08 julho 2014

O segundo número de Noa começa com uma pergunta lançada por Mario Goldenberg, convidado da nossa Jornada: “Deus terá morrido?” 
Uma dúvida que se confronta com a crença em Deus, para a qual, para se fazer valer, não poderia existir o benefício da dúvida. Oswald  de Andrade, no início do século passado, dizia que a filosofia do século XX suportava um “ateísmo com Deus”, que podemos pensá-lo na  descrença em Deus, mas com Deus. Uma fórmula interessante para lermos a manutenção da ideia de Deus como terceiro incluído que  atravessa a filosofia dos messianismos kafkianos e benjaminianos até Jacques Derrida e Giorgio Agamben, e que também atravessa a  psicanálise, de Freud a Lacan. 
No Seminário 4, Lacan aponta para a dimensão total e sem furos de Deus, na qual se sustenta uma posição crente de amor, para dizer  que não é nela que este se fundamenta: “Suponhamos um sujeito provido de todos os bens possíveis, de todas as riquezas, um sujeito que tenha a plenitude possível de tudo o que se possa ter. Pois bem, um dom vindo dele não teria de modo algum o valor de um signo de amor. 
Os crentes imaginam poder amar Deus porque Deus é considerado detentor de uma plenitude total, uma totalidade de ser. Mas se este reconhecimento dirigido a um deus que seria tudo é apenas pensável é porque, no fundo de toda crença, existe ainda assim esse algo que permanece ali – este ser que se considera ser pensado como um todo, falta a ele, sem dúvida alguma, o principal no ser, isto é, a existência. 
No fundo de toda crença em deus como perfeita e totalmente munificente, existe a noção de uma coisa qualquer que lhe falta sempre, e que faz com que se possa, ainda assim, sempre supor que ele não exista. Não há outra razão para amar a Deus senão que talvez ele não exista”. 
É no talvez, na falta, neste princípio não-todo que será também, mais tarde, o do feminino, que se sustenta o amor. Estamos longe, portanto, de uma universalização, de uma completude se seguimos Lacan. É isto que Mario Elkin Ramírez sustenta em sua entrevista, publicada neste número, quando relembra o texto de Freud sobre a cosmovisão: da impossibilidade da psicanálise explicar tudo. E é neste impossível, que também traz o texto de Jussara Jovita sobre o corpo e a crença, que a psicanálise se fundamenta e aposta na invenção singular do sujeito que abra espaço para o amor. Invenção que pode ser, inclusive, de um Deus, já que, como diria Clarice Lispector: “enquanto eu inventar Deus, ele não existe”.

Flavia Cera