12 setembro 2014

uma leitura sobre o real na sociedade de massas



É indiscutível que em nossa época sofremos terrivelmente os efeitos que as alteradas condições de existência dos grupos humanos geraram. As transformações que isolam o sujeito de tudo e de si mesmo, o isolam também de seu próprio tempo. Impossível de ser apreendida pelos sentidos do homem dada a sua desfiguração, medido pela dinâmica da produção das mercadorias, o tempo é regrado pelas necessidades da indústria e também revertido em mercadoria. “Blocos de tempo” são vendidos travestidos em lazer, cultura, sexo e trabalho.

Sem, nem de longe, esbarrar em possibilidades de convivência e espaços reais de experiências, o homem consome aqueles simulacros como lenitivo a essa condição. Ademais, a realidade do tempo foi substituída pela publicidade do tempo, e o que foi representado como vida real revela-se como mais realmente espetacular.
Escassa em possibilidades autênticas, a vida vivida é ilusória, historicamente deficiente, e o espetáculo de acontecimentos apresentados para consumo não produz experiência naqueles que lhe assistem, além de tornarem-se obsoletos a cada pulsão temporal.

Diante dos choques sensoriais a que se submete a cada instante, o habitante urbano requer sempre mais e mais estímulos e desse modo, como efeito contrário, ele adquire um comportamento blasé e indiferente a tudo que o cerca. Não enxerga o outro e nem a si mesmo, sendo também incapaz de dimensionar o que é passado ou presente, pois tudo é vivido simultaneamente quando as distâncias espaciais se diluem: o tempo presente sucumbe ao “poder mágico” da simulação, do espetáculo.

Real ou virtual, o sentido de tempo vivido é negociado nas culturas contemporâneas. No ponto mais extremo, os limites entre real e ficção se apagam, e o indivíduo se dissolve no mundo imaginário da tela, ou da tecnologia. Se por um lado, a fugacidade e a imaterialidade desse cenário apontam para o perigo do esquecimento, da perda da memória, por outro, não há como reconhecer o tempo presente sem admitir que o perigo é inerente às atuais formas de decodificá-lo. Em outras palavras, a ameaça do esquecimento provém da mesma tecnologia produzida pelo homem para justamente preservar sua memória.

A profunda ansiedade gerada por esse novo e obscuro trato com a velocidade e com a desfiguração do espaço caracteriza esse estado de coisas. A sociedade, simultaneamente, enquanto perde em extensão do presente, cria cada vez mais informações, comportamentos, “visões de mundo” em vista da aceleração cultural sem precedentes que caracteriza esses tempos atuais. É inegável que o mundo circunscreve-se em redes cada vez mais densas de espaço e tempo comprimidos, todavia é imprescindível compreender esse processo no lugar de lamentá-lo.

A perda de referências que antes lhe garantiam equilíbrio gerou no homem moderno uma sensação de pânico que o fez voltar-se a si mesmo. Protegido pela sensação narcísica do culto ao corpo e ao consumo, o sujeito se contenta em olhar para si ou, no máximo, para um restrito grupo com que mantém alguma identidade. Em razão disso, o bem comum acaba perdendo para o individualismo e o indivíduo se vê sem alternativas grandiosas. num movimento narcísico em nome da sua exclusiva preservação. Desse modo, ele se volta para o próprio corpo, e inventa um desenfreado interesse pelas biografias, por relatos documentais, testemunhos, “blogues”, etc.. Caberia então perguntar se esses produtos não corresponderiam à necessidade do sujeito de individualizar-se ou distinguir-se em meio à massa humana? Não estariam apontando para formas de garantir um espaço de ação e diálogo? Não expressariam, finalmente, o desejo humano de ir mais devagar e constituir algum tipo de antídoto ao esquecimento e à aceleração dos sentidos?

Acostumada aos contrastes e ao ritmo sempre mais veloz das imagens e das informações da mídia, a aceleração a que está submetida a vida material impõe a necessidade de um novo código que responda a essa velocidade compressora do espaço e do tempo humano.

Revitalizar o real diante da vida mediatizada pela tv, mídia e imagens revela a perplexidade diante do mundo e necessidade de encontrar uma narrativa que unifique ou mesmo que reintegre o indivíduo a um tempo que ao menos se apresente parcialmente preenchido, isto é, todas essas iniciativas não expressariam o desejo de distinguir uma âncora em uma sociedade, cujo tempo e espaço se traduzem fraturados?

A questão é descobrir se a acentuada atenção das sociedades a fenômenos de natureza “documental” não demonstraria uma exaustão daquela linguagem tipicamente ilusória e espetacular, não serviria como antídoto às formas deste tipo de entretenimento que dissocia o humano de si mesmo? A medida de exaustão do que se conhece como “show da vida”? Ou, na verdade, seria mais um fenômeno da sociedade de massas, um fetiche do mercado?

Andreas Huyssen é categórico ao afirmar que “não há nenhum espaço puro fora da cultura da mercadoria”. Provavelmente, o esforço empreendido pelo corpo social em busca de um real isento de operações discursivas e retóricas, ou, em outras palavras, em busca de uma vida-real, se manifesta como resultado de um encolhido presente, marcado pela regra da velocidade, do lucro e dos prazeres efêmeros; e certamente esse esforço pode também ser um viés resultante da indústria da cultura e das novas tecnologias de mídia. Mas não há porque não ponderar sobre novas possibilidades que essa mesma dinâmica convoca.

A profusão de inovações que envolve simultaneamente mudanças tecnológicas, padrões de consumo, mídia, trabalho provoca na sociedade novas relações com a temporalidade. Alguma coisa que resulte numa espécie de refreamento de um “futuro que não mais nos inspira confiança”.

Os chamados reality-show’s, por exemplo, são programas característicos da chamada “nova televisão” e se traduzem por evocar o real não ilusionista, levando para a “telinha” a “vida como ela é”. Gravados ao vivo, apresentam um caráter nivelador na medida em que possibilitam a todos , ou a qualquer um, a chance de “estar no ar” ou a decisão sobre quem vai “estar no ar”.

Esse gênero televisivo, segundo a opinião de seu criador, John de Mol, é muitas vezes incompreendido como o foi o “rock’n’roll [quando] aumentou a distância entre jovens e adultos nos anos 60”, mas ocupa espaço promissor no imaginário social, junto a outros produtos da comunicação de massa. Especificamente se referindo ao programa Big Brother , seu criador ainda aponta para o caráter que este apresenta de testar a capacidade humana. Em suas palavras: “trata-se de um teste para descobrir quem você é e quão forte consegue ser -- de verdade, não do jeito que você imagina ser”.
A despeito da relevância ou não dessas opiniões, de alguma maneira essas formas retóricas do discurso cotidiano asseguram uma espécie de sensação de pertencimento do sujeito e restituem laços sociais outrora esgarçados pela dinâmica da sociedade. Não é de todo errado considerar que estas expressões podem levar à criação de uma nova gramática do cotidiano, que exclua formas mais comuns de ilusionismo, onde o real se apresentará em sua concretude ou pelo menos como espelho de cultura do seu público.

Para tanto, em primeiro lugar a gravação ao vivo já o distingue de qualquer outro produto, como no cinema, os documentários. O tempo no cinema não é neutro e portanto, é marcado por um processo de manipulação que ao espectador não se manifesta de modo claro. Em outras palavras, sempre nessa perspectiva, o elemento ficcional está em jogo. Nas gravações ao vivo unidas às transmissões ao vivo, o recurso do tempo é anulado, e o que se vê é o tempo real. Mesmo considerando que qualquer produto dessa natureza poderá sofrer intervenções técnicas, ou mesmo estéticas, a televisão procura sempre apagar suas marcas. O que se apresenta na tela é como se fosse literalmente real, a vida como ela é, o que reforça a credibilidade, demanda essencial para o público em questão.

Desse modo, a premissa que se coloca é a verdade da imagem. Em uma sociedade cuja cultura é fundada na visão, é incontestável a força probatória daquilo que se pode ver “com os próprios olhos”. Mais que outros discursos que necessitam ao menos de verossimilhança e coerência, a vantagem das gravações ao vivo é seu imediatismo, que anula a distância temporal, pois se dá em tempo real, e consequentemente, anula também a distância espacial, pois o que é visto “é como se estivesse ali”.

Outros fatores importantes caracterizam esse tipo de transmissão. Cria-se a ilusão de que não há um narrador, um intermediário. No caso de haver interação entre telespectador e “produto”, esse pacto com o público estabelece uma sensação de igualdade-não existem autoridades- “aquilo que eu vejo acontece ali e acontece porque assim eu escolhi”. Sendo assim, não se pode desprezar que diante da falência generalizada das instituições sociais e numa outra perspectiva, do discurso público, é sensato a afirmação de que este “espaço” carrega em si um traço forte de confiança, credibilidade e democracia. O produto apresenta-se como o legítimo discurso da verdade em meio à opacidade disseminada dos “refletores”, e ocupa lugares institucionais de participação social já deteriorados ou mesmo falidos, forjando comunidades imaginárias, laços sociais refeitos nas inóspitas grandes cidades. Por fim, paradoxalmente, cria ilusões de proximidade anulando as distâncias, estabelece a sensação de continuidade temporal. De alguma maneira, apresenta uma fantasia sob medida para o homem desencantado que vive sob as leis do liberalismo de mercado.

“Certas idéias nascem doces e envelhecem ferozes. Outras, já são ferozes ao nascer” disse Borges. Revitalizar o real diante da vida mediatizada pela tv, as mídias, e as imagens – como, então, nos conectar ante a perplexidade em que nos encontramos? Se a ficção entra pelo real e vice-e-versa, se faz necessário um novo realismo para vincular vida e arte. Sem dúvida, o esmorecimento da experiência incita a busca por uma autenticidade que se alie ao real e precisamente ao realismo. O interesse pelas biografias, documentários, pelos testemunhos e “blogues” demonstram um novo tipo de realismo que faz uma aposta na porosidade de fronteiras entre o real e o ficcional, usando fortemente a narrativa do cotidiano, que ou não é estetizado ou o é através de uma linguagem que traduz ao mesmo tempo o “belo e a poeira”. O código realista se disseminou por meio de avanços tecnológicos, adquirindo uma expressão global, e as novas narrativas realistas estão pautadas nessa modernidade – que se instaura sob a genealogia dos estímulos e seus vastos vocabulários. Como tentativa de individualizar-se ou como fenômeno de mercado, de alguma maneira tudo se insere no campo da cultura, e como tal, em seu movimento insidioso, desloca sempre dos lugares artificiosos, alguma brecha de escape ao fetiche, à reificação.
 

LÍCIA KELMER PARANHOS é carioca, 40 anos. Professora de língua portuguesa e literatura brasileira. Mestre em literatura comparada pela UFRJ. Especialista no escritor sul-africano J.M. Coetzee.

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