasil, fora imigrantes europeus e africanos muito recentes, a imensa maioria dos ditos “brancos” tem um pé na África e na “maloca”, assim como os mais insuspeitos “negros” possuem raízes étnicas européias e indígenas. 
Procurar encontrar as raízes e locais de proveniência dos ancestrais, para multidões de brasileiros, é se abrir em um leque vertiginoso de origens africanas, européias, americanas, asiáticas, etc., nenhuma delas possíveis de serem apreendidas fora de suas diversidades internas. Em apenas quatro gerações, cada um de nós possui nada menos do que quatorze ancestrais! Mas, em verdade, a verdadeira manipulação não se dá na construção de uma população brasileira imaginária de raízes raciais puras quando, em sua imensa maioria, são resultado de inúmeros cruzamentos étnicos. 
As propostas racialistas pró-burguesas e pró-capitalistas procuram sobretudo o encobrimento das verdadeiras raízes de nossa sociedade, operação empreendida por praticamente todos os ideólogos das classes dominantes brasileiras, do passado e do presente. As origens basilares da nossa nacionalidade não são européias, africanas, americanas. Esses e outros aportes culturais menores foram metabolizados e recriados por mais de três séculos de ordem escravista colonial, resultando desse processo sociedade nacional determinada pelas fortes contradições sociais despóticas da organização escravista e de suas sequelas. Entre elas, a cultura e a tradição racista anti-negro.
É sandice maior propor a separação do afro e do europeu na cultura brasileira. Nos fatos, é o mesmo que pretender separa o hidrogênio do oxigênio e ainda beber água. Da simbiose escravista, terrível em suas contradições, nasceu nossa forma de falar, de comer, de dançar, de amar, de socializar. Da escravidão dependeu a própria unidade nacional brasileira. Se temos Brasil, para o bem e para o mal, devemos a ela. A sociedade escravista foi a casa que nos coube, onde fomos infantados. O berço que conformou as raízes que temos que defrontar, para superar o que o passado teve e nos legou de terrível iniquidade, retomada pelo presente.
Por além das múltiplas ascendências étnicas que portamos todos nós, algumas dominantes, outras subordinadas, somos, todos os brasileiros, descendentes de trabalhadores escravizados ou de escravizadores, segundo nosso pertencimento atual ao mundo do trabalho ou do capital, objetiva ou subjetivamente. Nesse sentido, podemos dizer que é, efetivamente, a cor do turbante que todos nós portamos, em forma consciente e inconsciente, que define nossa alma social. 
Um Novo Período 
Entretanto, mesmo os poucos privilégios permitidos pelas políticas racialistas já fazem parte também de um passado em superação. O capital imperialista pôs fim às concessões sociais pontuais que acompanhavam as políticas liberais. Políticas que justificaram e alimentaram em boa parte a era petista. Com elas estão sendo enviadas para as calendas as propostas “compensatórias” e as promoções sociais exemplares. Ato inicial do governo Temer foi pôr fim ao Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Muito logo, o financiamento nas universidades privadas serão feitos a juros de mercado, entregando-se com o diploma ao formado dívida que jamais poderá pagar, como habitual nos USA. Já se iniciou, também, o desmonte das escolas universitárias públicas, em perspectiva de privatização das mesmas.
Aquelas iniciativas e concessões pontuais, criadas para favorecer a dominação pacífica do movimento social, através da cooptação dos seus segmentos superiores e direções, são desprezíveis para gestão do Estado e da sociedade que abre confronto direto com os núcleos centrais do mundo social e do trabalho. Uma política, na procura desenfreada de lucro crescente para o grande capital, despreocupada com o literal processo de canibalização da sociedade. Hoje já nos defrontamos com uma nova ordem que, ainda mais do que ontem, golpeia a todos, com destaque indiscutível para os setores mais frágeis, entre eles, as populações negras marginalizadas. A união dos oprimidos segue sendo, mais agora do que antes, o único caminho a ser trilhado. A divisão social é criminal.